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Desenvolvimento

Por que formamos pessoas para um mundo que já não existe?

Incorporar o pensamento de futuro na educação exige coragem, métodos inovadores e a disposição de transformar a sala de aula em um laboratório de possibilidades

Luís Rasquilha
5 min de leitura
Por que formamos pessoas para um mundo que já não existe?

Vivemos em plena era da mudança, onde tudo à nossa volta – tecnologia, ambiente, sociedade, trabalho – está em constante transformação. No entanto, as escolas e universidades continuam a ensinar como se o mundo estivesse parado. Continuamos a ensinar história (e bem!), mas esquecemo-nos de ensinar futuro. E isso tem um custo.

Ensinar o passado é importante: ajuda-nos a compreender de onde viemos, a aprender com os erros, a valorizar conquistas. Mas, quando esse é o foco quase exclusivo da educação, formamos mentes treinadas para analisar o que já foi – não o que pode vir a ser. E essa miopia pode ser fatal em um mundo onde os desafios do amanhã exigem soluções que ainda nem existem hoje.

Foresight, ou pensamento de futuro, é a disciplina que estuda tendências, sinais emergentes, possíveis cenários e disrupções. Não se trata de prever com exatidão, mas de preparar para possibilidades. É uma competência estratégica, aplicada em governos, empresas e organizações de vanguarda. Mas raramente entra nas salas de aula.

Por que razão não ensinamos crianças a pensar no que o mundo pode ser em 2035? Por que não desafiamos os jovens do ensino secundário a imaginar os empregos que ainda não foram inventados? Por que os estudantes universitários não aprendem a mapear tendências, analisar sinais de mudança ou projetar soluções para futuros sustentáveis?

A verdade é que o sistema educativo está mais preocupado em certificar do que em preparar. Em manter do que em transformar. Em repetir do que em imaginar. Em preparar para o saber-fazer em vez de preparar para o saber-pensar.

O que poderia ser ensinado

  • Análise de tendências: identificar padrões emergentes em tecnologia, sociedade, economia, ambiente ou comportamento humano.
  • Deteção de sinais fracos: observar pequenas mudanças que podem indicar grandes disrupções futuras.
  • Construção de cenários: criar narrativas plausíveis sobre como o mundo pode evoluir em diferentes direções.
  • Backcasting: definir um futuro desejado e pensar estrategicamente para trás, até ao presente, para descobrir como lá chegar.
  • Futures wheels (rodas do futuro): mapear os impactos em cadeia de uma inovação ou acontecimento.
  • Design de futuros (speculative design): usar a criatividade e o design para imaginar objetos, serviços ou sociedades futuras.
  • Matrixes de impacto/probabilidade: classificar tendências e riscos segundo seu potencial de impacto e probabilidade de ocorrência.

Exemplos práticos de aplicação

No ensino básico: um projeto onde os alunos criam histórias ilustradas de como será a sua cidade em 2050, considerando mudanças climáticas e tecnologia.
No ensino secundário: projeto interdisciplinar onde grupos simulam o funcionamento de um país em 2040 – sistema de saúde, educação, mobilidade, alimentação, energia.
No ensino superior: módulos em cursos de gestão, engenharia ou ciências sociais onde os alunos constroem cenários de futuro para o setor em que vão atuar, integrando tendências geopolíticas, tecnológicas e sociais.

Educar para o futuro exige coragem

Tudo isso pode ser feito com ferramentas simples, orientadas por professores capacitados e apoiadas em metodologias ativas, como project-based learning, gamificação, design thinking e aulas abertas com profissionais do mercado.

Ensinar o futuro não significa abandonar o passado – é oferecer contexto. Significa dar aos alunos ferramentas para navegar na incerteza, adaptar-se às mudanças e liderar com visão. Significa formar cidadãos ativos, profissionais inovadores e empreendedores sociais. Significa tornar a educação um motor de antecipação, não apenas um espelho retrovisor.

Claro que mudar não é fácil. As universidades ainda estão presas a currículos fixos, disciplinas compartimentadas e modelos ultrapassados de avaliação. Falta formação aos docentes, falta coragem institucional, falta visão. Mas o preço da inação será pago pelas próximas gerações.

Está na hora de incorporar o futuro à sala de aula – com projetos de foresight, desafios de inovação e perguntas abertas, sem respostas prontas. Porque o verdadeiro papel da educação não é apenas ensinar o que já sabemos, mas preparar para o que ainda podemos descobrir.

E isso começa com uma decisão simples: deixar de ensinar apenas o que sabemos e começar a explorar com os alunos tudo aquilo que ainda podemos criar e descobrir.

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Luís Rasquilha
CEO da Inova TrendsInnovation Ecosystem e professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Hospital Albert Einstein e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

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