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IA x PESSOAS

Entenda os padrões de automação e transforme a força de trabalho

A inteligência artificial avança por estágios entre tarefas e funções. Aprender como isso funciona ajuda os líderes a navegar mais estrategicamente pela transformação da força de trabalho

Will Drover e Laura Huang
17 min de leitura
Entenda os padrões de automação e transforme a força de trabalho

À medida que a inteligência artificial começou a escrever códigos, pilotar veículos e até diagnosticar doenças, narrativas de máquinas começaram a substituir abruptamente humanos. No entanto, a realidade é mais lenta, mais desordenada e muito mais desigual. Em diferentes funções e setores, as capacidades emergentes da IA formam o que muitas vezes se chama de  “fronteira irregular” – um cenário em que ela se destaca em algumas tarefas, enquanto ainda encontra dificuldades em outras.

Com o avanço de suas capacidades, a IA acelera rumo à automação completa de determinadas atividades, enquanto desacelera, até quase parar, travar completamente em outras. Líderes que compreendem os fatores que modelam essa realidade complexa conseguem guiar a estratégia e o talento com clareza e estabilizar suas organizações no processo.

Uma análise de 2024 sobre o progresso da IA feita pela McKinsey & Co. sugere que essa desigualdade aparece não apenas entre funções, mas dentro delas, no nível das tarefas. A consultoria projeta que, até 2030, em seu cenário intermediário, a demanda por algumas profissões deve cair drasticamente, como suporte administrativo e atendimento ao cliente. Isso porque esses papéis se concentram em tarefas que a IA já consegue executar, como inserir dados, processar faturas, receber pedidos e responder a consultas rotineiras dos clientes.

Por outro lado, a demanda tende a permanecer elevada – ou até crescer – para profissionais da saúde e para aqueles ligados às áreas de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), cujas atividades envolvem tarefas que a IA ainda tem dificuldade de replicar, como avaliação clínica, cuidado empático e resolução de problemas complexos e não rotineiros.

A linha divisória não está no título do cargo, mas na composição das tarefas. A questão central, portanto, é: o que há em determinadas atividades ou funções que as torna mais ou menos suscetíveis à automação?

Identificamos fatores-chave por trás desses obstáculos – como repetição, regulação, julgamento e checagem humana – que retardam a adoção da IA. Com base nessas evidências, oferecemos uma perspectiva mais detalhada sobre por que a maioria das aplicações evolui em etapas e em diferentes velocidades. O futuro do trabalho não será definido apenas pelas capacidades da IA, mas também vai depender dos fatores de atrito com que ela irá se deparar ao longo do caminho.

O que impede, afinal, que a IA assuma rapidamente um papel por completo?

Em diversos setores, a automação costuma seguir uma progressão intuitiva e relativamente previsível.

  • Fase 1: assistência. A IA lida com tarefas repetitivas e estruturadas que consomem tempo, mas com poucas nuances.
  • Etapa 2: remodelar. As responsabilidades humanas migram substancialmente para interpretação, supervisão e pensamento de ordem superior, à medida que as máquinas assumem tarefas centrais e a execução.
  • Estágio 3: substituir. Automação total acontece, sem nenhum humano no circuito.

Em vez de perguntar se a IA assumirá totalmente um trabalho, uma abordagem mais construtiva é perguntar quais tarefas podem ser facilmente realizadas por ferramentas de IA e quais são mais resistentes à automação. A tabela abaixo oferece uma análise prática – embora não exaustiva – do porquê de a marcha da IA estar longe de ser uniforme ao longo das três etapas. Os pontos de atrito listados ajudam a explicar por que a automação avança rapidamente em alguns domínios, mas permanece teimosamente humana em outros, e como os líderes podem antecipar melhor o próximo desafio nesse caminho desigual.

Por que ainda são dois pilotos na cabine do avião?

Os pilotos estiveram entre os primeiros profissionais a compartilhar responsabilidades críticas com sistemas automatizados. O piloto automático tornou-se padrão desde a década de 1980 e, hoje, a automação executa grande parte das tarefas que antes eram realizadas manualmente, como a navegação em espaços aéreos complexos e até pousos totalmente automatizados em condições de baixa visibilidade. Ainda assim, embora tenha apoiado e redesenhado profundamente a função, a cabine continua contando com dois humanos.

O fato é que, embora os pilotos tenham evoluído de operadores manuais para gestores de sistemas altamente automatizados, a presença humana continua essencial. À luz dos fatores apresentados em “Fatores de atrito que retardam o progresso da IA”(artigo sobre o futuro do trabalho e automação da McKinsey & Co.), fica mais claro por que a etapa 3 (substituir) permanece fora de alcance.

A barreira à automação completa não é capacidade bruta

A necessidade de garantia humana permanece alta: os passageiros ainda esperam que um humano esteja na cabine porque vidas estão em jogo. O julgamento também continua sendo essencial, já que a função exige decisões rápidas, não roteirizadas e tomadas sob incerteza. Atolerância a erros é zero ou próxima disso, sem margem para falhas técnicas, enquanto a regulação avança de forma inerentemente lenta e cautelosa. A barreira, portanto, não está na capacidade bruta da tecnologia, mas em um amontoado de restrições humanas, legais e culturais. A European Union Aviation Safety Agency, por exemplo, prevê que a autonomia total da aviação comercial dificilmente ocorrerá antes de 2050.

Em contraste, a autonomia total tende a se tornar viável muito antes na aviação de carga e militar: sem passageiros, a regulação é menos rígida, a demanda por garantia humana diminui, a tolerância a erros é um pouco maior e há menos decisões de alto risco a serem tomadas em tempo real. É por isso que drones, operações de carga não tripuladas e caças estão se movendo mais rápido por esses estágios. Por essa razão, empreendedores como Myles Goeller, da Reliable Robotics, defendem começar pelos mercados de carga e defesa, nos quais comprovar a segurança da automação total pode construir a confiança necessária para uma eventual adoção em voos de passageiros.

Portanto, enquanto a aviação comercial de passageiros talvez não alcance o estágio 3 por décadas, outros setores da aviação provavelmente o farão muito antes. Essa diferença reforça a ideia de que, mesmo dentro da mesma categoria profissional, os papéis podem ocupar diferentes estágios e avançar em ritmos distintos.

A mesma evolução desigual está em andamento na medicina, educação, finanças e na maioria dos outros domínios. Compreender os pontos de atrito – tanto técnicos quanto humanos – é fundamental para uma melhor gestão do que vem a seguir.

Médicos, programadores, professores e carros autônomos: caminhos semelhantes?

Quando se aprende a identificar esse padrão, ele passa a aparecer em todos os lugares. Em diferentes setores, o mesmo arco da automação – assistir, remodelar, substituir – surge repetidamente. O ritmo e o desfecho, porém, dependem inteiramente daquilo que o trabalho realmente exige.

Vejamos como isso se dá na medicina. Em radiologia, a IA está plenamente estabelecida no estágio 2. Ferramentas como o Med-PaLM – a IA médica do Google – têm desempenho equivalente ao dos médicos em algumas atividades diagnósticas, incluindo leitura de exames e identificação de anomalias. No entanto, o cuidado na linha de frente conta uma história diferente. Interpretar sintomas complexos, avaliar caminhos de tratamento e comunicar riscos aos pacientes ainda depende da garantia humana, resistência inercial, julgamento e profundidade relacional. Mesmo dentro do campo da medicina, a evolução da IA varia, dado que as tarefas subjacentes e os fatores de atrito que as moldam são profundamente diferentes.

No desenvolvimento de software, o avanço também é expressivo. Ferramentas como Copilot e Replit podem apoiar aplicativos e refatorar código-padrão. Mas passar de trabalhos de menor risco para trabalhos de maior responsabilidade – como lidar com escopos ambíguos, depurar sistemas complexos ou regulados, projetar arquiteturas seguras e responder a demandas de clientes em constante mudança – ainda é algo fortemente condicionado pela tolerância a erros, pela necessidade de garantia humana, pelo julgamento e pela profundidade relacional.  A fase 2 está bem avançada, mas o ritmo para a substituição humana desacelera em áreas mais sofisticadas, onde esses fatores predominam. Não por acaso, até empresas na fronteira da IA, como a Palantir Technologies, continuam a integrar seus próprios profissionais nas operações dos clientes para viabilizar a entrega de valor.

Fatores que retardam o avanço da IA

A IA não consegue automatizar algumas atividades tão rapidamente quanto outras devido a atritos existentes no nível da tarefa. Compreender esses fatores de atrito permite que os gestores vejam quais delas são mais adequadas à automação e onde tais atritos provavelmente retardarão ou limitarão a adoção.

Fatores de atritoDescriçãoExemplos em que o avanço é desacelerado ou trava
Atritos no nível da tarefa
RepetiçãoAs tarefas são realizadas de maneira diferente a cada vez ou são complexas demais para serem codificadas em regras?Tomada de decisões estratégicas, arquitetura sob medida, software altamente personalizado.
JulgamentoA tarefa exige raciocínio sutil que envolve discrição, intuição ou o desenvolvimento de perspectivas únicas em meio à incerteza?Investimento de risco, estratégia jurídica, previsão corporativa.
Interação físicaA tarefa requer presença física, toque ou resposta motriz fina que robôs têm dificuldade em imitar?Fisioterapia, combate a incêndios, ofícios especializados.
Confiança humana e atrito de valores
Profundidade relacionalA tarefa exige empatia humana, mentoria ou inteligência emocional – especialmente em interações humanas contínuas, sensíveis ou de alta confiança?Psicoterapia, ensino em sala de aula, liderança e motivação em equipe.
Autoria humanaO valor da tarefa está ligado a quem a criou e por que, não apenas ao resultado?Belas-artes, culinária liderada por chefs, performance ao vivo, jornalismo investigativo.
Garantia humanaA tarefa envolve risco, responsabilidade ou impacto pessoal de tal forma que as pessoas esperam que um humano supervisione ou esteja por trás do resultado?Pilotagem comercial, cuidados oncológicos, administração de fortunas e aconselhamento patrimonial.
Tolerância a errosÉ necessária quase precisão perfeita ou supervisão rigorosa porque até mesmo um pequeno erro ou alucinação pode causar danos irreversíveis?Transações financeiras de alto risco, farmacologia, gestão de rede elétrica, pilotagem de veículos.
Atritos sistêmicos e culturais
ComunidadeO valor está ligado a uma experiência humana compartilhada, como fazer parte de um coletivo físico ou emocional?Fitness em grupo, apresentações ao vivo, frequência à igreja.
RegulamentaçãoExistem restrições legais, institucionais ou de conformidade limitando a automação?Aprovação de medicamentos/dispositivos pela FDA, operações de voo da FAA, educação pública certificada pelo Estado.
Inércia/resistênciaA adoção é retardada por resistência interna humana ou organizacional?Sistemas tradicionais, lacunas de conhecimento, insegurança de cargo, resistência à mudança, barreiras de custo.

A educação primária oferece um contraste igualmente revelador. A IA já consegue fornecer feedback personalizado e criar conteúdo instrucional, tarefas típicas do estágio 1 e do início do estágio 2. No entanto, motivar os alunos, gerir a dinâmica da sala de aula, interpretar os sinais emocionais e sociais, cumprir as políticas estaduais e federais, e cultivar a colaboração e o crescimento social ainda dependem da comunidade, da garantia humana, do julgamento, da regulação e da profundidade relacional.

Além disso, mesmo quando ferramentas de IA estão tecnicamente disponíveis, a resistência por inércia está em jogo e atua como freio. Por exemplo: alguns professores ou escolas podem resistir à adoção da IA em favor de sistemas tradicionais ou do status quo, com o custo das ferramentas e treinamentos de IA representando outra barreira. Esses pontos de atrito continuam a retardar o avanço da automação no coração do ensino.

O papel humano, porém, não permanece estático. Ele se desloca para atividades de maior valor, abandonando tarefas rotineiras, como a transmissão passiva de conteúdo ou o feedback básico. O ritmo dessa transição varia significativamente entre escolas e comunidades, refletindo diferenças de contexto, recursos e cultura organizacional.

O futuro do trabalho será moldado pela realidade da integração da IA

A direção autônoma ilustra esse ponto com clareza. Mesmo quando o estágio 3 é tecnicamente demonstrado, isso não garante adoção em larga escala. A Waymo já opera táxis totalmente autônomos em algumas cidades – um exemplo claro de substituição alcançada em um domínio restrito. Fora desses perímetros geograficamente delimitados, porém, a autonomia continua parcial, supervisionada ou simplesmente inexistente. Casos extremos complexos, como zonas de construção e comportamento humano imprevisível, ainda exigem supervisão humana.

Além disso, os custos internos e a logística de escalar a produção limitam ainda mais o ritmo da implantação em larga escala. Como disse o CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, a autonomia total ainda está a uma ou duas décadas de distância. Tolerância a erros, garantia humana, resistência, julgamento e regulação continuam a atrasar uma implementação mais ampla. E mesmo assim, o ritmo varia conforme a cidade, o estado e a infraestrutura.

Nesses domínios, o fio condutor é claro: a automação raramente chega para substituir pessoas de maneira abrupta. Ela emerge para reconfigurar responsabilidades, uma tarefa por vez, em ritmos que variam conforme o papel, o contexto e a densidade dos fatores de atrito envolvidos.

E, por fim, o que você realmente deveria fazer?

O futuro impulsionado pela IA não vai chegar. Já está aqui. A questão agora é como esse futuro se desenrolará em diferentes profissões e indústrias. Para liderar de modo eficaz, os executivos devem trocar o pânico causado pela ideia de adquirir IA da noite para o dia pela ação mais realista da integração gradual da inteligência artificial.

A IA já está remodelando a maioria das carreiras gradualmente, tarefa por tarefa e etapa por etapa. Fatores como julgamento, confiança, regulação, comunidade, tolerância a erros e profundidade relacional podem travar, desacelerar ou acelerar a mudança. Por isso, funções como atendimento ao cliente rotineiro e digitação de dados estão se aproximando da etapa 3. Outros, como aplicar ao ensino fundamental, realizar jornalismo investigativo e investir capital de risco, nunca chegaram a esse ponto e provavelmente não chegarão.

Esses fatores ajudam a explicar por que alguns empregos desaparecem rapidamente enquanto outros permanecem profundamente humanos por décadas – se não para sempre. Como a The Economist observou, mesmo em áreas consideradas vulneráveis, demissões em larga escala têm demorado a se materializar porque a IA tende a reconfigurar tarefas mais do que substituir trabalhadores.

Essa estrutura pode ajudar os líderes a antecipar onde a mudança provavelmente ocorrerá rapidamente – e onde deverá avançar de maneira mais gradual. Ela pode orientar decisões sobre onde investir, quando priorizar a requalificação e como redesenhar papéis e responsabilidades ao longo do tempo. Também pode ajudar os líderes a se manter à frente das tendências, sem cair no hype ou exagerar nas suas reações às manchetes. Em um momento cheio de barulho e alarme, uma das maiores forças que os líderes podem mostrar é a capacidade de manter a calma e os pés no chão.

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Will Drover e Laura Huang
Will Drover e Laura Huang
Will Drover é professor e head de empreendedorismo e inovação na Neeley School of Business da Texas Christian University (EUA). Laura Huang é professora de gestão e dinâmica organizacional e vice-reitora de educação executiva na D'Amore-McKim School of Business da Northeastern University (EUA).

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