Status de leitura
Faça login para usar este recurso

Edição ##47 do MIT SMR Brasil
©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.
Compreender o que não vai mudar ajuda a esclarecer o que pode mudar – e fortalece a tomada de decisão em tempos voláteis. Utilizar cinco lentes para reconhecer certeza ajuda muito
Em um mundo tomado por turbulências constantes, líderes estão cada vez mais fixados nos grandes desconhecidos. Volatilidade política, aceleração tecnológica, disrupção ecológica e instabilidade econômica convergiram para tornar até mesmo o planejamento de curto prazo uma tarefa precária. A incerteza não é mais uma exceção – é a linha de base.
Práticas de planejamento de cenários surgiram justamente para ajudar em momentos como esse. Elas oferecem uma abordagem estruturada para navegar por tempos caóticos, não como forma de prever o futuro, mas construindo retratos plausíveis de futuros alternativos. Ao fazer isso, ajudam a revelar suposições ocultas, questionar o que se acredita saber e redirecionar a atenção dos líderes para fatores que os estrategistas podem ter ignorado.
No entanto, embora o planejamento de cenários tenha conquistado seu lugar como uma ferramenta valiosa para avaliar incertezas, acredito que sua força não explorada está em expor e esclarecer certezas. A busca incessante por possíveis disrupções acabou obscurecendo uma questão igualmente importante: o que, afinal, é possível saber sobre o futuro.
A habilidade estratégica não está apenas em antecipar o que vai mudar, mas em reconhecer o que não vai mudar. Certas restrições – sejam físicas, temporais, institucionais ou culturais – moldam o terreno do futuro, delimitando o que é possível e indicando onde mudanças significativas podem ocorrer. Ao revelar essas camadas de certeza, líderes podem substituir uma visão baseada em possibilidades ilimitadas por outra ancorada nos limites concretos que estruturam a mudança, oferecendo uma base mais sólida para o planejamento e um referencial mais consistente para formular e testar estratégias.
O futuro não é totalmente indeterminado
Imaginar o futuro como uma tela em branco de possibilidades infinitas nos liberta de uma mentalidade fixa que simplesmente sobrepõe as questões e tendências de hoje ao amanhã. Isso estimula a imaginação e a criatividade. No entanto, o futuro não é uma folha em branco: existem marcas do passado que perduram.
O cenário do futuro já está sendo definido por infraestruturas enraizadas, legados institucionais, forças sociais duradouras e tendências profundas, que evoluem ao longo do tempo. Algumas dessas forças demonstram notável resistência à mudança, mesmo diante de tentativas de desestabilização; outras seguem trajetórias lentas, porém relativamente previsíveis. Há também certezas latentes, mas inevitáveis, como o acúmulo de carbono na atmosfera, cujas consequências já estão em curso, ainda que nem sempre visíveis de imediato.
Líderes precisam dedicar mais atenção a esses fatores mais rígidos, lentos e silenciosos em seus processos de planejamento. Em períodos marcados por elevada volatilidade e incerteza radical, é comum que a atenção se concentre excessivamente no desconhecido, enquanto as certezas passam despercebidas. Quando tudo parece em aberto, torna-se mais difícil reconhecer que muitos caminhos já estão definidos ou simplesmente bloqueados.
O planejamento de cenários é uma disciplina voltada à revisão de percepções, permitindo questionar as suposições que fazemos sobre o futuro. Seu principal valor está em refinar nossa atenção e ampliar a capacidade de interpretar mudanças emergentes. Os primeiros formuladores dessa abordagem utilizavam expectativas relativamente estáveis como âncoras para explorar forças mais voláteis.
Herman Kahn, por exemplo, enfatizava a importância de identificar tendências “inevitáveis” que moldariam o futuro no longo prazo, como o crescimento populacional ou as limitações de recursos naturais. Pierre Wack, outra referência central no desenvolvimento do planejamento de cenários, descrevia as certezas como “elementos predeterminados” – forças já em movimento e com alta probabilidade de se concretizar, independentemente das demais incertezas em jogo.
Certezas funcionam como pontos de ancoragem para análises orientadas ao futuro, evitando que a construção de cenários se transforme em um exercício ilimitado de especulação. Elas ajudam a direcionar o planejamento de cenários e os esforços estratégicos ao mostrar como fatores estáveis influenciam diferentes incertezas, criando narrativas que são, ao mesmo tempo, fundamentadas e imaginativas. Saber no que é possível confiar é tão importante quanto navegar por contextos ambíguos e em transformação.
As certezas também podem ser compreendidas como condições de contorno: forças que delimitam quais formas de mudança são plausíveis, quais tendem a ser improváveis e onde intervenções estratégicas têm maior chance de êxito. Elas revelam o grau de liberdade que os líderes têm para agir. Nesse sentido, funcionam tanto como restrições quanto como estruturas de apoio. Ao identificar os elementos estáveis que ancoram futuros potenciais, ganhamos maior capacidade de ação – e passamos a reconhecer atritos produtivos que muitas vezes se perdem quando o futuro é tratado como um campo totalmente aberto.
As cinco lentes da certeza
Compreender o que permanece – a estrutura subjacente à mudança – pode ser tão libertador quanto saber o que pode surgir. Para facilitar a identificação e análise dessas certezas, de maneira que possam ser incorporadas ao trabalho de cenários e ao planejamento estratégico, sugiro aplicar um modelo baseado em cinco tipos de certezas:
1. Materiais e físicas. Essas certezas estão enraizadas em ecossistemas ambientais, condições físicas e infraestruturas sólidas que definem o que é possível. Elas existem independentemente da opinião e resistem a mudanças rápidas. Incluem geografia, recursos naturais, aspectos físicos e o ambiente construído. Como fatores físicos ou ambientais fixos, ou que evoluem lentamente, elas fornecem a base para desenvolvimentos futuros.
2. Baseadas em conhecimento e especialização. Algumas certezas persistem porque são sustentadas por regimes dominantes de conhecimento, redes de expertise e formas institucionais de conhecimento que definem o que conta como “verdadeiro”. Em diversos setores, essas formas padronizadas de medir e modelar a realidade se tornam profundamente enraizadas, funcionando como restrições invisíveis. Elas oferecem coerência e estabilidade, mas também tendem a bloquear perspectivas alternativas, restringindo o que é percebido como viável – ou até mesmo imaginável.
Essas certezas epistêmicas transformam-se em conhecimento codificado e persistem como uma espécie de substrato discursivo que aparenta solidez e permanência. No entanto, como a própria história da ciência demonstra, essa estabilidade frequentemente depende de estruturas institucionais de poder que marginalizam ou rejeitam outras formas de pensar ou saber.
3. Temporais e dependentes da trajetória. Algumas certezas são estruturadas pelo tempo, como a inércia de decisões passadas, longos ciclos de planejamento ou compromissos intergeracionais. Uma vez feitas as escolhas – capital alocado, tecnologias implementadas, instituições configuradas –, os sistemas passam a desenvolver padrões moldados pelo tempo que resistem à reversão.
Mesmo quando prazos e processos podem ser acelerados, como em mudanças regulatórias, essas transformações geralmente envolvem custos e compensações significativos. Em muitos casos, a probabilidade de reversão no curto prazo permanece baixa devido ao acúmulo de desgastes legais, financeiros e institucionais ao longo do tempo.
4. Políticas e econômicas. Muitas certezas são defendidas e persistem não porque sejam necessariamente justas ou naturais, mas porque atendem a interesses específicos e se alinham a estruturas de poder estabelecidas. Algumas são reforçadas por mecanismos de bloqueio institucional, estruturas de mercado interdependentes ou compromissos financeiros profundamente enraizados. Nesses casos, aquilo que parece “inevitável” frequentemente é sustentado de maneira ativa por grupos com interesses consolidados.
Identificar essas certezas exige seguir os fluxos de capital e examinar as concentrações de poder político e econômico: quem está comprometido com a manutenção do status quo – e quão resiliente é sua capacidade de preservá-lo?
5. Normativas e culturais. Algumas certezas não são materiais ou institucionais, mas existem no imaginário coletivo, moldando o que é visto como natural, legítimo ou inevitável. Elas se manifestam em valores sociais duradouros, normas culturais e princípios organizacionais que orientam a tomada de decisão e persistem ao longo do tempo. Algumas dessas certezas normativas atravessam gerações e costumam ser culturalmente específicas. Por serem amplamente disseminadas e profundamente enraizadas, acabam sendo aceitas sem questionamento.
Como esse arcabouço pode ser aplicado ao planejamento estratégico? Se eu integrasse a equipe de estratégia da rede americana de supermercados Trader Joe’s, por exemplo, utilizaria a primeira lente para avaliar como limites físicos – como cadeias de fornecimento refrigeradas, infraestrutura portuária e safras agrícolas afetadas pelo clima – podem limitar os planos de crescimento da empresa.
Independentemente da demanda por novas lojas ou novos produtos, ainda haveria limites impostos pela capacidade de cultivar, transportar e armazenar mercadorias de modo confiável. Essa lente ajudaria a manter nossas ambições ancoradas em condições materiais que não poderiam ser facilmente ignoradas.
A dimensão política e econômica da incerteza nos lembra que o trabalho estratégico não consiste apenas em imaginar o que vem a seguir, mas também em reconhecer aquilo que já está em vigor e identificar quem pode mantê-lo dessa forma. Se eu fosse executiva em um setor fortemente regulado, começaria mapeando os arcabouços políticos, os arranjos financeiros e as normas institucionais que sustentam o cenário atual. O que sustenta esse sistema? Quem se beneficia dele?
Identificar essas forças ajuda a revelar o que está profundamente enraizado e a distinguir restrições estruturais de turbulências superficiais. No setor bancário, por exemplo, exigências de capital e mecanismos de supervisão regulatória definem a arquitetura central do sistema, enquanto turbulências superficiais – como a volatilidade das criptomoedas ou a rápida expansão das fintechs – criam disrupções sem necessariamente substituir as regras mais profundas que organizam o setor.
As certezas políticas e econômicas tornaram-se particularmente relevantes para estrategistas no contexto atual. Nos últimos anos, mandatos políticos e estruturas de governança antes considerados intocáveis foram submetidos a improvisações surpreendentes ou abertamente desafiados. Instituições tradicionalmente vistas como permanentes – caso de tribunais internacionais, regimes regulatórios e processos democráticos – vêm sendo pressionadas e transformadas.
Aquilo que antes oferecia estabilidade estratégica pode já não cumprir a mesma função. Para os tomadores de decisão, o desafio agora é duplo: reconhecer onde o poder continua reforçando a estabilidade e identificar onde ele passou a atuar para enfraquecer forças antes consideradas estáveis.
Certezas normativas e culturais também podem ser duradouras, embora algumas evoluam gradualmente e outras sejam intensamente contestadas. Se você fosse o CMO de uma marca global de alimentos voltada ao mercado de carnes cultivadas ou produzidas em laboratório, poderia começar identificando os valores, crenças e normas culturais capazes de influenciar a aceitação dos consumidores.
Você pode ter dados sólidos de segurança, mas se a confiança pública repousa profundamente em ideias de “naturalidade” ou dietas ancestrais, sua campanha deve trabalhar dentro dessa lógica cultural, e não contra ela.
Algumas certezas são, de forma útil, estabilizadoras e protetoras de valores, ecossistemas e ordem social. Outras são desadaptativas, reforçando injustiças, ineficiências ou heranças ultrapassadas. Por exemplo, na energia nuclear, o compromisso profundo com a cultura de segurança é uma certeza estabilizadora que protege a integridade operacional e apoia a confiança pública. Em contrapartida, regimes excessivamente rígidos de licenciamento podem se tornar um entrave à inovação, reforçando premissas obsoletas sobre risco.
Algumas certezas merecem ser preservadas; outras precisam ser questionadas e desmontadas. Mas nenhuma dessas tarefas é possível sem que saibamos, primeiro, identificar e nomear cada uma delas.
As lentes na prática
As certezas podem ser mobilizadas em diferentes etapas do processo estratégico. Seja para questionar pressupostos, construir novos cenários ou refinar estratégias existentes, essa tipologia oferece uma forma estruturada de ancorar a análise prospectiva em elementos relativamente estáveis.
No início do processo estratégico, identificar certezas ajuda a delimitar as condições externas – aquilo que é fixo, lento ou inevitável – antes de explorar o que é volátil ou emergente. Essas certezas podem funcionar como estruturas de sustentação para o conjunto de cenários desenvolvidos. Posteriormente, ao comparar cenários divergentes, também é possível identificar certezas mais refinadas ao observar elementos que persistem em todas as narrativas. Nesse sentido, a tipologia atua como uma verificação cruzada, ajudando a esclarecer as forças que qualquer estratégia viável precisará, necessariamente, considerar.
O objetivo inicial em prospectiva é esclarecer o ambiente estratégico e testar o raciocínio que sustenta diferentes visões de futuro. Como um passo inicial em um processo estratégico, vale realizar uma varredura ambiental estruturada, orientada por uma pergunta central: “Quais forças externas irão definir o espaço em que nossa estratégia precisará operar?”. Iniciar esse diálogo com sua equipe ajuda a explicitar as suposições em jogo e submetê-las à crítica. Trata-se de um exercício de explicitar o próprio pensamento, evitando que pontos cegos orientem decisões implicitamente.
Como parte do processo de varredura ambiental, é útil diferenciar aqueles fatores que são incertos e incontroláveis daqueles que são mais lentos e previsíveis. Isso envolve discutir, em grupo, quais elementos de mudança vocês veem como fixos, estáveis ou duráveis e quais parecem incertos, emergentes ou em fluxo. Pergunte: “O que estamos tomando como garantido aqui? Quais pressupostos estão incorporados em nosso pensamento sobre mercados, tecnologias, regulamentações ou comportamento do cliente? Onde discordamos?”. Essa análise colaborativa ajuda a esclarecer o ambiente estratégico em mudança e pode ajudar a evitar convergências prematuras em torno de pressupostos convenientes, porém não verificados.
Isso importa porque suposições implícitas frequentemente espreitam por trás da estratégia, no que meus colegas Trudi Lang e Rafael Ramírez chamam de “cenário fantasma”. Se permanecerem sem questionamento, nossas visões assumidas sobre o futuro podem distorcer a análise, comprometer a visão estratégica e atrapalhar a execução.
Veja, por exemplo, uma empresa de serviços públicos planejando a demanda de energia impulsionada por inteligência artificial. Se partir do pressuposto de que avanços na eficiência dos chips irão reduzir o consumo de energia, poderá investir menos do que o necessário em infraestrutura. Se, por outro lado, considerar que o crescimento da IA e a demanda por eletricidade serão praticamente insaciáveis, poderá expandir sua capacidade de maneira agressiva. A questão estratégica central, portanto, é: Quais dessas premissas devem ser tratadas como certezas? E quais devem permanecer em aberto como incertezas críticas a serem exploradas por meio de cenários futuros alternativos?
O papel da estratégia é tornar tais pressupostos explícitos – trazer certezas e incertezas à tona, onde possam ser analisadas, desafiadas e usadas para construir alinhamento.
É nesse processo de questionamento que o verdadeiro valor do planejamento de cenários se revela. Você não está apenas identificando forças externas, mas investigando como as pessoas da sua equipe as percebem e priorizam. Distinguir entre certezas e incertezas é um exercício de diálogo concebido para gerar insights ao examinar como a equipe interpreta mudança, continuidade e restrição.
E é justamente nesse diálogo que surgem tensões: o que parece inevitável para uma pessoa pode parecer profundamente incerto para outra, e vice-versa. O próprio processo de investigação ajuda a desfazer ambiguidades e organizar o pensamento. Décadas de prática me ensinaram que distinguir entre o que é certo e o que é incerto confere uma nitidez poderosa ao pensamento estratégico.
Aplicar essa tipologia ajuda a ampliar o espectro de fatores considerados certos e reduz o risco de visão limitada ou enviesada. Para identificar as certezas mais relevantes para o seu trabalho estratégico, considere as seguintes perguntas:
Ao usar essa ferramenta, lembre-se de que o trabalho estratégico, incluindo o planejamento de cenários, é naturalmente delimitado pelo que é relevante para a organização e para aqueles que usarão os insights gerados. A princípio, você pode se sentir tentado a enumerar certezas básicas do mundo natural, como gravidade, mortalidade humana ou o nascer do sol amanhã. No entanto, embora sejam indiscutivelmente verdadeiras, essas certezas são amplas e triviais demais para oferecer utilidade estratégica.
O objetivo é identificar certezas diretamente relacionadas à decisão ou ao tema em análise. Revelar certezas é um exercício deliberado de investigação profunda – uma oportunidade de examinar, questionar e reavaliar aquilo que se presume saber sobre um contexto específico.
Também é importante lembrar que esse modelo pode conter “certezas” que podem não ser tão imutáveis quanto se supõe. Aqui, o horizonte de planejamento de cenários importa, pois o que pode ser julgado como certo no curto prazo pode ser menos relevante no longo prazo. Por exemplo, tanto os ritmos regulatórios quanto as transições demográficas e geracionais podem ser considerados certezas temporais, mas as primeiras podem ser derrubadas por um novo regime governante, enquanto as segundas não serão.
O equilíbrio entre certezas e incertezas
Uma boa estratégia exige equilibrar a atenção entre certezas e incertezas. As certezas oferecem pontos de ancoragem, mas, sozinhas, não definem direção nem orientam organizações diante da incerteza radical. É preciso colocar certezas e incertezas em diálogo constante. Afinal, é a tensão e a interação entre o que sabemos e o que não podemos saber que molda um bom pensamento estratégico.
No planejamento de cenários, as certezas não funcionam apenas como elementos estáticos; elas sustentam a arquitetura de futuros divergentes e plausíveis. As incertezas críticas passam então a se manifestar de maneiras distintas em relação a esses pilares, dando forma às diferenças entre os cenários. Colocar certezas e incertezas em diálogo significa perguntar: “Como fatores relativamente estáveis restringem, direcionam ou amplificam o impacto de forças mais voláteis?”.
Se eu fosse uma executiva desenvolvendo cenários para o futuro da gestão de resíduos, por exemplo, dedicaria atenção especial aos plásticos: sua persistência ambiental, os limites materiais da reciclagem e as estruturas de incentivo ligadas à indústria petroquímica. Independentemente de quão distintos fossem os cenários elaborados, esses fatores atravessariam todas as narrativas como uma corrente estrutural comum. A partir daí, forças mais voláteis – como avanços em materiais biodegradáveis ou o aumento da pressão dos consumidores por modelos circulares – interagiriam com essas certezas, alterando seu peso e seus desdobramentos em diferentes futuros.
Certezas podem servir como ingredientes no início da construção de cenários, mas também podem ser alcançadas por meio de raciocínio indutivo a partir de um conjunto completo de situações. Depois que futuros divergentes são elaborados, torna-se possível analisá-los em busca de elementos comuns – fatores que permanecem constantes apesar das diferenças de contexto.
Se determinado fator permanece estável entre os mundos, ele é um ponto de referência consistente. Nesse processo, a tipologia oferece uma lente estruturada para analisar sistematicamente cenários existentes e mapear forças fundamentais. As certezas identificadas dessa maneira tornam-se elementos estruturais com os quais qualquer estratégia precisará lidar, independentemente do grau de turbulência das incertezas que impulsionam a divergência entre os cenários.
Esse arcabouço não sugere uma visão determinística do futuro. Ao contrário, convida à reflexão sobre quais fatores podem durar mais que os outros e servir para ancorar incertezas mais radicais. Ou seja, certezas servem para domar as incógnitas maiores. Essa abordagem insiste que tanto certezas quanto incertezas devem ser mantidas em tensão produtiva para que a elaboração de estratégias seja eficaz.
Incorporar atenção às certezas oferece uma estrutura mais rica e honesta para o trabalho imaginativo de previsão, garantindo que as visões estratégicas estejam ancoradas nas realidades materiais, institucionais e culturais que moldarão o que é realmente possível.
Reconhecer certezas significa nomeá-las, revisitá-las ao longo do tempo e utilizá-las como referência para alinhar ações e estabelecer pontos de ancoragem. E isso não é um exercício pontual, mas uma prática contínua.
Trabalhar sistematicamente com certezas deve se tornar um hábito – um hábito capaz de fortalecer a imaginação estratégica e aprimorar a tomada de decisão sob pressão. Ao adotar essa prática, organizações deixam de apenas reagir defensivamente à volatilidade e passam a construir maior clareza estratégica.
O poder de saber o que sabemos
O planejamento de cenários é frequentemente associado à exploração da incerteza. No entanto, em sua essência, sua função mais profunda é promover a revisão de percepções. Trata-se da prática de transformar a maneira como enxergamos o futuro; não apenas confrontando o desconhecido, mas também questionando aquilo que parece familiar, esperado ou garantido. Esse exercício convida à reformulação de pressupostos, revelando pontos cegos e abrindo espaço para novas possibilidades.
As cinco lentes da certeza oferecem uma forma de rever a percepção da mudança. Quando a incerteza predomina, a tentação é imaginar que tudo está em aberto. Em vez disso, essa tipologia e heurística mostram como a estabilidade, quando devidamente compreendida e aproveitada, é igualmente poderosa (e necessária).
Quando ignoramos as certezas, corremos o risco de nos desconectar das restrições e condições herdadas do passado que continuarão moldando o futuro. Muitos fracassos estratégicos decorrem justamente de avaliações equivocadas sobre o que é rígido e o que é flexível, assumindo liberdade onde há limitações estruturais ou presumindo rigidez em contextos nos quais a adaptação ainda é possível.
Dar atenção aos elementos mais lentos e restritivos da mudança pode fortalecer o planejamento de cenários ao ancorá-lo em bases mais sólidas. Distinguir entre realidades endurecidas e áreas de maior flexibilidade estratégica ajuda a esclarecer onde investir, onde negociar e onde pressionar por mudanças. Ao mapear o que já está definido, o que permanece condicional e o que ainda pode ser influenciado, a estratégia se torna mais precisa e, em última instância, mais útil.
Líderes que navegam em um mundo cada vez mais complexo precisam se perguntar não apenas o que não sabem, mas também o que sabem. É fácil ser consumido pela incerteza; no entanto, as forças relativamente constantes que moldam o futuro também podem oferecer clareza. O desafio está em reconhecê-las e permitir que orientem a estratégia não por inércia, mas de maneira deliberada.
1. C. Selin e J. Sadowski, “Against Blank Slate Futuring: Noticing Obduracy in the City Through Experiential Methods of Public Engagement,” in “Remaking Participation: Science, Environment and Emergent Publics,” 1st ed., eds. J. Chilvers and M. Kearnes (Taylor & Francis, 2015), 218-237, https://doi.org/10.4324/9780203797693.
2. T. Lang e R. Ramírez. “How Ghost Scenarios Haunt Strategy Execution”, MIT Sloan Management Review 65, no. 2 (winter 2024): 72-75.
Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.