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Edição ##47 do MIT SMR Brasil
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Saiba como empresas estão se adaptando para competir em um mundo geopoliticamente fragmentado, e tentando ser globalmente conectadas e descentralizadas ao mesmo tempo; os exemplos reais deste artigo incluem desde Apple, Samsung e TikTok a Siemens, Hindustan Unilever e McDonald's, passando por Heineken, Nissan e HSBC
A ordem internacional está passando por uma transformação estrutural. A guerra no Oriente Médio, o prolongado conflito na Ucrânia e grandes mudanças no comércio e na política externa dos Estados Unidos, que alteraram as alianças tradicionais do país, são manifestações de uma reconfiguração mais ampla do poder.
Tarifas, controles de exportação, sanções e a vulnerabilidade de pontos estratégicos – tão diversos quanto estreitos marítimos e cadeia global de semicondutores – estão expondo a fragilidade de cadeias de fornecimento e redes de produção globalmente otimizadas.
A disputa antes invisível sobre fluxos de informação está se transformando à medida que as ações dos atores estatais, para estabelecer soberania digital, levam a consequências tecnológicas significativas para as multinacionais.
O Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês) e o Data Act da União Europeia (UE), por exemplo, exigiu que plataformas de redes sociais e tecnologia redesenhassem a infraestrutura em nuvem, reorganizassem suas entidades jurídicas e equipes de conformidade, e realocassem o armazenamento e processamento de dados para garantir que os dados europeus permanecessem sob jurisdição da UE.
Enquanto isso, observamos a recente controvérsia no Chile, que, sob pressão dos EUA, revogou a aprovação de um cabo submarino que ligaria Santiago a Hong Kong. Essa situação ilustra como projetos de infraestrutura digital em países de média potência se tornaram pontos de conflito geopolítico.
Na verdade, o próprio conceito de neutralidade tornou-se frágil. A guerra no Oriente Médio mostra que países até então politicamente neutros não estão imunes a ataques. Grandes empresas de tecnologia, como Amazon, Google e Microsoft, investiram centenas de bilhões de dólares para desenvolver data centers gigantescos nos Emirados Árabes Unidos, Catar e Omã, para, no fim, descobrir que também estão vulneráveis a ataques com drones e mísseis.
Como as empresas que operam além das fronteiras estão se adaptando a essa realidade em evolução – ou como deveriam estar?
Nossa pesquisa sobre ondas de globalização e desglobalização desde o início do século 20 constatou que as principais opções tradicionalmente disponíveis para corporações multinacionais enfrentando turbulências geopolíticas – sair, realocar ou reorganizar – estão assumindo contornos diferentes daqueles observados em crises anteriores.
Sair de países: isso é aconselhável? No passado, empresas que operavam em países onde o risco político aumentava costumavam reavaliar sua exposição ou até mesmo encerrar completamente suas operações locais. Essas decisões nunca são simples, já que frequentemente envolvem abrir mão de ativos valiosos e abandonar oportunidades lucrativas. Como demonstram as saídas da BP, Shell e Equinor da Rússia após a invasão da Ucrânia, processos de desinvestimento podem acarretar perdas financeiras expressivas, além de complicações jurídicas, disputas contratuais e danos reputacionais.
Além disso, governos anfitriões podem utilizar instrumentos regulatórios e coercitivos para tornar a saída de empresas estrangeiras significativamente mais custosa do que sua entrada no mercado.
Os desinvestimentos também podem levar multinacionais a perder permanentemente o acesso a mercados em regiões que talvez continuem estrategicamente relevantes no longo prazo.
Para evitar esse cenário, pode ser mais prudente manter uma presença mínima e calibrada nesses países. Na prática, isso pode significar preservar uma entidade jurídica e uma operação básica capazes de sustentar relacionamentos, manter a situação regulatória e garantir acesso à inteligência de mercado, ao mesmo tempo em que se limita o nível de comprometimento com o país. Esse equilíbrio pode ser alcançado por meio da realocação de ativos ou de reorganizações estruturais.
Montadoras como Nissan e Volkswagen, por exemplo, reduziram investimentos em P&D na China e adiaram planos de expansão sem abandonar completamente o mercado. Ao preservar relações com fornecedores e redes de distribuição, mantêm aberta a possibilidade de ampliar novamente suas atuações caso o ambiente político ou competitivo volte a se estabilizar.
Não surpreende, portanto, que muitas multinacionais estejam buscando formas de preservar ampla escala e alcance global, apesar das mudanças profundas na ordem internacional. A questão central é: quais alternativas estratégicas estão disponíveis diante desse novo cenário?
Reorganizar-se: estruturas “polinacionais” e a ascensão da diplomacia corporativa. A atual turbulência geopolítica está levando muitos líderes empresariais a questionar o modelo tradicional de organização das operações multinacionais. Historicamente, essa abordagem se apoiou na centralização da direção estratégica e do desenvolvimento tecnológico, além da otimização das cadeias globais de fornecimento e dos fluxos de tecnologia.
Multinacionais tradicionais também tendem a priorizar considerações comerciais em detrimento de fatores políticos – e a eficiência operacional acima da resiliência. À medida que as tensões geopolíticas aumentam e os eventos disruptivos se intensificam, empresas globais estão adotando novas estruturas para construir resiliência por meio da separação, redundância e integração local.
Em 2024, por exemplo, o HSBC reorganizou suas operações globais ao separar seus negócios entre estruturas voltadas ao Oriente e ao Ocidente. O banco também aderiu ao sistema de pagamentos interbancários transfronteiriços da China, fortalecendo seus negócios no Leste e separando sua governança das operações ocidentais.
A verdade é que operações globalmente integradas estão agora dando lugar a organizações “polinacionais” – redes de unidades semiautônomas com forte liderança no país, cadeias de fornecimento regionais e fortes laços com stakeholders locais.
Curiosamente, esse movimento representa um retorno parcial ao modelo organizacional adotado por algumas multinacionais antes da fase de globalização intensiva.
Nestlé e HSBC são dois exemplos dessa abordagem. Ambas as empresas distribuíram autoridade estratégica e monitoramento de riscos políticos e regulatórios em diversos polos regionais. Também aprofundaram a integração de suas operações aos sistemas econômicos e regulatórios locais, reduzindo a exposição a choques políticos específicos sem abrir mão da presença em múltiplos blocos geopolíticos. Isso permite às duas companhias manter a coordenação global ao mesmo tempo em que preservam flexibilidade política para se adaptar a diferentes contextos nacionais e regionais.
A ancoragem local característica das organizações multinacionais descentralizadas também pode ser fortalecida por meio da chamada propriedade local – isto é, pela incorporação direta de atores locais à estrutura de propriedade e governança das operações.
Conceder participação relevante ao governo anfitrião (como o McDonald’s fez na China) ou listar subsidiárias locais em bolsas nacionais (como fizeram a Hindustan Unilever na Índia e a Heineken na Malásia) ajuda a criar mecanismos de responsabilização local e sinaliza alinhamento com os interesses econômicos e políticos do país ou da região. Esse modelo reforça, ainda, a separação jurídica e operacional entre a subsidiária local e a controladora global.
A localização da propriedade também pode representar uma resposta mais radical diante de regimes regulatórios profundamente divergentes e de preocupações crescentes com soberania de dados.
O caso do TikTok nos Estados Unidos mostra que redesenhar estruturas de governança interna e arquiteturas tecnológicas nem sempre é suficiente para atender às preocupações dos governos anfitriões sobre a forma como os dados são coletados, processados e utilizados.
Nesse contexto, a solução encontrada foi uma reestruturação profunda da propriedade, com a criação de uma entidade jurídica separada para administrar as operações americanas e participação majoritária de investidores não chineses. Essa foi a única forma de a plataforma de mídia social continuar operando nos EUA. A empresa-mãe chinesa ByteDance manteve uma participação de 19,9% no TikTok.
E não para por aí: as multinacionais também estão investindo em medidas mais preventivas. As sedes corporativas estão desenvolvendo capacidades geopolíticas que lhes permitem monitorar ativa e constantemente o risco político e tomar ações estratégicas em tempo real. Essas iniciativas incluem a criação ou o fortalecimento de áreas dedicadas a relações governamentais e o desenvolvimento de ferramentas especializadas, como o Geopolitical Risk Indicator da BlackRock, a Political Stability Grid da Allianz e a metodologia “Value at Stake” (Valor em jogo) da Siemens.
Tais capacidades ajudam multinacionais a formular estratégias geopolíticas mais explícitas, antecipar possíveis rupturas em supply chains e operações, e coordenar respostas mais ágeis diante de crises.
Algumas multinacionais estão, ainda, engajadas em diplomacia corporativa, um sinal de que estão deixando de tratar a geopolítica como uma restrição externa para se engajar proativamente como protagonistas autônomos.
Em 2025, por exemplo, a Apple atuou simultaneamente em diferentes frentes: pressionou o governo dos Estados Unidos contra a adoção de tarifas, buscou tranquilizar autoridades chinesas sobre a continuidade de sua presença no país e aprofundou relações com o governo indiano, utilizando investimentos em manufatura como instrumento diplomático.
No mesmo ano, a Microsoft assumiu cinco compromissos importantes para apoiar a estabilidade digital da Europa. Entre eles estavam a expansão de operações de data centers em 16 países europeus, o fortalecimento da soberania digital do bloco, a defesa do direito legal de operar na região, a proteção da privacidade e da cibersegurança dos dados europeus, e a garantia de acesso aberto à sua plataforma europeia de IA e computação em nuvem, bem como à infraestrutura da empresa em toda a Europa.
Esses movimentos têm um duplo objetivo: proteger as empresas dos impactos das tensões entre governos nacionais e países anfitriões e, ao mesmo tempo, ampliar oportunidades de investimento local por meio de uma postura politicamente mais neutra.
Realocar operações: da otimização para a conformidade. Por décadas, o alinhamento regulatório gradual, a integração dos mercados financeiros e sistemas de pagamento, além da proliferação de acordos de livre comércio, incentivaram as multinacionais a deixarem que a vantagem de custo e as economias de escala ditassem as escolhas de localização. Agora, a fragmentação dos regimes regulatórios e o retorno das barreiras comerciais estão forçando uma ênfase renovada no cumprimento regulatório e na mitigação de riscos.
Foi isso que aconteceu na Europa pós-Brexit. A saída do Reino Unido da União Europeia limitou a livre circulação de bens, serviços e mão de obra e ameaçou as licenças europeias de operação de multinacionais cuja sede regional ficava no país. Isso levou muitas empresas a reavaliar sua presença jurídica no continente, a transferir subsidiárias e a reequilibrar suas estruturas regionais. O aumento dos custos de transação transfronteiriça interrompeu cadeias de valor integradas e restringiu a mobilidade laboral, forçando companhias a reestruturar linhas de subordinação e transferir ativos para preservar o acesso ao mercado.
Para reduzir o risco de falhas na cadeia de fornecimento, muitas empresas estão adotando cada vez mais estratégias como reshoring (transferir a produção para o país de origem para evitar tarifas e outras barreiras), near-shoring (aproximar a produção de casa) e friend-shoring (transferir a produção para países amigos para aumentar o controle sobre operações estrangeiras e diminuir a exposição a países potencialmente hostis). Além disso, vários fabricantes americanos de eletrônicos e componentes automotivos vêm transferindo a produção da China para o México para reduzir a exposição tarifária e encurtar as cadeias de suprimentos.
Ao realocar a montagem e a produção intermediária para mais perto do mercado dos Estados Unidos, essas empresas estão sacrificando o acesso à produção de baixo custo para evitar guerras tarifárias e problemas logísticos.
Fabricantes multinacionais de vestuário, eletrônicos de consumo e bens industriais vêm adotando uma estratégia de ancoragem em potências intermediárias. Isso significa que estão realocando a produção para países menos alinhados com blocos envolvidos em tensões comerciais.
A Apple, por exemplo, está transferindo a maior parte da produção de iPhone da China para a Índia. A Samsung construiu relações sólidas com as autoridades políticas do Vietnã, o que permitiu à empresa influenciar o desenvolvimento de parques industriais onde hoje fabrica a maior parte de seus smartphones Galaxy. Já a Intel estabeleceu um polo de manufatura na Malásia, aproveitando a relativa neutralidade geopolítica do país do Sudeste Asiático e a experiência consolidada em semicondutores para estabelecer uma base de produção fora da rivalidade Estados Unidos-China.
Tais movimentos permitem que as multinacionais mantenham o acesso a redes de suprimentos de baixo custo enquanto reduzem sua dependência de um único bloco geopolítico. As empresas também se beneficiam do posicionamento inicial dentro dos corredores emergentes de comércio de tamanho médio.
O CENÁRIO GEOPOLÍTICO ATUAL REFLETE UMA RUPTURA dentro da própria globalização. Países estão tentando transformar redes em instrumentos de poder que não conseguem desmontar totalmente: eles adotam políticas de tecnonacionalismo, impõem sanções no comércio e finanças, criam regimes de soberania de dados e competem com base na política industrial. Ao mesmo tempo, essa competição e fragmentação ocorrem em um contexto de profunda interdependência econômica.
Para se manter em dia com esse novo cenário, as empresas precisam redesenhar seus portfólios, cadeias de fornecimento, arquiteturas de dados e modelos de governança. A multipolaridade está redefinindo as opções estratégicas de saída, realocação ou reorganização. A resiliência agora passa a depender da capacidade de adaptação contínua a uma reconfiguração geopolítica em rápida evolução.
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