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Para gerir pessoas é preciso primeiro entendê-las.
Quando conhecemos alguém, conseguimos ser mais úteis a essa pessoa? Vale dizer que conhecer alguém, no caso de um gestor, significa ter o poder de conseguir enxergar onde se deve encaixar aquela pessoa, no sentido de obter uma sintonia entre suas habilidades, seus objetivos pessoais e a expectativa da organização sobre seu trabalho, como apontado por Amy Kristof em seu paper “Person–Organization Fit: An Integrative Review of Its Conceptualizations, Measurement, and Implications”, de 1996.
Por anos, enquanto executivo, eu incluí esta premissa básica nas minhas relações organizacionais.
Como poderia fazer negócios com pessoas sem saber quem elas são, o que querem, e como eu genuinamente poderia me conectar a elas?
Isso vai além de apenas perguntar como estava a família das pessoas com quem me relacionava, ou como elas estavam. Não se tratava de “quebrar o gelo”, mas sim quebrar a barreira entre quem somos e o que estamos fazendo.
Os negócios ficavam mais fluidos com este tipo de conexão, que hoje percebo ser raro nas relações organizacionais. Algo que trabalho em mentorias e treinamentos corporativos que ministro, um movimento que gosto de chamar de “humanização corporativa”, onde o principal objetivo é devolver humanidade às organizações, aumentando o bem-estar, a produtividade e a performance, como disseram Hamel e Breen.
Estamos perdendo o tato com as relações sociais, e se antes criamos a consciência que precisamos melhorar nossa saúde mental, hoje já estamos discutindo a saúde social, que consiste na qualidade do nosso tecido social, não apenas o número de amigos que temos, mas a qualidade da relação que temos com eles, como apontado por Robert Waldinger e Marc Schulz em seu famoso estudo do desenvolvimento adulto, em Harvard.
O primeiro passo é perceber a dificuldade que as pessoas têm em se expressar. É preciso transformar o sentir em perceber, trazer o sensemaking para o dia a dia, dar nome às dores, e comunicá-las.
Na minha visão? Introduzindo “art-based management” na cultura organizacional.
Mas antes, faz-se necessário reconhecer a ausência da arte nas organizações. Arte é a forma de expressão mais natural e genuína dos seres humanos, sem a arte criaremos ambientes adoecidos, que adoecem e transformam relações em mecanismos lineares de funcionamento, visando única e exclusivamente um resultado. Isto justifica os números alarmantes do impacto à saúde mental dos profissionais contemporâneos, e a criação, às pressas, de medidas de proteção, como o reconhecimento de doenças mentais pela Organização Mundial da Saúde (OMS), implementação de normas de gestão de pessoas (como a NR1), e projetos de leis que visam mudar a escala da jornada de trabalho.
Antes de continuarmos a discorrer sobre intervenções artísticas em organizações, gostaria de ter a licença poética de criar uma interseção com a educação, já que precisaremos utilizá-la nesse processo de intervenção.
O educador Paulo Freire já nos provocava sobre a relação entre professor e aluno, muito similar a de líder e liderado, na perspectiva de desenvolvimento contínuo. No texto de Wesley Atkins sobre educação bancária (2018), ela demonstra como a opressão trazida por Freire se relaciona com o fato de não levarmos em consideração o conhecimento daquele a quem estamos ensinando, depositando nele (ou nela) informações como se fossem bancos.
Pois o líder faz o mesmo com o liderado quando não temos conhecimento suficiente sobre quem ele é, sobre o que ele faz bem e sobre as atividades que o fazem bem, posto que a ausência desse conhecimento nos faz geri-los às cegas, gerando maior pressão para entrega de resultados, e uma “asfixia profissional”, que pode desencadear em uma sequência de “síndrome do impostor” pela falta de entrega de resultados, um desalinhamento entre quem são e as expectativas da organização.
Então, se para gerir pessoas precisamos que elas se expressem, mas os mecanismos de expressão humana não estão inseridos na cultura educacional corporativa, como devemos proceder?
É aí que entra a ARTE.
Aristóteles define a arte como uma imitação da natureza ou da vida, com um propósito positivo: revelar a essência das coisas e promover uma catarse (purgação de emoções).
A ausência da arte pode gerar um efeito inverso, onde nomear nossas emoções se torna um desafio, e passamos a “congelar” nossas habilidades socioemocionais, impactando a qualidade das relações nas organizações.
Shaun Hughes trouxe uma perspectiva necessária, ao criar a modelação em argila e atividades escultóricas como um canal que externaliza o inconsciente e dá forma a verdades semi-realizadas, buscando a expressão de sentimentos e o inconsciente. Devido a capacidade da qualidade dinâmica e poética da argila, o processo se tornou ideal para a expressão direta de sentimentos e emoções que a linguagem verbal falhada ou lógica não consegue capturar.
Em relação às organizações, o uso de metáforas artísticas num ambiente seguro permitem explorar questões mais profundas, e ascender à verdade emocional de situações complexas, como processos de mudança organizacional, melhorando o diálogo, e desenvolvendo a inteligência emocional coletiva.
Anos depois, o mesmo Hughes criou outra dinâmica para ajudar organizações e profissionais na compreensão dos múltiplos papéis da liderança e das equipes. Através da criação e decoração de máscaras físicas, os profissionais conseguiram converter um objeto plano numa firme efusão emocional dos seus sentimentos mais íntimos, trazendo à tona conflitos internos e agendas ocultas. Isto permitiu que a organização enxergasse além da superfície da gestão de crises e reconhecesse os impulsionadores conscientes e inconscientes que afetavam o comportamento no trabalho.
As tomadas de decisões puramente racionais falham em contextos organizacionais complexos. Os métodos baseados em arte enriquecem o desenvolvimento da gestão ao introduzir uma “metodologia sensual” que ajuda líderes a sintonizarem-se com o clima estético e emocional das suas equipes, como disse Claus Springborg.
Isso me lembra uma história pessoal que envolve minha filha, e que me inspirou a utilizar intervenções artísticas em organizações, nas mentorias coletivas e treinamentos que faço através da minha empresa de educação, e como professor da Fundação Dom Cabral.
Quando me mudei para Califórnia, em 2016, minha filha não falava uma palavra sequer em inglês, ainda não havia sido alfabetizada, e chegou aos Estados Unidos com sua forma peculiar de se expressar apenas em português. Na terceira semana de aula, foi pedido que ela preparasse uma apresentação para falar sobre o que ela mais gostava de fazer com sua família.
Aqui temos dois problemas:
1. Ela não falava inglês.
2. Mesmo que falasse, na idade que tinha, seria difícil se expressar em uma apresentação na frente da turma inteira, sobre o que ela mais gosta de fazer com sua família.
Consegue imaginar qual foi a ferramenta que utilizamos para que ela pudesse expressar seus sentimentos em sala?
Sim, a arte!
Com um violão na mão, eu criei uma pequena canção, que envolvia os membros da família, atividades que ela fazia, e personagens de games. Cantamos tanto naquele dia, que a música toca nas nossas memórias perfeitamente até hoje, dez anos depois.
Naquele mesmo ano, minha filha subiria ao palco da escola duas vezes, uma para ganhar um prêmio de aluna que mais se superou – devido a barreira da língua – e outra como melhor aluna de sua turma naquele ano.
Isso me inspirou criar programas de mentoria corporativos, que passam por quatro blocos:

Estes blocos precisam de “lubrificação”, entre cada engrenagem, que são três buscas importantes em trabalhos coletivos, que não são vistos superficialmente, e precisam de uma atenção especial: expressão, processamento e ação.
Permitindo que, por meio da expressão individual, consigamos processar as informações coletivamente, para tomarmos ações assertivas.
Os contextos são os mais diversos, de times com problemas culturais, passando por busca de alta performance, ou mesmo estruturação de plano de carreira. Porque muitas vezes não conseguimos nos expressar da maneira que gostaríamos, por estarmos em um ciclo vicioso e rotineiro de não termos comunicações profundas, como quando recebemos um “Tudo bem?” e curiosamente respondemos com a mesma frase, e não só não nos damos o trabalho de nos consultarmos para responder sinceramente, como, na maioria dos casos, escondemos o que sentimos por ser aceito, e por ser o que todos fazem.
Espero que a partir de agora, você nunca mais olhe para problemas organizacionais com os mesmos olhos, entendendo que tudo pode ter um princípio na ausência de expressão assertiva e profunda dos envolvidos, em outras palavras, na ausência da arte como um mecanismo de gestão de pessoas nas corporações contemporâneas.
Por fim, se você identifica problemas similares na sua organização, o primeiro passo que eu sugiro que você dê é buscar programas de intervenção para gestores que se utilizem de “art-based management” como ponto de partida para construir uma conexão humanizada dentro da sua empresa, alimentando a cultura já existente, gerando maior autenticidade entre os indivíduos, e criando a peça chave de toda e qualquer relação, confiança.
Só a arte e a ciência libertam.
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