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Transformação digital

A ofensiva da OpenAI para dominar as conversas

A OpenAI avança com conversas em grupo no ChatGPT, desafiando o domínio do WhatsApp e posicionando-se como mediador universal das interações humanas

Roberto Oliveira
9 min de leitura
A ofensiva da OpenAI para dominar as conversas

Além de dominar as conversas entre duas pessoas e as relações entre marcas e clientes, o WhatsApp ainda tem outro trunfo em suas mãos: os grupos. Seja para colocar a família em contato, fazer um churrasco ou marcar o pôquer de todo mês, os grupos são uma das funcionalidades mais populares do aplicativo da Meta, que muita gente já chamou de “sistema operacional do Brasil”. Mas esse poderio poderia estar ameaçado? 

Recentemente, a OpenAI anunciou o início dos testes de uma nova funcionalidade do ChatGPT: conversas em grupo, com até 20 participantes interagindo simultaneamente com o assistente. À primeira vista, o lançamento pode parecer incremental. Na prática, ele dá sequência a uma ofensiva muito ambiciosa da empresa de Sam Altman na disputa global pela atenção das pessoas. 

Grupos com IA não são só um recurso experimental. Eles sinalizam a entrada da OpenAI em um território até hoje dominado pelo WhatsApp. É um terreno valioso da economia digital, porque concentra o que realmente importa: as conversas que fazem amizades acontecerem, decisões serem tomadas, compras serem fechadas e problemas serem resolvidos. Mais do que um diferencial tecnológico, a mensageria guia a nova era da comunicação como o espaço onde as relações se moldam – e não é à toa que as marcas foram para lá. 

Por isso, o anúncio da OpenAI precisa ser entendido num contexto maior. Ele marca o início de uma disputa que vai muito além de aplicativos ou funcionalidades: é a disputa por quem será o mediador universal das nossas interações. Em outras palavras, quem vai possuir a conversa – uma das duas grandes batalhas do mundo tech na atualidade.

A conversa como interface da economia

Durante muito tempo, resolver problemas na internet era acessar um site. Depois, passou a ser usar um app. Nos últimos anos, as conversas migraram para o centro da vida digital. No Brasil, o WhatsApp se tornou sinônimo de cotidiano: nele, resolvemos compras, atendimento ao cliente, questões familiares, burocracias escolares e até relações de trabalho. Na China, o WeChat levou essa ideia ao extremo ao unir comunicação, serviços e pagamentos em uma única camada, criando algo que se parece mais com um sistema operacional social do que com um aplicativo.

Essa tendência não é casual. Conversas geram dados, que, por sua vez, geram contexto. Contexto é o elemento que torna possível qualquer automação realmente inteligente. Quando as plataformas conseguem entender o que está sendo dito, elas passam a entender o que as pessoas querem, como se comportam, do que gostam, o que precisam, o que pretendem fazer. Essa é a matéria-prima de toda economia orientada por IA.

É uma evolução que costumamos chamar de AI transformation – um movimento em cinco passos encadeados. O primeiro é a digitalização da comunicação. Depois, a análise das conversas, que gera o terceiro passo: insights acionáveis. Por fim, há a automação de tarefas e a criação de múltiplos agentes especializados agindo em nome das pessoas e das empresas. A OpenAI está acelerando todos esses passos ao mesmo tempo – e fazendo isso justamente onde eles geram mais valor: dentro da conversa.

Por isso, quando a OpenAI investe em grupos, ela não está apenas criando mais uma ferramenta de colaboração. Está dando um passo rumo a um novo tipo de plataforma. Um sistema que não só faz buscas ou comandos, mas que participa e organiza interações humanas em tempo real. Uma plataforma que transita da lógica de “assistente que responde” os humanos para “assistente que convive” com eles.

O movimento da OpenAI: digitalizar para automatizar

A grande diferença entre o ChatGPT e os mensageiros tradicionais é o que cada um pode fazer com a conversa. Pensados num universo de privacidade ocidental, WhatsApp e seus similares (como iMessage e Telegram) são limitados pela criptografia de ponta a ponta — um modelo que protege o usuário, mas impede qualquer tipo de análise de conteúdo. Isso inviabiliza que a plataforma entregue resumos, organize decisões, sugira ações ou execute tarefas. 

No ChatGPT, essa barreira simplesmente não existe: ao justificar o armazenamento das mensagens como trunfo para entregar melhores resultados ao usuário, a OpenAI criou um paradigma em que a experiência supera a privacidade. A plataforma entende o que está sendo dito, armazena memória, constrói contexto ao longo do tempo, aprende padrões e pode agir sobre esses padrões. 

Quando isso é transportado para um ambiente coletivo, o resultado é ainda mais poderoso. O assistente passa a acompanhar como as pessoas se organizam, o que discutem, como tomam decisões e quais ações precisam ser executadas. Se entregar o que promete, a OpenAI pode fazer o ChatGPT resumir debates, registrar compromissos, sugerir respostas, organizar listas, fazer cálculos e até iniciar transações, tudo dentro da própria conversa.

É nesse ponto que o movimento da OpenAI deixa de ser incremental e passa a ser estratégico. Ao digitalizar a comunicação antes dos concorrentes, a empresa se posiciona para automatizar aquilo que está dentro dela. A automação, nesse caso, não acontece depois; ela nasce no mesmo lugar onde as necessidades surgem – e estar perto das necessidades é um passo fundamental para quem quer vender qualquer coisa. 

O futuro das marcas em um mundo AI-first

Dentro do atual modelo do WhatsApp, o papel das marcas é bem definido: elas podem utilizar o sistema da Meta para se comunicar diretamente com seus usuários. O avanço da OpenAI sobre as conversas, por sua vez, abre um papel fundamental: que modelo a gigante da IA pretende adotar para se relacionar com outras empresas? 

Dois caminhos são possíveis. O primeiro é que ela se torne um marketplace conversacional, controlando todo o fluxo de compra – do catálogo ao pagamento, passando por recomendação e até pelo pós-atendimento. É um cenário em que as marcas terão menos autonomia e passam a depender do fluxo que o assistente decide entregar, de forma parecida ao que acontece em e-commerces como a Amazon. 

O segundo modelo é mais próximo do que ocorre na Shopify – plataforma na qual as marcas constroem suas próprias experiências. É algo que permitiria às empresas manter sua voz própria, além de armazenar dados e ter uma relação direta com o consumidor. Nesse formato, o ChatGPT funcionaria mais como uma camada de integração do que como dono da jornada. 

Até aqui, os sinais da OpenAI apontam mais para o primeiro modelo. Integrações já anunciadas com empresas como Shopify, PayPal e Stripe mostram a ambição de construir uma infraestrutura de pagamento, enquanto plugins e resultados nativos mostram a formação de uma praça digital. Ao sugerir soluções, o ChatGPT já atua como um filtro entre a marca e o cliente – o que pode ser uma notícia ruim para muitas empresas. 

Ainda assim, o cenário não está definido. Há espaço e interesse para que as marcas construam agentes próprios, experiências próprias e canais diretos dentro de um ecossistema AI-first. A batalha entre presença própria e presença mediada está apenas começando. Independentemente do caminho, uma certeza permanece: a conversa deixou de ser apenas um meio e é cada vez mais a nova interface determinante da economia.

Diante desse cenário, a tarefa de qualquer líder é compreender que presença conversacional é um projeto de sobrevivência. Quem não souber se estabelecer dentro das plataformas AI-first perderá protagonismo para intermediários cada vez mais inteligentes. E, quando isso acontecer, não serão só as transações que migrarão. Será a relação inteira. A disputa da próxima década não será pelo melhor app, mas por quem mediará as conversas que definem nossas escolhas. Quem possuir esse espaço será capaz de influenciar toda a economia. 

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Roberto Oliveira
Roberto Oliveira é cofundador e CEO da Blip, principal plataforma de inteligência conversacional. Estudou Educação Executiva, Inovação e Empreendedorismo na Universidade de Stanford e é graduado em Engenharia Elétrica e de Telecomunicações pela UFMG. Lança e desenvolve empresas de tecnologia, é co-fundador da Confrapar e da Minu, além de investidor-anjo em outras startups.

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