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Antecipe-se aos riscos geopolíticos que podem afetar sua cadeia de fornecimento

Um framework prático, desenhado a partir do estudo de 13 gigantes multinacionais, pode ajudar a mitigar os efeitos disruptivos de conflitos internacionais atuais sobre sua cadeia de fornecimento

Morris A. Cohen, Shiliang Cui, Vinayak Deshpande, Ricardo Ernst, Arnd Huchzermeier, Daniela Muhaj, David Pyke e Andy A. Tsay
26 min de leitura
Antecipe-se aos riscos geopolíticos que podem afetar sua cadeia de fornecimento

O modelo convencional para gestão do risco na cadeia de fornecimento — projetado para desastres naturais, falhas de fornecedores e volatilidade de curto prazo do mercado — não está funcionando diante de perturbações persistentes e politicamente motivadas, como guerras comerciais, sanções e conflitos armados. À medida que as ações das lideranças dos países ameaçam as cadeias de fornecimento, empresas globais têm dificuldades para responder de maneira eficaz.

No cerne do desafio estão altos níveis de complexidade e incerteza. Políticas comerciais dos Estados Unidos de longa data foram suspensas e se tornaram imprevisíveis; atos de guerra ou terrorismo podem desestabilizar as suposições dos executivos sobre risco de segurança da noite para o dia. A escala e complexidade das cadeias de fornecimento das empresas dificultam a previsão do impacto desses eventos em suas redes. Nesse contexto, é fundamental que as empresas façam um esforço mais sistemático para entender, monitorar e gerir os riscos geopolíticos.

As empresas podem abordar os mesmos riscos de maneiras diferentes. Não existe uma solução única ou resultado garantido. Mas as empresas que estudamos têm uma prática em comum: elas têm — ou se esforçam para ter — uma visão completa de suas cadeias de fornecimento. Elas priorizam o entendimento das vantagens e dos riscos para seus fornecedores e clientes em todos os níveis. Embora possam ter uma visão incompleta, diante dos desafios de obter informações de fornecedores que não sejam ”top tier”, fazem o possível para se manterem bem-informadas, criarem opções que permitam alguma flexibilidade e, em seguida, fazer as adaptações necessárias em suas redes de compras conforme necessário. (Veja “Os três pilares da gestão de riscos na cadeia de fornecimento.”)

Desenvolvemos um framework em três partes para ajudar os gestores a estruturar seu pensamento sobre condições que estão em constante mudança. O arcabouço, que surgiu do nosso estudo com 13 empresas multinacionais, oferece um guia para ajudá-las a entender sinais geopolíticos, desenvolver estratégias que antecipem e mitiguem riscos na cadeia de fornecimento antes que se materializem, e responder a eventos em cada local.

Entenda os sinais geopolíticos para tomar decisões bem informadas

As informações que os gestores precisam para fazer escolhas que fortaleçam a resiliência da cadeia de fornecimento vêm de três práticas fundamentais:

  • planejamento de cenários,
  • monitoramento de riscos geopolíticos em tempo real e
  • modelagem e otimização da supply chain.

O planejamento de cenários ajuda a navegar pela incerteza, imaginando futuros plausíveis e preparando-se para eventos difíceis de prever, porém de alto impacto. Os gestores que entrevistamos incluem vulnerabilidades na cadeia de fornecimento da concorrência em seus cenários, pois perturbações geopolíticas podem criar desequilíbrios competitivos que empresas mais preparadas podem explorar.

Gestores da cadeia de fornecimento de um fabricante de equipamentos agrícolas sediado nos Estados Unidos que estudamos têm uma visão completa da cadeia global de fornecimento da empresa, que inclui fábricas nas Américas, Europa e China. Eles criam e avaliam continuamente cenários que podem prejudicar sua capacidade de atender clientes em mais de 140 países. A abordagem permite que eles compreendam os potenciais efeitos de uma disrupção de forma mais abrangente do que poderiam se focassem regionalmente, em um conjunto de fornecedores ou em outros segmentos isolados.

O que pode acontecer se um ou mais fornecedores começarem a ter dificuldades financeiras e isso resultar em prazos de entrega mais longos para os pedidos? Se um fornecedor de fonte única for adquirido, como isso pode mudar o acesso dos clientes à sua propriedade intelectual ou como sua própria propriedade intelectual é protegida? Se uma interrupção limitar o estoque de um concorrente, isso vai aumentar os preços?

O monitoramento geopolítico em tempo real, seja feito internamente ou por terceiros, garante uma conscientização oportuna sobre ameaças emergentes. O monitoramento mais eficaz vai além dos indicadores quantitativos de demanda do cliente ou prazos de entrega dos fornecedores, para acompanhar sistematicamente reportagens da imprensa e outras fontes de informação sobre eventos políticos que possam prenunciar problemas.

Os três pilares da gestão de riscos na cadeia de fornecimento

Gerir riscos geopolíticos para as cadeias de fornecimento exige monitoramento, compreensão e capacidade de previsão estratégica para servir de base para o planejamento de contingência e projetar opções em processos e estruturas

Decidir com base em informaçõesDefinir as opçõesAdaptar e executar
Informação e planejamento

Planejamento de cenários

Monitoramento de riscos em tempo real

Modelagem e otimização
Ajustes nos processos da cadeia de fornecimento

Estoque estratégico

Estoque gerido pelo cliente ajustado ao risco

Simplificação do processo
Exemplos de decisão

Mudar os volumes de produção e compra

Ajustar a política de estoques

Priorizar alocações e entregas
Redesenho da estrutura da cadeia de fornecimento

Reestruturação da pegada e sourcing multirregional

Parcerias estratégicas de fornecimento

Integração vertical de fornecedores críticos
Exemplos de decisão:

Ajustar fontes, logística e tecnologias de maneira colaborativa

Influenciar a localização de fornecedores de menor porte

Fazer recomendações de locais de produção e volumes
Fonte: os autores.

Nossa pesquisa incluiu um fabricante europeu de carros que produz a maioria de seus SUVs nos EUA e acompanha possíveis mudanças na política comercial para orientar decisões de produção. Por exemplo, ao se preparar para a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2024, estudou as posições dos principais partidos sobre o comércio exterior. A empresa começa a desenvolver novos veículos de três a quatro anos antes de serem lançados no mercado, e reconheceu que tarifas futuras poderiam afetar os custos de produção desses desenvolvimentos. Isso, por sua vez, afetaria os preços, o que tem implicações para as vendas. Desde a eleição de 2024, as políticas comerciais norte americanas tornaram-se mais voláteis, ameaçando os ciclos de vida dos produtos e as configurações da cadeia de fornecimento. A previsão de novas tarifas sobre matérias-primas e componentes devem aumentar os preços e suprimir a demanda interna dos consumidores. Se as tarifas forem de curta duração, como a empresa espera atualmente, a demanda deve se recuperar rapidamente. Caso contrário, sua flexibilidade de mix de produtos lhe dá a opção de transferir a produção para produtos e locais não afetados.

Por fim, a modelagem e otimização da cadeia de fornecimento integra os insights do planejamento de cenários e do monitoramento de riscos. Várias empresas que estudamos começaram a usar gêmeos digitais — modelos virtuais das operações da cadeia de fornecimento — para simular cenários hipotéticos. A tecnologia pode capturar interações dinâmicas na cadeia de fornecimento, ajudando os gestores a modelar uma gama mais ampla de cenários e a quantificar o impacto das decisões com mais precisão em múltiplos indicadores de desempenho, incluindo custo, receita e desempenho da empresa em relação aos concorrentes. Um fabricante americano de impressoras e laptops que estudamos usou gêmeos digitais para quantificar os custos e benefícios da reestruturação de sua cadeia de fornecimento, e os resultados levaram a empresa a diversificar onde fabrica seus produtos.

Pilar #1 | Com informações, antecipe riscos e defina opções

As empresas que estudamos usam os resultados de planejamento de cenários, monitoramento e modelagem para se prepararem para interrupções antes que elas ocorram. Essas estratégias antecipatórias se dividem duas categorias: ajustes nos processos e design da estrutura da cadeia de fornecimento.

Os ajustes de processos incluem opções como envolvimento em estoque estratégico, acordos de compra direcionada ou estoque gerido pelo cliente conforme o risco, além de simplificar processos por meio de compartilhamento refinado de informações. 

Estoque estratégico refere-se à compra de maiores quantidades de componentes ou materiais críticos antecipando possíveis interrupções. Por exemplo, uma empresa que estudamos na indústria de equipamentos semicondutores comprou um suprimento de cinco anos de um material crítico há alguns anos, quando uma possível guerra entre Rússia e Ucrânia ameaçava sua disponibilidade. Como os principais fornecedores globais do material estavam concentrados em ambos os países, o responsável pelas compras tomou a decisão ao saber que a Rússia poderia invadir a Ucrânia.

Por meio de acordos de compra direta, as empresas podem exigir que os fornecedores adquiram maiores quantidades de componentes, enquanto o estoque administrado pelo cliente dá à empresa compradora condições para gerir ativamente o estoque do fornecedor.

Um fabricante europeu de eletrodomésticos que estudamos mantém uma cadeia regional de fornecimento voltada para produtos de maior porte. Pode, por exemplo, reduzir os custos de envio de suas lavadoras, secadoras e outros produtos acabados. Fornecedores menores têm o principal risco geopolítico para a empresa porque suas operações de manufatura estão concentradas em um país, tornando-os suscetíveis a interrupções comerciais.

Para administrar esse risco, a empresa não está apenas desenvolvendo uma visão completa de sua exposição ao risco nos menores parceiros, mas também dividindo suas previsões de demanda e avaliações de risco com seus principais fornecedores, os “tier 1”. Além disso, a empresa ganhou controle sobre as decisões de entrega e estoque dos fornecedores, o que permite gerir suas entradas em estoque.

A empresa se beneficia da redução da escassez e dos custos de manutenção, além de conseguir melhores preços para insumos devido ao seu poder de mercado. Também pode negociar com fornecedores para determinar quanto do custo relacionado ao estoque cada um suportará para reduzir seu risco.

Essa abordagem cria reservas de segurança que mitigam choques de oferta e demanda. Para empresas que fabricam produtos complexos e caros, como eletrônicos de consumo e automóveis, o estoque administrado pelo cliente ajuda a manter os preços estáveis para os consumidores.

Estratégias como essas ajudam as empresas a enfrentar rupturas no curto e médio prazo, pois podem continuar trabalhando com parceiros existentes enquanto adicionam salvaguardas. Em contraste, o design da estrutura da cadeia de fornecimento pode envolver mudanças mais fundamentais. As empresas podem decidir mudar para parceiros em locais de menor risco. Elas podem desenvolver parcerias estratégicas de fornecimento para compartilhar os riscos e garantir acesso preferencial aos suprimentos durante a escassez. Ou podem optar pela integração vertical para controlar a disponibilidade de componentes críticos por conta própria.

Mudanças  estruturais podem levar mais tempo para serem implementadas — anos para construir uma nova fábrica em comparação com dias ou semanas para ajustes de estoque. Algumas iniciativas que estudamos exigiam aprovação do conselho devido à sua complexidade e custo.

O fabricante de impressoras e laptops mencionados anteriormente fez mudanças para atender às preferências conflitantes dos clientes por alta qualidade, preços competitivos, disponibilidade constante e prazos de entrega curtos. A empresa centralizou a produção — principalmente na China — para aproveitar a expertise concentrada em manufatura e os custos de mão de obra competitivos. No entanto, depender exclusivamente de fábricas na China para produtos que seriam distribuídos mundialmente tornou-se mais arriscado devido ao aumento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China.

Para se defender desses riscos, a empresa começou a adicionar fábricas na Tailândia, Vietnã, México, Índia e Brasil, que possuem um perfil de risco geopolítico menor que a China. Ter uma diversificação de locais de produção cria opções para que esta seja rapidamente transferida. Além disso, a empresa investiu no ecossistema que sustenta as novas unidades produtivas. Por exemplo, ela se envolve com fornecedores locais para insumos de commodities e trabalha para atrair fornecedores existentes de materiais especializados a se estabelecerem nas proximidades. Essas etapas levam tempo para serem executadas, porém: leva dois anos para adicionar uma nova fábrica e mais para construir um ecossistema.

Essas estratégias são apostas calculadas. Segundo um executivo, os concorrentes também adotaram esse caminho — o que eleva a aposta. As fontes para alguns insumos críticos ainda estão geograficamente concentradas em regiões de alto risco. No entanto, desenvolver contingências para todas as possíveis interrupções seria extremamente custoso. A diversificação torna a gestão de riscos o mais eficiente possível em termos de custos.

Pilar #2 | Adapte-se às condições vigentes

Construir o tipo de opções descritas acima exige planejamento antecipado: essas adaptações podem proporcionar mitigação significativa de curto prazo apenas se as empresas já tiverem investido nos ativos tangíveis ou relacionamentos comerciais que as tornam possíveis.

Com esses pré-requisitos estabelecidos, os gestores podem exercer as opções quando ocorrem interrupções. O fabricante de eletrodomésticos pode descarregar seu estoque extra. O fabricante da tecnologia pode aumentar a produção em um local menos arriscado. A questão é quando puxar o gatilho. Em um ambiente caótico, esperar para ver pode ser uma abordagem válida.

Observamos isso em um fornecedor automotivo de primeira linha no México que, na época, continuava monitorando as políticas tarifárias norte americanas, mas ainda não havia feito mudanças em sua cadeia de fornecimentos. A empresa tem poucos concorrentes devido aos altos custos fixos de operação das fábricas e à diminuição da demanda por motores a combustão. (Muitos fornecedores estão transferindo a produção para atender ao mercado de veículos elétricos.) E embora os clientes tenham levantado a possibilidade de esse fornecedor abrir uma nova fábrica nos Estados Unidos, eles têm recusado dividir o custo.

No entanto, a empresa está ciente de que os clientes não absorverão custos tarifários para sempre, e começará a pedir aos fornecedores que compartilhem esses custos. Observamos que empresas de vários setores, incluindo semicondutores e varejo eletrônico, estão conversando com fornecedores sobre como dividir ônus tarifário.

Pilar #3 | Desenvolva as capacidades para a gestão de riscos geopolíticos

O framework descrito aqui permite identificar estratégias e ações que ajudem a navegar melhor pela disrupção geopolítica. No entanto, nenhuma das empresas que estudamos adotou todos os elementos desse framework, e a forma de aplicação dessas práticas variava. Os gestores da cadeia de fornecimento devem trabalhar em estreita colaboração com suas equipes de gestão de riscos para determinar quais estratégias oferecem maior benefício e traçar um caminho prático a seguir.

A abordagem ideal depende de muitos fatores, incluindo o ambiente competitivo no setor de uma empresa, o grau em que ela é diretamente afetada pelas condições em um determinado local, sua pegada geográfica, a complexidade de sua cadeia de fornecimento, sua tolerância ao risco — até mesmo as suposições dos líderes sobre o futuro.

Por exemplo, empresas em setores altamente competitivos normalmente precisam reagir imediatamente a uma disrupção, enquanto aquelas que dominem o mercado ou com margens altas podem ter mais condições para esperar e ver. Uma empresa com um único fornecedor e sem alternativa imediata não consegue adotar o sourcing multirregional no curto e médio prazo. No entanto, pode fortalecer sua posição por meio de novas parcerias e processos de gestão de estoque. Líderes que antecipam uma recessão podem esperar para colocar sua resposta em marcha, presumindo, por exemplo, que se a economia contrair no curto prazo, as tarifas serão suspensas.

Sugerimos que, à medida que as empresas trabalham para avaliar essas decisões, priorizem as seguintes práticas para aplicar nosso framework de forma eficaz. [Veja quadro abaixo.]

Um checklist para gerir riscos geopolíticos na cadeia de fornecimento

As cinco práticas de construção de cenários e desenvolvimento de opções permitem que as empresas se preparem para tarifas, guerras e outros conflitos.

  1. Invista em dados de alta qualidade e tecnologia de gêmeos digitais para capacidades mais robustas de modelagem da cadeia de fornecimento.
  2. Construa cenários adaptados aos riscos que a empresa e seu setor enfrentam particularmente.
  3. Amplie a análise para além dos níveis de fornecedor ou país para incluir toda a cadeia de fornecimento e os relacionamentos entre as nações.
  4. Prepare-se para responder rapidamente a eventos disruptivos, investindo em opções para adquirir e gerir estoques e otimizar processos no curto prazo.
  5. Avalie opções para melhorar a estabilidade a longo prazo por meio de diversificação, parcerias estratégicas e integração vertical.

Eis algumas medidas para construir capacidades para gestão de riscos geopolíticos:

Amplie a visão. Quando as empresas avaliam riscos na cadeia de fornecimento, normalmente focam individualmente em cada país e consideram sua estabilidade política, condições econômicas ou ambientes regulatórios. No entanto, riscos geopolíticos atravessam fronteiras.

O planejamento de cenários deve levar em conta como mudanças nas relações bilaterais ou multilaterais podem afetar as operações. Os gestores precisam estar cientes desses riscos ou ameaças antes de criarem opções ou escolher quais adotar. Qualquer dado que as empresas possam obter sobre cada elo em sua cadeia de fornecimento pode ajudá-las a descobrir vulnerabilidades que, de outra forma, poderiam estar ocultas ou negligenciadas.

Além disso, riscos geopolíticos não podem ser enfrentados unilateralmente, pois as questões podem se espalhar por múltiplos pontos da cadeia. Os gestores precisam entender e influenciar fornecedores e clientes de ponta a ponta para que vulnerabilidades upstream ou downstream não comprometam seus esforços de mitigação de riscos.

Por exemplo, um fornecedor localizado em um país politicamente estável pode ainda ter suas operações interrompidas se a relação comercial desse país com um parceiro-chave se deteriorar. Se a empresa entender os riscos dos parceiros menores, seus gestores podem colaborar com o fornecedor para definir opções para ambas as empresas. Eles podem usar seus modelos para testar respostas para o fornecedor e depois trabalhar com ele para diversificar suas fontes, ou estabelecer um gatilho para a compra de mais estoque.

Obtenha dados melhores e use-os de forma eficaz. As empresas precisam ir além dos modelos simplistas de suas cadeias de fornecimento e das avaliações superficiais de risco, buscando a coleta e análise sistemática de dados que conectem indicadores geopolíticos a métricas de desempenho da cadeia de fornecimento. Para isso ser possível, eles precisam de dados de alta qualidade e ferramentas analíticas, como gêmeos digitais, para quantificar o impacto potencial de diferentes cenários e tomar decisões de mais qualidade sobre investimentos em mitigação de riscos.

Quando as empresas alimentam os gêmeos digitais com dados de transações sobre requisitos regulatórios, fluxos de materiais e financeiros de ponta a ponta, e restrições geopolíticas ao longo do tempo, elas podem testar milhares de cenários e respostas. Com simulações mais realistas de futuros possíveis do que aquelas feitas com ferramentas tradicionais de modelagem, eles podem fazer apostas mais precisas; isso, por sua vez, pode permitir que tomem melhores decisões em tempo real em resposta aos eventos. ‘

Riscos geopolíticos não podem ser enfrentados unilateralmente, pois as questões podem se espalhar por múltiplos pontos da cadeia. Os gestores precisam entender e influenciar fornecedores e clientes

Como dissemos anteriormente, obter dados que cubram toda a cadeia de fornecimento pode ser desafiador. Os gestores terão que desenvolver relacionamentos com empresas além de seus fornecedores diretos e aceitar compartilhar dados. No entanto, suas organizações podem se beneficiar mesmo que os dados coletados não sejam abrangentes. Os gêmeos digitais serão mais eficazes quando os gestores incluem não apenas dados históricos sobre períodos de estabilidade e instabilidade ao longo da cadeia, mas também dados em tempo real, ou o máximo que a empresa puder coletar.

Por exemplo, desenvolvemos um gêmeo digital para um fabricante de eletrônicos de consumo que incorpora dados de seus fabricantes contratados offshore na Ásia, bem como dados coletados pelos centros de distribuição do fabricante sobre seus clientes de varejo. Os próprios varejistas possuem cadeias de fornecimento complexas, incluindo seus próprios centros de distribuição ao redor do mundo e milhares de lojas. Os dados de ponta a ponta permitem que o fabricante modele como as interrupções na produção afetam as vendas e a distribuição, e avalie possíveis respostas.

Invista em relações governamentais. Ao contrário de desastres naturais ou flutuações de mercado, riscos geopolíticos às vezes podem ser antecipados por meio de um monitoramento cuidadoso dos desenvolvimentos e das decisões políticas. As empresas podem se beneficiar de entender como os funcionários do governo tomam decisões e de ter acesso a informações que não estão sendo noticiadas pela mídia.

Muitas empresas globais contratam pessoas com profunda expertise em política ou fazem parcerias com escritórios de lobby, pesquisas políticas e outras organizações que mantêm fortes relações com formuladores de políticas. A coleta de inteligência política deles pode trazer alertas precoces sobre mudanças que provavelmente terão implicações significativas na cadeia de fornecimento.

Várias empresas que estudamos mantêm escritórios na capital dos Estados Unidos para esse fim. A extensão do investimento em relações governamentais dependerá naturalmente do tamanho da empresa, do setor e da exposição ao risco geopolítico, mas todas as corporações devem considerar cuidadosamente como tais investimentos podem aumentar sua resiliência.

Mantenha fluxos financeiros e liquidez. Perturbações geopolíticas frequentemente desencadeiam complicações financeiras junto com desafios operacionais. A volatilidade cambial, restrições bancárias, atrasos nos pagamentos e implicações fiscais podem agravar os efeitos diretos das interrupções na cadeia de fornecimento.

A interação entre fluxos de materiais e financeiros deve ser incluída na modelagem e planejamento de cenários das empresas. Os gestores precisarão de estratégias para administrar as finanças durante uma crise geopolítica tanto quanto para gerir seus suprimentos físicos.

Em muitas das empresas que estudamos, os gestores da cadeia trabalharam junto com a equipe financeira para planejar a manutenção de liquidez adequada, diversificar seus relacionamentos bancários e se preparar para acesso restrito aos sistemas financeiros de um país.

Nosso framework representa um passo inicial rumo à gestão sistemática dos riscos geopolíticos nas cadeias globais de fornecimento. Nós a criamos a partir das estratégias que os gestores da cadeia de fornecimento de grandes empresas estão usando ativamente para identificar e mitigar riscos de tarifas, sanções, guerras e outras decisões governamentais.

O planejamento regular de cenários e o monitoramento contínuo de riscos, apoiados por modelagem avançada e otimização da cadeia de fornecimento, podem ajudar os gestores a ponderar os trade-offs entre diferentes estratégias. Depois de se prepararem para ajustes de curto prazo nos processos e iniciarem mudanças estruturais de longo prazo, poderão reagir rapidamente aos acontecimentos.

O FRAMEWORK E AS RECOMENDAÇÕES apresentados neste artigo podem apoiar os gestores no desenvolvimento de estratégias baseadas em dados que antecipam o futuro e são possíveis de implementar. O que funciona hoje pode se mostrar inadequado amanhã, à medida que as relações políticas mudam, novos conflitos surgem e governos desenvolvem novas ferramentas para a diplomacia econômica. Empresas que investem na construção de capacidades adaptativas em vez de planos rígidos de contingência estarão mais bem posicionadas para navegar por essa incerteza.

Sobre a pesquisa

  • Os autores estudaram 13 multinacionais com faturamento anual entre US$ 10 bilhões e Us$ 150 bilhões sediadas nos EUA, Alemanha, México ou Holanda.
  • As empresas representam diversos setores, incluindo máquinas agrícolas, cosméticos, semicondutores, hardware de computação, autopeças, montagem automotiva, geração de energia e prestação de serviços de saúde.
  • Por meio de entrevistas qualitativas com executivos seniores responsáveis pela cadeia de fornecimento de cada empresa, os autores identificaram e avaliaram como as organizações tomam conhecimento, planejam e respondem a eventos geopolíticos.

Referências bibliográficas

1. P. Schoemaker and S. Phadnis, “How to Make Scenario Planning Stick,” MIT Sloan Management Review 67, no. 2 (winter 2026): 28-35, https://doi.org/10.63383/Kplk2875.

2. M. Cohen, S. Cui, S. Doetsch, et al., “Bespoke Supply-Chain Resilience: The Gap Between Theory and Practice,” Journal of Operations Management 68, no. 5 (July 2022): 515-531, https://doi.org/10.1002/joom.1184.

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4. Y. Niu, N. Werle, M. Cohen, et al., “Restructuring Global Supply Chains: Navigating Challenges of the COVID-19 Pandemic and Beyond,” Manufacturing & Service Operations Management 27, no. 4 (July-August 2025): 1025-1036, https://doi.org/10.1287/msom.2024.0879.

5. N. Agrawal, M.A. Cohen, R. Deshpande, et al., “How Machine Learning Will Transform Supply Chain Management,” Harvard Business Review 102, no. 2 (March-April 2024): 128-137.

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Morris A. Cohen, Shiliang Cui, Vinayak Deshpande, Ricardo Ernst, Arnd Huchzermeier, Daniela Muhaj, David Pyke e Andy A. Tsay
Morris A. Cohen, Shiliang Cui, Vinayak Deshpande, Ricardo Ernst, Arnd Huchzermeier, Daniela Muhaj, David Pyke e Andy A. Tsay
Morris A. Cohen é professor de manufatura e logística na University of Pennsylvania e CEO da AD3 Analytics (Estados Unidos). Shiliang Cui é professor de operações e análise na Georgetown University (EUA). Vinayak Deshpande é professor de operações na University of North Carolina, no campus de Chapel Hill. Ricardo Ernst é e professor de operações e gestão da cadeia de fornecimento na Georgetown University, além de diretor executivo do Programa de Liderança Latino-Americana ligado à Georgetown University (EUA). Arnd Huchzermeier é o líder de gestão de produção na WHU (Alemanha). Daniela Muhaj é diretora de iniciativas de pesquisa e tecnologia na Georgetown University (EUA). David Pyke é dean emérito e professor aposentado de operações e gestão da cadeia de fornecimento na University de San Diego (EUA). Andy A. Tsay é professor de sistemas de informação e análise na University of Santa Clara (EUA).

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