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Autoengano e ambição: a busca dos jovens executivos pelo sucesso a qualquer custo

Os talentos mais jovens estão adoecendo no mundo corporativo. E isso tem a ver com a matrix do sucesso rápido e da visibilidade extrema. É preciso desmontar as armadilhas de comportamento profissional para criar um ambiente psíquico mais saudável e sustentável

Ulisses Zamboni
12 de julho de 2024
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As recentes demissões nas big techs no mundo e no Brasil levaram para o divã vários jovens profissionais talentosos do mercado nacional que acabaram sendo impactados diretamente pela demissão em massa ocorrida e, consequentemente, por um sofrimento psíquico pós-demissão que considero surpreendente se comparado há alguns poucos anos. E fez com que despertasse em mim uma espécie de alerta.

Sei que este é um artigo delicado. Ele esbarra no auto engano sobre a própria identidade profissional, nas vaidades de cunho pessoal que são inexplicáveis em nosso cotidiano de trabalho e na necessidade egóica de ser considerado “a última Coca-Cola do deserto” na empresa.

Apesar da escala de estresse de Holmes-Rahe (Holmes-Rahe stress scale) apontar para a demissão como a 8ª causa de maior impacto na vida de uma pessoa, a prática tem mostrado para uma realidade mais grave.

O tema é complexo e intrincado de variáveis. Entrelaça nuances importantes do lado corporativo, como a gestão de poder, seus pesos e contrapesos, até as questões de autoimagem, da ética privada na permissão do auto abuso e da forma como a própria identidade é percebida. E não há lado ou perspectiva que eu consiga enxergar nisso que não me faça querer colaborar.

E, quero aqui definir de quem estamos falando quando digo “jovens” profissionais. Estou me referindo aos profissionais de mercado que ainda estão na sua primeira década de labuta, numa curva de ascensão favorável e, claro, construindo pontes para realização de conquistas amplamente desejadas.

Localizando ainda mais essa turma, são profissionais entre os 22 e 30 anos. O que não quer dizer que as questões de ordem emocional não se arrastem para depois disso e estejam igualmente impactando o atual cenário do trabalho em todas as idades.

O inception do jovem de sucesso rápido e milionário

Numa espécie de parceria público-privada feito na década de 1950, Frederick Terman, reitor da Stanford University School of Engineering, nos Estados Unidos, criou o Stanford Industrial Park, agora conhecido como Stanford Research Park (SRP), que permitiu que empresas de tecnologia se instalassem próximas a universidade e solicitassem projetos criativos e de vanguarda dos estudantes STEM de Stanford, sigla usada para localizar as áreas de ciência (science), tecnologia (technology), engenharia (engineering) e matemática (mathematics).

Esse foi o pontapé do Vale do Silício e seu desenvolvimento de computadores e devices do mundo digital e, claro, outros inventos na medicina e na área farmacêutica, estes em menor quantidade. Empresas como HP, por exemplo, se estabeleceram por lá desde 1956. Hoje estão ativas no SRP a Tesla, o Skype, SAP, a Nest do Google, dentre outras.

Stanford, com seus alunos talentosos, começou a criar e desenvolver ideias inovadoras inspiradas pela emergente teoria do design thinking, na época, um passo importante para o marketing que aplicamos hoje, pois a teoria pressupõe total empatia e conhecimento das “dores do cliente”. É o que chamamos de projetos com usuário no centro (em inglês, customer centricity project).

Ano após ano, graças a essa parceria, a apresentação de inúmeros protótipos foram colocados em prática pela indústria e transformados em projetos de tecnologia que literalmente foram e são best sellers para a vida de hoje. O exemplo mais basal e estrutural disso é o da indústria de semicondutores e de seu desenvolvimento chegando até ao que conhecemos hoje.

Avançando rapidamente na narrativa histórica para abordarmos nosso tema central, inúmeras instituições no cenário universitário americano adotaram este modelo. E esse movimento catapultou jovens prodígios das áreas STEM nos Estados Unidos de estudantes talentosos em empreendedores bilionários ainda em sua juventude, demonstrando o poder inovador e disruptivo da educação aliada ao empreendedorismo.

Então, inicia-se uma jornada imagética, ao meu ver, devastadora para a psique dos jovens empreendedores e executivos no mundo inteiro. O sonho do Vale do Silício.

Desejo, projeção e frustração

Ter uma posição de visibilidade numa “tech de respeito”, criar uma startup hype para receber investimento de um angel (e também pode ser comprada a preço de ouro por uma multinacional) ou, simplesmente conseguir prosperar rapidamente na carreira dentro de qualquer companhia antes de completar 30 anos de idade acabou se tornando uma espécie de default para os jovens executivos no mundo todo. E por aqui não é diferente.

O constante bombardeio de histórias de sucesso, sempre amplificadas e glamourizadas pelas redes sociais, cria uma pressão implacável sobre esses jovens para que alcancem feitos extraordinários em um curto espaço de tempo. Esta projeção de sucesso, frequentemente idealizada, pior, romantizada via canais digitais, leva inevitavelmente a uma comparação incessante entre pares e a uma sensação de estar sempre atrás, mesmo quando se está progredindo a um ritmo saudável e sustentável.

E a mídia de massa, voltada às finanças e negócios, corrobora na pressão. Randall Lane, atual chief content officer da Forbes, criou desde 2011, o reconhecimento dos “”30 under 30″”, uma lista de 30 jovens abaixo dos 30 anos com performance acima da média que precisam ficar no radar do mercado. No Brasil, a indicação de nomes chegou em 2014 e se chama “”Forbes under 30″”, na Forbes Brasil.

A problemática não está obviamente em incentivar o jovem ao sucesso, mas chegar lá por uma espécie de obrigação com data marcada. O processo de emulação do desejo de realização para esses jovens está excedendo os limites das possibilidades concretas de alcançá-lo. Os efeitos colaterais produzidos por essa busca são nefastos.

Volto ao início deste artigo. Colegas psicanalistas acusam o aumento desproporcional da procura de pacientes jovens aos consultórios com crises de ansiedade debilitantes e, também, a procura de pais afetados pelo suicidio dos filhos, principalmente relacionados a uma auto exigência exacerbada.

A autopunição dos jovens: carimbo do fracasso

Nosso superego é nosso filtro pessoal de comportamento para os eventos em sociedade. Ele é um regulador de comportamento a fim de que não cometamos “”sincericídios”” a todo momento. É um artifício do aparelho psíquico fundamental para vida em sociedade, no entanto, se anabolizado, traz graves consequências.

Esse conceito de superego aparece na segunda tópica freudiana, chamada teoria estrutural de Freud, de 1923, onde ele introduz os conceitos de id, ego e superego, este último se caracterizando como uma forma de consciência interna que zela pela disciplina e exigências internas, ao mesmo tempo que é um dispositivo interno “quase tirânico” pela autocensura, consciência moral e sentimentos de culpa.

Como já mencionei, são centenas de estímulos de fortalecimento do superego dos jovens para obtenção de sucesso, levando literalmente a uma autoexigência insustentável.

Esse quadro leva esses jovens a adoção de dispositivos psíquicos devastadores. Seguem os cinco deles que estão em evidência nos consultórios.

1. Síndrome do pânico: não é um termo que aprecio muito pois caiu numa espécie de lugar comum, mas é fato que a pressão e a velocidade para alcançar o sucesso geram a sensação de se estar sempre atrás ou, pior, abaixo das expectativas demandadas pelos próprios profissionais.2. Síndrome do impostor: “”eu não sou capaz de atender esse nível de exigência, mas os outros são””. Alto sentimento de inadequação.3. Síndrome de burnout: um sentimento de exaustão plena e profunda somado ao sentimento de incompetência irreparável. 4. Transtorno do espectro autista (TEA): estamos falando de isolamento. O fracasso gera a sensação de não pertencimento.5. Dependência: talvez o sintoma mais relacionado ao elemento central das frustrações dos jovens profissionais: a falta. Uma espécie de compensação (óbvia) da ausência de ferramentas pessoais para alcançar o sucesso.

Discute-se muito na psicanálise, e especialmente na psiquiatria, que não há uma resposta simples para justificar o comportamento do adicto, mas seguramente enxergo o vazio interno profissional como um gatilho aos que estiverem mais propensos à adesão deste gatilho psíquico.

Potenciais armadilhas para um adoecimento profissional

A psicanálise é uma ferramenta para o aprofundamento da compreensão psíquica do indivíduo. Devido ao seu foco individualizado, não oferece soluções “”coletivas”” ou fórmulas universais para uma vida melhor. Cada pessoa responde às pressões sociais de maneira única, baseada em sua predisposição a certos eventos.

No entanto, vou desafiar o rigor psicanalítico indicando algumas trilhas traiçoeiras de conduta individual onde os profissionais em início de carreira têm intensificado suas jornadas, e onde, muitas vezes, encontram desafios inesperados e acidentes de percurso. Ao mesmo tempo, apresento respostas à elas.

Como se fala por aí: vamos combinar que entre a simples identificação das armadilhas e a verdadeira conscientização e enfrentamento delas, há um abismo colossal.

1. Pressão social e profissional: navegar pela complexidade de valorizar sua própria trajetória, resistindo à tentação de constantes comparações.2. Idealização do sucesso rápido: inverter a lógica de que seu tempo é o pior tempo de crescimento. “”Eles é que não conhecem meu jeito””. Conhecer e respeitar sua própria velocidade e chave.3. Superexposição das carreiras nas redes sociais: reconhecer que triunfo dos outros nas redes podem ter vindo de posts editados. Já diz o ditado: só faz omelete quem quebra os ovos. Vida dura bate na porta de todo mundo.4. Auto exigência excessiva: indivíduo “”analisado”” (terapiado) adquire a capacidade de reconhecer as demandas do superego. E responder às que lhe convém e quando lhe convém.5. Valorização excessiva da visibilidade: o desejo dos superlativos no trabalho – o maior, o melhor, o mais competitivo etc – pode indicar o oposto na validação como indivíduo em sua vida pessoal. A vida pessoal é uma ótima resposta para esse equilíbrio. Ela tende a dar mais e equilibrar essa balança.

Ao abordar e desmontar essas e outras armadilhas de comportamento profissional, é possível criar um ambiente psíquico mais saudável e sustentável, aumentando as chances da chegada do sucesso em seu tempo certo.

Essa teia complexa de circunstâncias modernas pode ser comparada a uma matrix, onde os jovens são constantemente desafiados a discernir a realidade das ilusões, enquanto navegam pelas pressões e expectativas da sociedade atual.

Ah, não esqueça. Faça análise, terapia ou, se não achar necessário, comprometa-se verdadeiramente com você mesmo em seu tempo e seus desejos mais íntimos. A consciência coletiva é um construto cultural, lindo de perceber, mas impossível de gerenciar. Portanto, só você pode cuidar de você.”

Ulisses Zamboni
Com 40 anos de experiência na área de comunicação, é presidente e sócio da agência Santa Clara, membro do conselho do Grupo de Planejamento no Brasil, membro do Conselho Editorial da MIT Sloan Review Brasil e clinica como psicanalista.

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