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Tokens

Bem-vindos à economia que pensa sozinha

O dataísmo pode ser uma possível evolução do capitalismo que conhecemos. Conheça um novo olhar sobre o tema, e sobre a tokenização, e os argumentos de quem aposta que a máquina conseguirá devolver tempo e atenção às pessoas

Daniel Luis Martins
8 min de leitura
Bem-vindos à economia que pensa sozinha

Confesso que demorei a entender o tamanho da mudança que estava diante dos meus olhos. Foi ao ler Homo Deus, de Yuval Harari, que esbarrei pela primeira vez no conceito de dataísmo. Desde então, não consigo mais olhar para a economia da mesma forma. Trata-se de uma visão filosófica e cultural que coloca os dados no centro da realidade e da tomada de decisão.

A ideia é provocadora: e se tudo, de organismos biológicos a sistemas econômicos, pudesse ser lido como fluxos contínuos de informação? Nessa perspectiva, o valor deixa de morar apenas nos ativos em si e passa a residir na capacidade de gerar, processar e compartilhar dados em escala. Não me parece ficção. Vejo nessa direção uma das trajetórias mais plausíveis para a evolução da economia digital.

Penso no dataísmo como uma possível evolução do capitalismo que conhecemos. À medida que avançamos na infraestrutura de comunicação e na automação de processos, sobretudo os financeiros, o próprio conceito de capital se transforma. O dinheiro vira apenas mais um tipo de dado dentro de um ecossistema maior, que conecta ativos, instituições, regulações e indivíduos.

O nome que daremos a esse novo estágio é o menos importante, seja dataísmo, capitalismo 2.0 ou tecnoeconomia. O que me parece cada vez mais evidente é a tendência de caminharmos para uma economia cada vez mais hiperconectada, na qual os silos de informação vão sendo gradualmente eliminados e o fluxo de dados se torna mais fluido, acessível e determinante para a geração de valor.

O nome que daremos a esse novo estágio é o menos importante, seja dataísmo, capitalismo 2.0 ou tecnoeconomia. O evidente é a tendência de caminharmos para uma economia em que os silos de informação vão sendo gradualmente eliminados

É nesse ponto que entra a tecnologia que viabiliza essa lógica: o Distributed Ledger Technology (DLT), ou tecnologia de registro distribuído. Você talvez conheça pela sua forma mais popular, o blockchain, porém o conceito é mais amplo. Trata-se de uma infraestrutura capaz de registrar, validar e compartilhar dados de forma confiável entre múltiplos participantes, eliminando aquelas informações segregadas em silos. E aqui vale guardar uma ideia: infraestrutura. Como o asfalto de uma estrada, ela não escolhe o destino da viagem, apenas torna o caminho mais rápido e seguro. Quem segura o volante segue o mesmo.

E é aí que ganha força um conceito a palavra que vai aparecer cada vez mais no nosso vocabulário: tokenização.

O token e a economia que age

Tokenização nada mais é do que o processo de transformar direitos, ativos ou informações em unidades digitais padronizadas, registradas e rastreáveis. A palavra “token” pode ser entendida como uma “ficha” que representa um valor dentro de um sistema. Lembra das fichas que comprávamos no parque de diversões? Você trocava dinheiro físico por créditos válidos naquele ambiente. Um token funciona de forma parecida, é a representação digital de um valor dentro de um ecossistema.

E, de certa forma, isso nem é tão novo assim. O saldo que você vê na conta do banco já é, essencialmente, uma representação digital, um registro de saldos, débitos e créditos mantidos por uma instituição. O Pix mostrou, de forma quase didática, como essa camada pode ser tão integrada a ponto de tornar as transferências quase instantâneas algo banal no nosso dia a dia.

A diferença, agora, está no alcance e na natureza dessa transformação. A tokenização leva esse modelo para muito além do dinheiro. Imóveis, veículos, máquinas e até propriedade intelectual podem deixar de viver em silos isolados e passar a integrar um caminho digital comum, programável e compartilhado. O resultado é menos fricção, mais confiabilidade e espaço para automatizar processos inteiros, de ponta a ponta.

Vale a pena explorar os bastidores dessa tecnologia, ainda que rapidamente, porque é aqui que mora a engenhosidade da coisa. Uma arquitetura baseada em blockchain combina uma rede distribuída de computadores (os chamados nós) que mantêm e validam um mesmo registro compartilhado, um livro-razão estruturado em blocos encadeados por assinaturas criptográficas. Cada transação é propagada pela rede, validada por mecanismos de consenso e registrada de forma praticamente imutável, o que garante integridade e total rastreabilidade.

Nesse ambiente, os tokens funcionam como representações programáveis de valor, identidade ou direito, operando sobre os chamados contratos inteligentes, programas que executam regras de negócio automaticamente, sem precisar de intermediários humanos ou ações manuais, o contrato inteligente se torna o intermediário hiper automatizado, refletindo as regras que pessoas escreveram, sendo no fundo, a tradução de uma decisão humana.

Quando conectamos instituições, usuários e até agentes digitais por meio de carteiras e identidades digitais, criamos um ecossistema em que dados, ativos e processos transitam de forma segura, rastreável e interoperável. O que se traduz em uma infraestrutura capaz de reduzir fricções, eliminar reconciliações manuais e viabilizar fluxos contínuos de informação e valor. Uma base técnica sólida para aquilo que considero o ponto-chave de toda essa história, a automação nativa da economia digital.

E aqui está o que mais me entusiasma. Em uma economia orientada por dados, essa infraestrutura não serve apenas para anotar o que aconteceu. Ela cria as bases para sistemas que agem sobre a informação automaticamente. Processos hoje dependentes de validações manuais podem se tornar contínuos, integrados e, em muitos casos, simplesmente invisíveis. O que se resume à máquina nos devolvendo tempo e atenção.

Um exemplo concreto está mais perto do que imaginamos: a declaração de imposto de renda, que chega pré-preenchida e cada vez mais precisa a cada ano. Em um ambiente em que diferentes sistemas compartilham dados confiáveis e atualizados, é plausível chegarmos a um ponto em que a conferência humana se torne cada vez menos obrigatória, assim como já confiamos, sem pensar duas vezes, nas transações bancárias digitais.

É por isso que falo em uma economia que “pensa sozinha”, apenas como uma provocação, pois, ela não pensa no nosso lugar: ela pensa e trabalho no que é repetitivo para que nós possamos pensar e nos dedicar ao criativo. Creio que nessa altura, já ficou claro para o leitor, mas faço questão de destacar: ela não veio para nos substituir, mas para redefinir o nosso papel. Ao assumir as tarefas operacionais e reduzir a necessidade de verificação constante, essa nova lógica nos devolve aquilo que é genuinamente humano em decidir, priorizar e atribuir significado às escolhas.

Em vez de gerenciar processos, passamos a escolher caminhos. Seja na hora de definir um investimento, de viver uma experiência ou, simplesmente, de decidir para onde ir no próximo fim de semana. No fim, talvez o melhor resultado de uma economia que aprende a pensar seja sobrar mais tempo para que nós, humanos, possamos nos dedicar ao que realmente importa.

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Daniel Luis Martins
Daniel Luis Martins
Daniel Luis Martins é especialista em inovação do Inovabra.

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