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A inteligência artificial passou a influenciar diretamente a lógica de valorização das companhias, levando investidores a reavaliar sua capacidade de incorporar ou resistir à disrupção tecnológica
Os mercados têm uma lógica implacável: não basta entregar bons resultados no presente. O que move o preço de uma ação é a confiança no futuro. Nos últimos meses, vimos exemplos emblemáticos de como a inteligência artificial (IA) vem reconfigurando essa equação e de que forma empresas, mesmo sólidas, podem perder bilhões em valor de mercado diante de um lançamento de IA, seja próprio, seja da concorrência.
O caso mais recente é o da Monday.com. A empresa reportou um crescimento de 27% na receita do segundo trimestre de 2025, superou previsões de lucro e manteve margens sólidas. Ainda assim, suas ações despencaram quase 30%. O motivo? O guidance para o trimestre seguinte foi lido como conservador e, mais grave, ficou claro que mudanças nos resultados de busca do Google com IA estavam corroendo parte do funil de aquisição de clientes da companhia. Em outras palavras, não importava o presente: os investidores estavam preocupados com a capacidade de sustentar o crescimento em um cenário em que algoritmos de terceiros podem redefinir as regras do jogo.
Essa dinâmica não é isolada. Desde o lançamento do ChatGPT, várias empresas viram suas histórias de crescimento ameaçadas. O caso mais emblemático foi o da Chegg, plataforma de apoio a estudantes, que em maio de 2023 admitiu publicamente a perda de novos assinantes devido à popularidade da ferramenta. A reação do mercado foi imediata: as ações da empresa caíram pela metade em um único dia. O impacto se estendeu a outros players do setor — como Pearson, Duolingo e Udemy — que registraram fortes quedas mesmo sem terem reportado efeitos diretos. A simples percepção de vulnerabilidade foi suficiente para que investidores reavaliassem suas expectativas.
O que esses episódios evidenciam é que a IA já não impacta apenas processos internos ou produtos: ela está no centro da precificação de mercado. Um deslize em uma demonstração pública, como ocorreu com o Google Bard, pode eliminar US$ 100 bilhões em valor em poucas horas. A ascensão de um concorrente mais barato e eficiente – caso do DeepSeek frente à Nvidia – pode derrubar centenas de bilhões em um único pregão. E, em muitos casos, basta a percepção de que um negócio pode ser facilmente substituído por uma ferramenta gratuita de IA para colocar em xeque modelos inteiros.
Há, no entanto, empresas que perceberam com antecedência essa nova lógica disruptiva e decidiram agir rápido para não serem surpreendidas. É o caso da McKinsey & Company, que já implantou 12 mil agentes de IA internos para substituir boa parte das tarefas rotineiras até então realizadas por consultores juniores, como análise de dados, produção de relatórios ou construção de apresentações. Com isso, equipes que antes contavam com 14 colaboradores passaram a operar com apenas 2 ou 3 pessoas apoiadas por IA. A medida já levou à redução de cerca de 5 mil cargos, mas compensou com ganhos expressivos de eficiência e agora responde por aproximadamente 40% da receita da empresa.
Basta a percepção de que um negócio pode ser facilmente substituído por uma ferramenta gratuita de IA para colocar em xeque modelos inteiros
Essa volatilidade escancara um dilema para líderes empresariais. De um lado, a urgência em adotar IA para não parecer ultrapassado. De outro, o risco de que qualquer passo em falso, seja uma previsão cautelosa, seja uma dependência excessiva de canais de aquisição, se torne combustível para uma queda abrupta no valor da companhia. Em tempos de inteligência artificial, a fronteira entre oportunidade e ameaça é mais tênue do que nunca.
Minha leitura é que não estamos apenas diante de um hype. O que o mercado está nos dizendo é que resiliência estratégica agora exige três camadas:
O caso Monday.com e o colapso da Chegg são apenas sinais de alerta de um movimento mais amplo. A mensagem que o mercado manda é clara: em um mundo moldado pela inteligência artificial, não basta entregar resultados. É preciso provar que eles podem ser sustentáveis diante da próxima disrupção.
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