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O design dinâmico de trabalho ajuda a calibrar processos, criando uma sintonia fina entre equipes. O segredo está em uma máxima simples e ao mesmo tempo complexa: torne visível aquilo que é invisível
N.E. Um sistema que permite que todos vejam quando e como o trabalho está fluindo (especialmente o trabalho do conhecimento complexo) evita que o fato de não enxergar os problemas prejudique o andamento, limitando a proliferação de gambiarras que podem causar uma paralisia organizacional. Neste artigo, adaptado de seu livro There’s Got to Be a Better Way, Nelson P. Repenning e Donald C. Kieffer explicam como as visualizações do processo de trabalho podem revelar de que forma as atividades individuais afetam umas às outras e trazer os problemas à tona mais cedo.
Há cada vez mais investimentos em iniciativas digitais, automação e ferramentas de IA, mas, ainda assim, muitos gestores lutam contra uma realidade diária: suas organizações continuam lentas e propensas a erros. Dessa forma, líderes de equipe e funcionários se frustram com falhas que poderiam ser evitadas, dificuldades para melhorar a execução e impasses sem fim.
Reverter esse cenário requer entendimento e reconfiguração. Por isso, três décadas de colaboração em pesquisa organizacional nos levaram a uma abordagem que chamamos de design dinâmico do trabalho.
São quatro princípios simples: estruturar o trabalho para detectar problemas, usar uma abordagem científica para resolução, conectar funcionários e gestores da linha de frente e regular o fluxo dentro do sistema.
Esses princípios, que expandimos em nosso novo livro, There’s Got to Be a Better Way (“Tem que haver um jeito melhor”, inédito no Brasil), costumam ser fáceis de ser visualizados em trabalhos que se desenvolvem de uma maneira mais física que mental, como em uma linha de montagem:
Mas o que fazemos quando não conseguimos ver tão nitidamente que algo deu errado? Descobrimos a resposta em um guardanapo de um bar de hotel em Nagoya, Japão.
Estávamos jantando com três veteranos da Toyota. Ao longo da refeição, nós os questionamos, na esperança de adivinhar segredos do sucesso da montadora, em especial a adaptação de seu famoso sistema de produção para contextos de trabalho diferentes do chão de fábrica.
Durante a conversa, um deles rabiscou dois caracteres japoneses em um guardanapo. Ele disse que poderiam ser traduzidos como “olhos andando por aí”. Depois, ao lado deles, escreveu: “torne visível o invisível”.
Seria difícil chegar a uma denominação mais expressiva para o quinto e último princípio em nosso modelo: visualize o trabalho. Desenvolver uma representação visual do trabalho intelectual invisível permite que todos tenham uma visão comum dele, para que possam ver o que está funcionando e o que não está.
O grande desafio das empresas é coordenar e usar a experiência de seus membros para trazer à tona e resolver as inevitáveis incompatibilidades entre os planos e a realidade. Isto é, quando o fluxo fica escondido, os problemas também ficam ocultos, envenenando a organização.
Um sistema de visualização permite que os líderes e suas equipes, talvez pela primeira vez em suas carreiras, administrem efetivamente seu conjunto de atividades, todas afetando umas às outras, como um sistema coerente, em vez de apenas uma coleção de funções individuais observadas durante as avaliações de desempenho. Como resultado, quando esse sistema está em vigor, os problemas, sejam eles pequenos defeitos ou ameaças estratégicas, aparecem mais cedo, facilitando sua resolução.
As pessoas gastam seu tempo e energia de maneira muito mais eficaz quando podem ver o que fazer a seguir. Por isso, é muito melhor do que se basear em um relatório entregue dias depois.
Para muitos tipos de trabalho, a gestão visual é a “interface gráfica do usuário” para o sistema operacional de design de trabalho dinâmico, permitindo que você leve as ideias muito além do mundo das coisas físicas. Quando as pessoas fazem a transição para a administração visual, os ganhos costumam ser grandes e a mudança, transformadora.
Don entrou na Harley-Davidson como engenheiro de manufatura, quando ele foi convidado para substituir um supervisor de produção. No cargo, experimentou em primeira mão os custos do trabalho invisível. Atualmente, como um dos supervisores de produção, Don aprendeu o jogo: varra quaisquer problemas potenciais para debaixo do tapete e não revele aos seus superiores.
A configuração da fábrica da Harley faz com que a linha de montagem consuma peças mais rapidamente que os departamentos de produção as fabricam. Assim, enquanto a montagem funciona em dois turnos, as áreas de produção trabalham em um terceiro turno para montar um estoque de peças durante a noite, garantindo que a linha de montagem funcione em dois turnos completos no dia seguinte.
Além disso, o terceiro turno é uma oportunidade para se recuperar de quaisquer problemas que pudessem ter surgido durante o dia. Teoricamente, cada área tinha capacidade suficiente para alimentar a linha. Na prática, porém, quase todos os dias, pelo menos uma dessas áreas tinha um problema grave o suficiente para que a linha de montagem parasse antes do fim do segundo turno.
Os supervisores apresentavam diariamente o status de suas áreas em uma reunião. Eles compartilhavam o tamanho do estoque que haviam construído e sua capacidade antecipada de alimentar a linha durante os dois turnos do dia.
Essa reunião seria o momento ideal para expor possíveis problemas e pedir ajuda. No entanto, Don aprendeu que havia poucos benefícios em compartilhar um problema que poderia atravancar a linha. Os relatórios soavam como “o cronograma está apertado, mas vai dar”.
Relatar um problema levava a perguntas. A atenção redobrada da liderança sênior da fábrica muitas vezes tornava mais difícil recuperar o atraso no terceiro turno. Era melhor deixar os chefes irem embora pensando que estava tudo bem para que todos pudessem trabalhar em paz.
Diariamente, os supervisores escondiam problemas de sua área. Contanto que não fossem eles que ficassem sem peças primeiro, interrompendo a linha de produção, poderiam seguir sem ter que se preocupar com a atenção extra dos superiores. Os problemas só se revelavam quando tinham crescido o suficiente para parar as máquinas.
No apoio à engenharia, uma parada de linha mobilizava todos, roubando tempo de outros projetos de longo prazo. A pressão de cumprir o cronograma esticou todos os departamentos ao máximo e, com a crescente demanda do mercado, criou um ciclo vicioso.
A pressão para cumprir o cronograma crescia, com esforços cada vez maiores para colocar o último motor na linha. Só que os problemas cresciam ainda mais rapidamente.
Quando Don virou gerente da fábrica, sua equipe mudou a forma de se armazenar os bancos de peças. Para que todos pudessem ver o que acontecia, eles foram movidos para o corredor principal, onde cada carrinho tinha uma “vaga de estacionamento” específica.
Uma caminhada nesse corredor mostrava como cada área estava performando. As vagas deixavam claro quantas peças acabadas deveriam estar disponíveis hora a hora para cada departamento.
Em vez de depender de um único relatório do supervisor na reunião da manhã, o desempenho de uma área de produção em relação à programação diária era visível para todos. Os supervisores não se prendiam à programação diária (ajudando a criar o esconde-esconde) e eram avaliados pela sua capacidade de cumprir a programação.
A fábrica ganhou tempo para lidar com os problemas, pois eles apareciam antes, sem virar uma enorme dor de cabeça. A linha de montagem passou a funcionar melhor, o novo design mudou a cultura.
Com a diminuição progressiva do número de paradas na linha de produção, os gestores podiam se dedicar a outros problemas. Quando resolvidos, a fábrica teve mais ganhos.
A gestão visual pode melhorar a execução de qualquer tipo de trabalho, pois torna visível o que de outra forma seria invisível. Cada sistema tende a evoluir com o tempo, à medida que o trabalho muda e a compreensão da equipe sobre ele se aprofunda. Eles têm quatro elementos:
O trabalho de Mark Schwiebert mostra o sistema de gestão visual em ação. Quando o conhecemos, ele era responsável pela cadeia de fornecimento da BP na América do Norte. Seu time, que monitorava vários bilhões de dólares em gastos anuais com 5 mil fornecedores, havia recebido uma meta ambiciosa para reduzir o custo dos bens e serviços que a BP comprava a cada ano. Essas economias viriam principalmente da renegociação de uma parte dos mais de 1,5 mil contratos renovados ao ano.
Porém, foi difícil, no início, para Mark avaliar se os membros de sua equipe estavam usando seu tempo e energia de maneira eficaz. Nem todo contrato era um bom candidato à renegociação e alguns só precisavam ser renovados.
No sistema que Mark herdou, cada especialista em compras escolheu os contratos que achava que tinham o melhor potencial de redução de custos e, como os supervisores da Harley, só revelava os problemas que achavam que poderiam causar uma grande dor de cabeça.
Eles apresentavam o status de cada renegociação ou renovação nas reuniões mensais. Mas a economia anual nunca ficava clara até que o resultado final fosse publicado, no fim do ano.
As coisas funcionaram assim por bastante tempo. Por isso, era quase impossível Mark dar ao seu chefe atualizações confiáveis.
Oscilações bruscas ao longo do ano nas economias estimadas geravam turbulências enormes e descontrolavam o processo orçamentário da divisão. Como todos estavam trabalhando em direção a uma meta anual, grandes economias geralmente apareciam apenas no fim do ano, graças à corrida maluca para assinar contratos antes que o ano fiscal acabasse.
Mark precisava de um método mais estruturado e previsível. Então, implementou um novo design. Uma reunião inicial com toda a equipe se concentrou em identificar os contratos que ofereciam maior potencial de economia. Esses contratos foram então divididos entre a equipe.
Cada especialista em compras acompanhou seu portfólio de esforços de renegociação em seu próprio quadro de gerenciamento visual. Cada renegociação ficava em um post-it, e os especialistas as rastreavam à medida que avançavam pelos estágios do processo. Assim, as situações que tinham risco de não atingir as metas de redução ficavam claras.
No grupo administrador da cadeia de fornecimento da BP na América do Norte, cartazes e post-its tornaram visível o trabalho de renegociação de contratos para que os problemas pudessem ser identificados e resolvidos rapidamente.

Quando chegava a hora da reunião semanal ou mensal, cada pessoa apenas pegava seu quadro e o apresentava. Agora, o status das negociações, as economias projetadas e os contratos problemáticos eram visíveis para todo mundo. As novas reuniões, mais curtas, produtivas e orientadas por dados, ajudaram a equipe a identificar problemas antecipadamente e a reunir os recursos certos para resolvê-los.
As colunas do quadro representavam cada etapa de uma renegociação, enquanto as linhas dividiam o trabalho em níveis de complexidade. Alguns eram diretos e se moviam mais rapidamente, outros eram complexos e exigiam mais reflexão.
Cada post-it representava uma renegociação diferente em andamento e seu status (no caminho certo, atrasado, em risco). A forma de “funil” do conselho capturou a ideia de que alguns projetos não eram tão promissores quanto se pensava inicialmente. A transparência resultante ajudou a encaminhar os problemas que surgiam para toda a equipe, para que pudessem ser resolvidos rapidamente.
Escolher quando iniciar as negociações e quantas cada especialista assumiria por vez foram decisões importantes. Seguindo o conceito de regulação do fluxo, eles não queriam iniciar uma negociação que se estendesse desnecessariamente, porque já havia muitas em andamento.
Os post-its na coluna “contrato executado” definiam a prioridade e mostravam as negociações seguintes a serem iniciadas. Assim, todos viam quando era hora de abrir outra negociação ou quando estavam muito ocupados. A equipe começou a produzir resultados regulares e previsíveis a cada trimestre, em vez de uma enorme e imprevisível explosão de economias no fim do ano.
Esses cartazes simples dão vida aos quatro primeiros princípios do design dinâmico de trabalho. Eliminar planilhas, e-mails e listas de tarefas permite que todos participem da escolha do conjunto certo de negociações para atingir as metas da equipe.
Para Mark, uma reunião semanal de uma hora o manteve conectado ao trabalho e às pessoas que o faziam, eliminando dezenas de e-mails e conversas no corredor. Destacar contratos que não estavam progredindo significava que esses problemas poderiam ser encaminhados para a reunião semanal da equipe, em que o grupo poderia usar sua experiência e habilidades de resolução de problemas para ajudá-los a voltar aos trilhos.
A visualização do trabalho permitiu que a equipe colaborasse de jeitos novos, resultando em previsões precisas das reduções de custos trimestrais e anuais, eliminando a turbulência de final de ano no processo orçamentário. Mais importante: a equipe produziu cerca de 30% a mais de economia anual do que se pensava ser possível anteriormente (mais de US$ 1 bilhão em três anos) e com 30% menos funcionários.
A gestão visual pode ser uma ferramenta poderosa para melhorar a execução de trabalhos invisíveis. Cada sistema de gestão visual, no entanto, é diferente, e construir um requer alguma experimentação. Quatro diretrizes podem ajudá-lo a desenvolver um mais rápido e confiável.
A mágica está nas conversas, não nos post-its. Mais importante ainda, lembre-se de que o objetivo da gestão visual é alocar o tempo e a energia da liderança de maneira eficaz, promovendo conversas de alta qualidade. Simples, claro e um pouco bagunçado é muito melhor do que perfeitamente “arrumado” e desconectado do trabalho.
A sofisticação de um painel é irrelevante se não facilitar a colaboração. Em outras palavras, o melhor painel do mundo é inútil se as pessoas não se encontrarem regularmente na frente dele para testar sua compreensão e, em seguida, usá-lo para tomar decisões e resolver problemas.
Ao ensinar gestão visual, sempre recebemos perguntas sobre o uso de ferramentas digitais. Um de nossos alunos de MBA executivo disse uma vez: “Eu entendo a abordagem, mas post-its parecem tão anos 80”.
As representações digitais podem ser eficazes e oferecem várias opções que não se pode replicar com post-its e marcadores, incluindo integração com outros sistemas, backups regulares e participação remota. Mas, ao adotar plataformas eletrônicas, não deixe que os recursos disponíveis o desviem de mantê-lo simples e claro.
A digitalização dos painéis pode facilmente levá-lo a “automatizá-los”. Assim, é um pulo para passar a gastar mais tempo formatando o quadro do que tendo as conversas certas.
Mais simples geralmente é melhor. Em nossa experiência, o maior risco de mudar para representações digitais é que as pessoas pulem as reuniões e digam: “Estou ocupado e não posso comparecer à reunião, mas verificarei o quadro mais tarde”. No momento em que isso acontece, você perde a magia.
Suas primeiras tentativas de gestão visual provavelmente serão frustrantes. Quando você começar a colocá-lo na parede, provavelmente descobrirá que não entende o fluxo tão bem quanto pensava. Em nossa experiência, poucos gestores entendem todo o sistema pelo qual o trabalho é feito.
Você pode ter dificuldade para escolher a representação certa e identificar bons rótulos para as linhas e colunas. Primeiramente, tudo pode parecer um caso especial que não se encaixa perfeitamente no leiaute do quadro que escolheu. Não se preocupe, é uma parte natural do processo. Cada iteração traz novas perguntas e insights, e logo o quadro começa a refletir o trabalho como ele é.
O painel está bagunçado porque o trabalho é bagunçado. Simultaneamente, o trabalho é confuso porque tem muitos problemas. A boa notícia é que ver a bagunça ajudará você a começar a consertá-la.
Anos vivendo em uma organização caótica e sobrecarregada resultam em processos de trabalho em grande parte ad hoc e não documentados. Porém, os esforços para criar um sistema de gestão visual eficaz ajudarão a descobrir as metas, o que está em andamento, quem o está fazendo e os problemas enfrentados.
Não se intimide com a bagunça. Aprofunde-se e comece a corrigir as falhas que encontrar. Por exemplo, a criação de um quadro visual geralmente força os líderes a esclarecerem as metas que estão dando às suas equipes.
Da mesma forma, os esforços iniciais para colocar todas as atividades na parede geralmente revelam uma sobrecarga significativa e iniciam o processo de eliminação de projetos de baixo valor. À medida que cada pequena mudança melhora o sistema, o fluxo de trabalho será mais fácil de ser representado.
Seu cartaz vai evoluir. Porém, depois de fazer um sistema visual funcionar, não fique muito confortável com ele.
Em nossa experiência, bons sistemas visuais evoluem à medida que o trabalho melhora e as pessoas melhoram o uso de seus quadros para orientar a resolução de problemas e a tomada de decisões. Dessa maneira, é uma boa prática verificar a cada trimestre ou mais e perguntar: “Isso representa a maneira como nosso trabalho é feito?” Se a resposta for “não”, muitas vezes é hora de reconsiderar como fazer o quadro.
Por exemplo, de vez em quando, uma gestora com quem trabalhávamos comprava uma caixa de cerveja em uma tarde de sexta-feira e convidava sua equipe para refazer as pranchas. Com post-its e fitas adesivas, eles experimentavam novas representações. Esses são pontos de checagem importantes que permitem às pessoas se afasterem do fluxo diário de execução e revisitem o processo de como o trabalho é feito.
OS SERES HUMANOS SÃO SOLUCIONADORES NATURAIS DE PROBLEMAS. Mas uma solução individualizada geralmente mais atrapalha que ajuda no desempenho organizacional.
Tirar o trabalho invisível das sombras por meio de ferramentas simples de visualização pode abrir um universo novo de possibilidades. “Uma imagem vale mais que mil palavras” é mais do que um simples ditado. Representar visualmente um trabalho complexo transmite mais informações, de maneira mais rápida e clara, do que tentar fazê-lo verbalmente. Além disso, é um desafio para você descobrir o quão bem conhece seu próprio trabalho e como tudo se encaixa.
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