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Enquanto a inteligência artificial avança é urgente repensar o papel da narrativa, da ética e da existência humana, defendendo uma abordagem que priorize pessoas sobre plataformas
Devo iniciar com um aviso: se você está com pressa, não perca tempo com este texto.
Examinava, há alguns dias, um artigo recente do Prof. Dr. Ezra Lockhart publicado na revista Humans (Transhumanism as Capitalist Continuity: Branded Bodies in the Age of Platform Sovereignty, agosto de 20250). A leitura motivou um rascunho de reflexão: no futuro, o que significará ser humano à luz das possibilidades tecnológicas que se avizinham, especialmente no que diz respeito à inteligência artificial (AI)?
Não me parece tão simples considerar esta questão e seus desdobramentos hipotéticos. Primeiramente, em razão de que há muitas teorias em aberto acerca do que nos define como humanos. Também em função de que a expressão “inteligência artificial” veste uma ambição particular da indústria de software – o capital contínuo.
O tecido puído da indústria, enfeitado com bordões multifacetados, recobre a questão com um aspecto que não raro passa despercebido: como é possível pensar o ser humano como um objeto do mundo, ignorando que o próprio pensamento que o analisa habita o objeto? Imaginar que podemos analisar o sujeito como se ele fosse um objeto apartado, usando os próprios recursos que esse objeto dispõe, é inútil; usando tal método, estamos incontornavelmente sempre comprometidos.
Todo o pensamento ocidental, desde os pré-socráticos, sempre flertou com fundamentos para os seus sistemas filosóficos, Tais fundamentos hesitavam entre os entes (o mundo material, os objetos do mundo) e o ser (que podia ser visto como acontecimento ou forma do pensamento humano). De um lado, pensadores como Tales de Mileto, Anaxímenes e Empédocles; do outro, Heráclito e Parmênides.
Levamos mais de 2 séculos para encontrar, em Husserl, uma nova abordagem – a fenomenologia. Esta corrente defende uma unidade de sentido que se dá pelo caráter indissociável do ser-no-mundo. Ou seja, a condição de possibilidade para que o ser aconteça é o mundo, enquanto a condição de possibilidade para que o mundo aconteça enquanto mundo é o ser. Portanto, uma unidade fenomenológica, que não pode ser pensada individualmente.
Não há nada sequer semelhante na IA da qual dispomos hoje. Todo o esforço da comunidade tecnológica para alcançar uma AGI, por exemplo, parte do pressuposto que o mundo é antes do ser ou que o ser é antes do mundo. As palavras são vistas como objetos passíveis de serem combinados para resultar em sentidos comuns. Sentidos incomuns, de outra sorte, exigem palavras que faltam à IA. Mas a IA não sente. Ela nem sente o que é o sentido de sentir. Logo, não há possibilidade de uma unidade fenomenológica do tipo “máquina-no-mundo”.
Todo e qualquer entusiasta de IA que advoga o evento de uma AGI, no paradigma de máquinas conscientes, está alucinando. O máximo que poderemos alcançar é certa mímica de consciência. Nada além disso, com essas entidades que não sentem, entidades que não estão comprometidas ontologicamente (i.e., comprometidas com certo modo de ser no mundo).
Mas o que podemos dizer do humano, afinal? Bem, é notório que, diferente de outras espécies, somos capazes de expressar o que pensamos em forma de narrativa, apoiados evidentemente em recursos lógicos. Somos, como expressou Nancy Houston, a espécie fabuladora.
Isso é tão decididamente humano que, mesmo ao explicarmos o que pensamos para nós mesmos, compomos narrativas que nos convencem. Como defendeu Nietzche, nós não simplesmente descobrimos a verdade; nós a criamos de acordo com o que nos serve, o que nos fortalece ou o que nos ajuda a sobreviver. A narrativa é, então, o que Heidegger explicaria como articulação da existência, é como construímos, sempre e toda a vez, o sentido para nossa existência.
Há que se reparar, contudo, que as narrativas seriam estéreis se não houvesse o outro. Seria como falar ao vento. É nesse outro que testemunhamos acolhimento ou refração de nossas fábulas. Assim ajustamos o nosso caráter de ser-do-mundo, esse acontecimento da existência. Não há nada sequer semelhante na IA, apenas uma pantomima bem ensaiada (treinamento de modelos).
É preciso compreender a força do caráter recursivo das narrativas pelas vias da anuência ou objeção do outro. Se o segundo pensasse como aquele que fabula, a narrativa seria apenas reverbério. O que efetivamente encorpa a narrativa são os contrapontos que impõem refinamentos contínuos. É por tais vias que esta espécie fabuladora faz ciência – o que etimologicamente significa conhecimento.
O efeito é interessante: oferecemos o que pensamos ao conhecimento do outro e ele nos devolve contrapontos para o nosso conhecimento. É um trade-off cognitivo que dá polimento à existência e a legitima como abertura para encontrar os consensos que permitem pactuar o que Rousseau denominava Contrato Social – ou seja, o bem comum.
As possibilidades da IA – mesmo as fantasiosas –, em larga medida, são vistas pela comunidade tecnológica, como a condição de possibilidade do advento do transumano: um agente aprimorado e autônomo, nutrido por ideais neoliberais e iluministas. Como explica o Dr. Ezra Lockhart no seu artigo, o transumanismo prevê o ser humano como um agente tecnologicamente aprimorado. O ideal transhumanista não desmantela o sujeito humanista racional e autônomo, mas defende que o reforça, equipando-o com implantes neurais e biossensores.
Entre as mais radicais possibilidades, imagina-se o transplante da mente humana para um corpo sintético. Um aperfeiçoamento para o caráter mortal de nosso corpo orgânico.
O ponto central é que isso tudo teria um preço certamente não acessível para um contingente expressivo da população mundial. O ideal transhumanista orienta-se para a formação de uma elite que interromperá fatalmente qualquer possibilidade de um trade-off cognitivo por meio da interrelação de narrativas diversas. A escuta do outro, nesse contexto, desaparece, e as convicções conquistadas pelo poder desse simbiótico humano-máquina, sinteticamente aprimorado, habitariam a esfera instransponível de sua suposta onisciência.
Há que se pensar o que restaria para os demais partícipes da sociedade, senão a existência submetida a uma nova Idade das Trevas, dominados por uma elite sintética como centro de tudo, trabalhando para doutriná-los e controlá-los. Mas isso tudo me parece exagerado.
A questão é mais simples. A nossa necessidade de aperfeiçoar nossas narrativas e de nos apossarmos de talentos que nos faltam faz com que nos afeiçoemos pela IA. O resultado é que nos tornamos dependentes de suas capacidades e aceitamos pagar por isso. Nas palavras de Lockhart: “O ser humano, dentro desse quadro, é incubado e intubado por pais corporativos – (…) como Apple, Meta, Google, OpenAI”. Ao invés de nos perguntarmos que tipo de humano nos tornaremos, passaríamos a perguntar de quem vale a pena ser humano – um humano do Google, da OpenAI ou de outro provedor do serviço?
Como bem explica Lockhart, já é notório o esforço dos gigantes da tecnologia para aprimorar novas formas de governança, controlando infraestruturas digitais e fluxos de dados. O corpo se torna um “eu quantificado”, continuamente monitorado e alimentado em fluxos de dados corporativos. A biossubjetividade é mercantilizada através de ecossistemas de saúde baseados em assinatura, onde o acesso a serviços críticos pode depender do pagamento e da conformidade com os acordos definidos.
Nesse quadro, a vida se torna uma mercadoria de assinatura, e a existência, um nível de serviço. Dados biométricos e interações sociais são capturados e mercantilizados por plataformas, transformando a vida humana em um produto de extração econômica. A autonomia é restringida por acordos de licença de usuário final, que entende como normalidade a coleta de dados e a regulação do comportamento.
Como isso flerta com a ideia de bem comum, afinal? Em que medida o transhumanismo poderia contribuir para uma sociedade mais civilizada?
A alternativa a esse modelo transhumanista viceja no canteiro dos ideais pós-humanistas. O pós-humanismo quer buscar formas de subjetividade que escapam ao controle e à mercantilização. No entanto, ele rejeita a perspectiva de um ser humano estável e delimitado pela sua condição natural. É um movimento que questiona os limites fixos do humano, enfatizando a relacionalidade, a hibridez e o descentramento do sujeito humano dentro de uma rede de agentes não humanos, sejam máquinas, animais ou sistemas ecológicos.
Mas o pós-humanismo também não escapa das estruturas de governança do design tecnológico possibilitado pela IA, design que, sobretudo, recorrem às estruturas de controle que moldam e restringem os usuários (humanos) sob o disfarce da escolha. Do mesmo modo que o transhumanismo, o pensamento pós-humanista reproduz os ideais da “cultura do fazer”, expresso como inovação. Como bem lembra Lockhart, são escolas de pensamento que “reproduzem os ideais neoliberais por meio de modelos tecno-empreendedores de identidade e trabalho”.
Voltemos à questão: o que significará ser humano no horizonte da evolução tecnológica?
Na minha opinião, a pergunta está comprometida por princípio. Ela assume que há um caráter inevitável de migração do humano para outra situação, ignorando que a condição humana é um fenômeno incorruptível – esta unidade fenomenológica que se dá como ser-no-mundo.
O acontecimento do “novo humano” é uma falácia. A invenção da roda não criou um novo humano, a revolução agrícola e a industrial também não. Todas as tecnologias que criamos não nos transformaram em um novo humano. Porque ser humano é ser, sobretudo, tecnológico.
A tecnologia advém de nossa capacidade narrativa, do escambo cognitivo que se torna possível a partir desta capacidade. A existência se dá no modo de um particípio-presente – se dá como expressão de continuidade que, embora o verbo ser, no português, não encontra uma palavra capaz de expressar o seu sentido, poderíamos referir como se-nte (o hífen é proposital). O se-nte faz ser-no-mundo sempre e toda a vez que se dá o acontecimento da existência. E isso é o que nos define como seres humanos, não importando o cenário tecnológico onde estamos inevitavelmente acomodados.
O transhumanismo e o pós-humanismo querem expressar uma transmigração da essência humana, mas não cabem no se-nte. Ambas as escolas querem deslocar o ser humano para a periferia, demarcando um tecnocentrismo descabido.
Por essas e por outras diversas razões, advogo em favor do ergo-humanismo. Refiro assim, uma filosofia ou abordagem que coloca o ser humano no centro do design de toda e qualquer tecnologia. No centro da “cultura do fazer”. Não fazer com a tecnologia, para parecer inovador, mas antes fazer com o pensamento que supera a si mesmo. O objetivo principal de uma filosofia ergo-humanista é criar ambientes, ferramentas e processos que se adaptem às necessidades, capacidades e limitações das pessoas, promovendo não apenas a eficiência e a produtividade, mas também o bem-estar, a saúde e a dignidade humana.
Minha recomendação é que não percamos tempo com a IA em quatro sentidos.
Não perca tempo com a IA, porque ela é inevitável. E não nos deixemos atrair por ideais transhumanistas ou pós-humanista que criariam elites tecnocêntricas. Perca tempo com o humano. Recoloque o humano no centro da equação. A tecnologia é produto do humano; de outra sorte, o pensamento não é um produto – é a própria expressão da existência que sabe que existe e expressa que existe.
Não perca tempo com a IA. Perca tempo em compreender o próprio processo de pensar. Perca tempo interpretando o que você escuta e lê. Perca tempo para recusar o que é ilegítimo e aquilo que não fala de maneira antropocêntrica.
Não perca tempo com a IA. Use-a para economizar tempo na construção básica de recursos interpretativos. Para intervir no curso da deterioração da ética, da civilidade e do bom senso, sempre descomprometido com ela, mas tirando proveito de sua capacidade, numa expressão autêntica da tua existência.
Não perca tempo com a IA, porque o caminho aberto à nossa frente é desafiador. Precisamos nutrir a civilidade necessária para que as nossas narrativas bem-intencionadas possam ser colocadas para a avaliação bem-intencionada dos outros, dando assim o contorno de uma síntese que amparará novas narrativas. Em essência, isso é ciência, arte e pensamento. Ou seja, humano sempre humano.
Afinal, lembre-se: não interessa a situação futura da tecnologia, o humano sempre prevalece.
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