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Tecnologia e poder

O custo invisível dos data centers para o Brasil

Os impactos sociais e éticos das tecnologias emergentes mostram que nem tudo o que brilha é, necessariamente, progresso

Tatiana Pilnik
13 de outubro de 2025
7 min de leitura
O custo invisível dos data centers para o Brasil

Em grandes conferências de inovação ao redor do mundo, tenho observado um mesmo padrão. Ao lado de um line-up que valoriza estrelas do pensamento internacional, ganham os palcos também narrativas que parecem recomendações estratégicas para o desenvolvimento da economia, mas que reproduzem uma lógica de extração de valor e dependência tecnológica.

Foi exatamente o que se viu na última edição da Rio Innovation Week em relação à economia nacional. E não me refiro a apenas aos comentários de Amy Webb que viralizaram. Um exemplo emblemático foi a fala de Peter Diamandis, uma das maiores referências globais em inovação, cofundador da Singularity University (EUA), autor de best-seller, investidor e CEO da Zero Gravity Corporation (EUA).

Seu discurso foi permeado por uma previsão de futuro em que longevidade é mercadoria, expertise é commodity e automação é liberdade. Diamandis transportou a audiência para um futuro em que uma população decrescente é substituída por uma força de trabalho de robôs humanóides, não só na indústria mas dentro de casa.

Os humanóides apresentador por Peter são uma fusão da doce babá de metal Rose, dos Jetsons de Hanna-Barbera, com uma estética mais Eu Robô. Enquanto a gente torce para que as atividades e intenções dos autômatos permaneçam no escopo da primeira, é difícil não pensar se confiamos nas barreiras sistêmicas que controlam seus limites.

Para além da polêmica dos riscos de ter robôs dentro de casa, me pergunto se essa também não é uma cortina de fumaça que tira também o foco da discussão real de trabalho e autonomia. Quais serviços serão executados? Quais decisões se tornarão invisíveis para a gente?

Se hoje debatemos a automação do trabalho, a busca pela máxima eficiência com a IA e o quanto já não controlamos as microdecisões que antes faziam parte de cada processo de criação e entrega, surge a pergunta: e dentro de casa, como seria?

Me pego questionando o novo cheiro das minhas roupas de cama, ou até a textura do lençol. Quando a minha Rose decide trocar o amaciante sem que eu perceba – sob o argumento de que “agora não preciso mais me preocupar com isso, então posso usar esse tempo para outra coisa” -, algo aparentemente pequeno e que revela uma mudança profunda.

Assombração ou deslumbramento

Essa reflexão, à primeira vista banal, transforma a maneira como consumimos e como nos relacionamos com o nosso próprio espaço. Afinal, quem garante que a minha robô não está usando mais produto do que o necessário apenas para estimular o meu consumo? E quando chega a hora de reabastecer a despensa, o que impede que ela priorize marcas patrocinadoras do seu fabricante?

A promessa de delegar as pequenas tarefas que nos consomem o tempo é cativante. Mas como diz Ruha Benjamin, professora da Universidade de Princeton (EUA) e uma das vozes mais influentes quando o assunto é tecnologia e justiça social, “a utopia de uns é a distopia de outros”.

Por que é tão mais fácil a gente imaginar um futuro com robôs que substituem trabalhadores, do que um futuro em que todos tenham tempo para compartilhar o trabalho doméstico? É mais fácil imaginar um futuro com carros voadores do que um em que todos tenham acesso ao transporte público eficiente e gratuito?

Esse futuro automatizado, imaginado e desejado pelos magnatas da tecnologia, depende de imaginação, de pesquisa e desenvolvimento e de grandes empresas fazendo o progresso acontecer. Mas também depende de infraestrutura. E muita infraestrutura.

Infraestrutura digital

Assim como carros precisam de ruas, robôs e IAs precisam de nuvem e energia. E já não há nada mais tangível do que nuvem, nem tecnologia com mais sede do que a IA. Portanto, não é surpresa para ninguém que o mundo terá de produzir muito mais energia.

Em sua palestra, Diamandis apresenta o Brasil entre os quatro maiores produtores de energia elétrica do mundo. A realidade, no entanto, é mais complexa: o que realmente nos diferencia não é o volume absoluto, e sim a matriz. Mais de 80% da eletricidade brasileira vêm de fontes renováveis, sobretudo, hidrelétrica – algo raro entre grandes economias. E é justamente essa energia relativamente abundante e limpa que passa a ser tratada como o novo “ouro”.

Para o CEO da Zero Gravity Corporation, o país deveria aproveitar essa vantagem estratégica para atrair investimentos internacionais, especialmente na construção de data centers em território nacional. Ele também sugere que o Brasil dispute projetos desse tipo com outras nações, como a Finlândia.

(Slide da apresentação de Peter Diamandis na Rio Innovation Week)

A construção de data centers vêm gerando polêmicas e discussões em todos o mundo por conta do consumo de recursos naturais que exige, do espaço que ocupa e do impacto para a população local. E, nesse sentido, sim, temos o “ouro” nas nossas terras outra vez.

Temos um recurso nacional desejado por grandes potências que, ao meu ver, criam estratégias geopolíticas comerciais que nos induzem a acreditar que temos mais a ganhar vendendo para eles o que está nas nossas terras. E é aí que se esconde o risco de que a promessa de ter data centers no Brasil ofusque a crítica realidade de uma prática que, ao meu ver, é exploratória – para não dizer, extrativista. Estaríamos vendendo nossas terras, água e energia, e ainda assim pagando US$ 20 dólares (R$ 120) por uma assinatura do ChatGPT.

Investir em data centers só traz retorno real para as BigTechs, não para o país que cede suas terras. Para este, não há geração de emprego nem incentivo real para desenvolvimento tecnológico que cheguem aos pé do montante investido na infraestrutura em si. Precisamos que o mesmo tanto de empolgação que foram investidos na Rio Innovation Week retroalimentem discussões que, de fato, tenham impacto direto na nossa soberania nacional.

O Projeto de Lei 2338/2020, mais conhecido PL da Inteligência Artificial – visa criar um marco regulatório para o uso ético e responsável da tecnologia – , o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e outros documentos estão sendo redigidos agora. E são eles que vão ditar como vamos olhar para o território, o desenvolvimento, a educação e a tecnologia no país. E aqui deixo a pergunta: será que as mesmas pessoas que estavam nas palestras a que assisti recentemente estão também engajadas em legislar?

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Tatiana Pilnik
Tatiana Pilnik
Sociotecnóloga e mestre em design para IA responsável, Tatiana Pilnik investiga os impactos sociais e éticos das tecnologias emergentes. É fundadora do critical-lab Lighthouse In Site e head de design na startup de cybersegurança Silverguard.

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