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Se inovação e tecnologia estão entre as principais prioridades dos Conselhos de Administração, por que os resultados continuam aquém das expectativas?
Se inovação e tecnologia estão entre as principais prioridades dos Conselhos de Administração, por que os resultados continuam aquém das expectativas?
Essa é uma pergunta que aparece com frequência em programas de formação de conselheiros, em reuniões estratégicas e nas conversas com executivos responsáveis pela agenda de inovação.
Nos últimos anos, empresas lançaram iniciativas, aprovaram orçamentos e criaram estruturas dedicadas. Muitas dessas iniciativas foram inspiradas em casos de sucesso externos, replicando modelos que ganharam visibilidade no mercado.
Ainda assim, os resultados não acompanham o nível de investimento.
O problema não está na falta de esforço. Está na falta de coerência. Empresas investem em inovação sem alinhar três elementos fundamentais: o papel estratégico da inovação, a estrutura organizacional que a viabiliza e o perfil das pessoas responsáveis por executá-la.
Investimento em inovação demanda consistência. Tratá-la como um movimento oportunista — investir quando o mercado vai bem e recuar quando o cenário piora — reduz drasticamente a chance de capturar valor em iniciativas naturalmente incertas.
Inovar é fazer diferente dos outros mas, contraditoriamente, o gatilho do investimento em inovação é, via de regra, uma espécie de inveja competitiva. Olha-se para o concorrente que criou um fundo de CVC (corporate venture capital), para a empresa americana que lançou um programa de inovação aberta ou o case que circulou no LinkedIn e busca-se replicar o modelo.
Essa lógica falha em dois pontos.
Primeiro, a construção de novas capacidades em organizações estabelecidas é um processo de acumulação de conhecimento e integração em rotinas operacionais. É como aprender um novo esporte radical aos 50 anos de idade. A pior coisa que você pode fazer é começar e parar. Começar e parar novamente. O domínio de algo novo e incerto requer frequencia e intenção.
Segundo, porque o benchmark captura a estrutura visível de uma iniciativa, não as condições organizacionais que a tornaram pertinentes naquele contexto específico. Ignora a pergunta que precede qualquer benchmark: qual é o papel que a inovação precisa cumprir nesta empresa, nesta estratégia, neste momento? Sem essa resposta, a cópia de modelos produz, na melhor das hipóteses, movimento sem direção. Na pior, gera estruturas subdimensionadas, times desalinhados e resultados que ninguém sabe como medir porque nunca ficou claro qual era a ambição.
Há uma dimensão que torna o desafio ainda mais complexo. No ambiente competitivo atual, a mudança é menos exceção do que regra. O mercado muda. Os projetos evoluem de fase. A empresa pode ter feito escolhas absolutamente corretas num determinado momento. Por exemplo, uma empresa que assessorei estruturou uma área dedicada à exploração de novas oportunidades, contratou profissionais de tendências, design e experimentação, criou o ambiente propício para incubar novos negócios.
Tudo fazia sentido até o momento em que essas oportunidades precisavam deixar de ser experimentos e se tornar negócios reais, com receita, operação e escala.
Nesse ponto, a pergunta que raramente é feita com a devida seriedade é: o mesmo time que foi construído para explorar tem as competências para escalar? Na maioria dos casos, não tem pois foi desenhado para outro contexto. O erro não está em ter montado aquele time. Está em não reconhecer, no momento certo, que a estratégia mudou de fase e que a estrutura e as pessoas precisam mudar junto.
Noutro caso que vivenciei a empresa definiu uma estratégia de inovação alinhada com a estratégia de negócios. Para cumprir o objetivo de diversificação de portfólio estruturou um conjunto de veículos de inovação para criar e investir em novos negócios. No terceiro ano desse direcionamento eventos geopolíticos globais mudaram completamente o ciclo da indústria em questão. A empresa precisou atualizar sua estratégia de negócios e, por consequencia, o papel que a inovação deveria cumprir e a estrutura e time necessários para tanto.
O que compromete a performance da inovação não é a falta de esforço. É o desalinhamento. A incoerência estratégica que corrói os resultados da inovação corporativa se manifesta de forma silenciosa na incoerência das escolhas estratégicas e organizacionais. Ele aparece em casos comuns:
Em todos esses casos o esforço existe, às vezes, até de forma intensa. O que falta é coerência entre estratégia, estrutura e pessoas.
Décadas de pesquisa em desenho organizacional, desde os trabalhos de Lawrence e Lorsch e a teoria contingencial, mostram que desempenho não é função apenas de estratégia ou talento isoladamente, mas do alinhamento entre ambos.
Estruturas inadequadas geram fricção, independentemente da qualidade dos profissionais. E essa fricção se intensifica justamente em ambientes dinâmicos e incertos, como aqueles onde a inovação acontece.
Há um caminho para construção de resultados a partir da inovação. O Conselho de Administração tem um papel estratégico nessa discussão. Antes de discutir ferramentas, programas ou metodologias, há três perguntas que o Conselho de Administração precisa responder com clareza estratégica sobre inovação.
Qual é o papel da inovação na minha estratégia?
Essa pergunta parece óbvia, mas raramente recebe uma resposta precisa. Inovação pode cumprir papéis muito distintos dentro de uma organização: alimentar o pipeline de novos negócios, escalar iniciativas já validadas, aumentar a eficiência no core ou reposicionar a empresa em novas arenas competitivas. O erro mais comum é tratar todos esses objetivos como equivalentes, como se o mesmo time, com o mesmo processo e a mesma lógica de governança, pudesse servir a todos eles. Não pode. Cada um desses papéis impõe uma lógica organizacional distinta, e a ausência de clareza sobre qual deles está sendo perseguido é, por si só, uma fonte significativa de ineficiência.
Que tipo de estrutura viabiliza esse papel?
Uma vez definido o papel estratégico da inovação, a estrutura deixa de ser uma escolha genérica e passa a ser uma consequência. Empresas em fase de exploração e diversificação tendem a precisar de maior autonomia, menor acoplamento ao negócio principal e mecanismos ágeis de decisão. Já organizações focadas em escalar iniciativas já validadas precisam do oposto: integração com os ativos existentes, governança mais clara e acesso estruturado a canais, clientes e operação. Quando o objetivo é eficiência no core, a lógica muda novamente — a área de inovação deixa de ser “executora” e passa a ser “habilitadora”, atuando via ferramentas, dados, automação e melhoria contínua. Nesse sentido, a estrutura é umaradução da estratégia em arquitetura operacional.
Como é o perfil de time necessário para operar essa estrutura?
Na prática, as empresas montam times de inovação com perfis relativamente padronizados, independentemente do que esperam deles. Mas os perfis exigidos são profundamente diferentes conforme o contexto. Ambientes de exploração demandam profissionais com tolerância à ambiguidade, capacidade de operar com recursos escassos e orientação empreendedora. Contextos de escala exigem perfis mais estruturadores, capazes de integrar novos negócios à organização existente sem perder velocidade. Agendas de eficiência, por sua vez, pedem relacionamento estabelecido com as estruturas existentes, pessoas próximas da operação e confortáveis com dados. O desalinhamento aqui é sutil, mas crítico. Não é incomum encontrar empreendedores frustrados em estruturas altamente controladas, executores sendo cobrados por visão de futuro, ou especialistas operacionais alocados em agendas exploratórias. O problema, nesses casos, não é o talento. É o contexto onde ele está inserido.
A coerência como vantagem competitiva
Não existe um modelo universal de inovação. Existe apenas o modelo coerente com a estratégia num determinado momento. Essa coerência precisa acontecer em três níveis simultaneamente: no papel que a inovação cumpre na estratégia, na estrutura organizacional que viabiliza esse papel, e no perfil das pessoas que operam essa estrutura.
Quando um desses elementos está desalinhado, a fricção aparece na forma de projetos que não avançam, times desmotivados e resultados aquém do esperado. Quando os três estão alinhados, a inovação deixa de ser esforço e passa a gerar resultados.
A pergunta mais honesta que o Conselho pode fazer não é “como inovar mais?”. É algo mais incômodo. Nossos investimentos em inovação são coerentes com o que esperamos gerar?
Inovar não é fácil. Inovar sem coerência é o caminho para desperdiçar recursos num jogo cujas regras nunca foram claramente definidas. E coerência organizacional não surge espontaneamente. Ela precisa ser deliberadamente construída. As três perguntas apresentadas são um guia claro que pode ajudar conselheiros darem coerência estratégica para seus investimentos em inovação.
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