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Errar para acertar

Para lidar com as incertezas do mundo: experimentos seguros para falhar

No lugar de grandes projetos que consomem tempo e recursos, líderes podem testar ideias em pequena escala, reduzir riscos e transformar erros em oportunidades

Augusto Dias Carneiro
12 de agosto de 2025
6 min de leitura
Para lidar com as incertezas do mundo: experimentos seguros para falhar

Meus leitores mais assíduos talvez vejam aqui uma continuação da coluna que publiquei em novembro de 2020, quando defendi que deveríamos aprender a errar mais rápido — e não simplesmente a errar menos. De lá para cá, percebo que as empresas têm evoluído nesse aspecto. Pessoas que antes eram crucificadas por cometer um erro talvez ainda não sejam celebradas, mas já existe um interesse genuíno em permitir que aprendam com ele. Se não para evitar que se repita, ao menos para que façam diferente na próxima vez.

O que ainda me incomoda, porém, é a postura de alguns líderes que insistem em transformar toda iniciativa nova em um grande projeto — com planos de ação excessivamente sofisticados, cronogramas detalhados de lançamento e rollouts cheios de estardalhaço.

O desfecho, vocês conhecem bem:

  • O champagne vai para a geladeira, mas raramente sai de lá depois. Porque muitos desses projetos, no mínimo, não resultam em nada — e alguns trazem prejuízo reputacional e/ou financeiro à empresa. 
  • A equipe de lançamento é extinta, os participantes vão lamber suas feridas em outros departamentos e as lideranças do projeto são banidas para a “Sibéria corporativa”.

Vence quem testa e aprende rápido

O mundo ficou tão imprevisível que todo plano esculpido em granito fica obsoleto 2ª feira que vem. Então, hoje quero propor um ângulo diferente: criar experimentos simples e de baixo custo que permitam testar hipóteses e protótipos para futura implantação. Dá que é cada vez mais difícil prever o futuro, precisamos cultivar o hábito de experimentar ideias em formatos reduzidos, com custo baixo e plateias limitadas.  Se não der certo, o prejuízo é negligível. Se funcionar, amplia-se. Esse conceito é hoje conhecido como experimento seguro para falhar (safe to fail experiment).

Observe crianças brincando. Elas não passam horas discutindo prós e contras de uma ideia: começam a construir com o que têm à mão — pedrinhas, gravetos, peças de Lego, embalagens vazias. Testam para ver se funciona. Quando não dá certo, partem rapidamente para outra solução. Aprendem enquanto fazem. E tudo isso no mais alto astral: parecem se divertir com os próprios erros!

Bem-vindos ao mundo onde errar faz parte

O melhor passo a passo que achei é o da Jennifer Garvey Berger. Ela propõe seis atitudes:

  1. Subdivida o público-alvo em segmentos suficientemente pequenos para que o custo de um eventual fracasso seja baixo, mas grandes o bastante para gerar resultados relevantes. Defina, desde o início, limites claros de custo e prazo para cada experimento.
  2. Dentro de cada equipe, todos precisam saber exatamente o que estão fazendo. No mínimo: qual hipótese está sendo testada, com quais potenciais clientes e quais métricas indicarão sucesso ou fracasso.
  1. Cada experimento deve seguir regras claras — por exemplo, “quanto tempo a pessoa leva para fazer um Pix” — e ser conduzido com uma demografia claramente especificada, como “donas de casa da classe B em Juiz de Fora”. Lembre-se: a ambiguidade é inimiga da mudança.
  2. Inclua, entre os experimentos, testes nos extremos do seu público-alvo — como avaliar um aplicativo bancário com pessoas de 70+.
  3. A diversidade também importa: conduza vários experimentos em paralelo, em vez de realizá-los de forma sequencial. Assim, as equipes podem trocar aprendizados em tempo real. Vale, inclusive, planejar dois testes simultâneos em que se espera que um fracasse e outro tenha sucesso — mas sem revelar de início qual é qual. E considere convidar profissionais de outros departamentos para participar, trazendo novos pontos de vista.
  1. Por fim, estimule um espírito de experimentação leve e bem-humorado, semelhante ao das crianças brincando. Alto astral incentiva a criatividade!

Líderes que já migraram para essa nova abordagem para lançar produtos e serviços relatam um benefício adicional: ela se tornou uma espetacular plataforma para revelar jovens talentos. Por serem experimentos menores e mais seguros, é possível convidar colaboradores menos experientes para liderá-los, oferecendo-lhes espaço para aprender e inovar sob supervisão.

Curiosamente, eu googlei “experimentos seguros para falhar” e as respostas que vieram nada tinham a ver com o que a Jennifer propõe: de experiências químicas para crianças fazerem em casa (sim, aqueles foguetinhos de bicarbonato com vinagre que fazíamos na mesa da cozinha) até softwares fail-safe de compensação bancária.

Este conteúdo foi “roubartilhado” do capítulo 4 do livro de Jennifer Garvey Berger e Keith Johnston, Simple Habits for Complex Times (tradução livre, minha: Hábitos Simples para Tempos Complexos). O capítulo, não por acaso intitulado Create a Clear Vision for an Unclear Future (Crie uma Visão Clara para um Futuro Opaco), aborda justamente esse tema.

Encerrando: se seus experimentos forem bem-sucedidos, chegou a hora de expandi-los para plateias maiores. A moda hoje é escrever “escalar” em vez de “expandir”. Antes de fazer isso, eu recomendo que você leia o que Geoffrey West do Santa Fe Institute tem a dizer sobre como escalar experimentos com segurança. Eu já falei dele, nesta coluna.

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Augusto Dias Carneiro
Coach e autor do Guia de Sobrevivência na Selva Empresarial (2008) e do O Livro das Ideias: Inovação e Empreendedorismo (2025).

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