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Filosofia

“Porco é teu pai”: sobre prompts, sentidos e realidade

Dia desses estava estressando alguns modelos de linguagem (LLMs) com uma questão peculiar: Dois claros andavam lado a lado numa avenida até que a luz acabou. Quem ganhou

Cássio Pantaleoni
23 de abril de 2026
13 min de leitura
“Porco é teu pai”: sobre prompts, sentidos e realidade

Embora possa não parecer, há um objetivo específico com tal questão: apresentar um exemplo para a comunidade (que diariamente escreve seus prompts) de como a semântica e a pragmática ainda estabelecem lacunas perigosas no uso da inteligência artificial generativa. 

Durante o mestrado de filosofia, o Prof. Dr. Ernildo Stein (meu orientador) foi protagonista inquestionável para me preparar para a compreensão da dimensão da linguagem para a interpretação do sentido. Uma de suas máximas era: “Você não pode dizer a mesma coisa com outras palavras”. O Prof. Stein era um filósofo fenomenológico destacável e um profundo intérprete de Heidegger. E isso explica muita coisa.

O que aprendi das nossas conversas é que há um hiato incontornável entre a intenção do dizer e o dizer em si. As palavras buscam ser o lugar onde o sentido habita, porém são sempre muito “apertadas” para abraça-lo em seu caráter mais preciso. 

Creio que frequentemente passa despercebido que a capacidade de expressar sentidos por meio da insuficiência implacável das palavras possui profunda relação com a inteligência. O dicionário completo é exíguo para expressar a intenção de fundo do dizer. É preciso malabarismos retóricos, neologismos, exploração das zonas cinzentas avizinhadas em cada palavra, ou seja, Poíesis, como bem definiu Aristóteles, para nos aproximarmos do sentido.

Encurtar a linguagem é enfraquecer mais ainda a capacidade de ao menos nos aproximarmos da intenção do dizer. Poucos se dão conta disso. Outros tantos nem precisam disso para tocar suas vidas, pois como escreveu o poeta Thomas Gray: “A ignorância é uma bênção”.

A inteligência artificial (IA) – especialmente as LLMs – gradativamente erode nossa capacidade de compreender dois aspectos fundamentais da inteligência: a capacidade semântica e seu horizonte pragmático de consideração do sentido. A IA disfarça nossa pobreza linguística, oferecendo uma superfície sempre convincente. Basta alguns prompts e alcançamos o estatuto de “capazes”. A IA, enquanto nos encurta, nos torna capazes.

Entretanto, ao oferecer palavras ordinais em uma caixa de texto, visando um comando ou propondo uma questão, não estamos de modo algum flertando com a suposta inteligência da máquina. Sob o olhar atento, podemos testemunhar o eco de nossas próprias limitações, na medida em que suas respostas são do tamanho de nossas questões.  

Em grande medida, operam sob uma névoa de desconhecimento de dois aspectos crucias para bem validar os prompts: a curadoria semântica e a curadoria pragmática. É uma miopia fenomenológica, dado que a IA sempre responde coerentemente ao comando ou à questão proposta. É coerente. Não necessariamente certa. 

O abismo semântico

Na questão proposta às LLMs, logo ao início deste artigo, é possível ver o abismo semântico que separa nossas intenções do dizer daquilo que é dito. Muito em função da crença de que a linguagem é mero veículo onde os sentidos são transportados entre dois interlocutores. O profissional médio de LLM trata o prompt como uma linha de código, ignorando que a semântica não é apenas sobre o “que” é dito, mas sobre a densidade das relações entre as palavras. É o que os filósofos compreendem como estruturação ontológica. Complicou?

Bem, sem a estruturação ontológica, o que temos é a alucinação da precisão: a IA responde com a fluidez de um mestre, mas com a substância de um espelho vazio. A fonte deste fenômeno é o opportunistic prompting — o ajuste por tentativa e erro que ignora a estrutura profunda do significado em favor de uma resposta que “parece correta”, probabilisticamente ajustada.

A Mudez Pragmática

Se a semântica é o corpo da mensagem, a pragmática é o seu sopro vital. A pragmática diz respeito ao uso da linguagem em contextos, dos atos de fala, da intenção que molda a ação. A pragmática conversa com a circunstância, com a temporalidade, ela é epocal. O que ela oferece é uma base mais sólida para que os sentidos sofram a mínima adulteração.

Especialistas que ignoram a curadoria pragmática constroem agentes que são autômatos sem etiqueta. Eles possuem a informação, mas não o timing; possuem a resposta, mas não a sensibilidade do papel que desempenham. 

A negligência com o “como” e o “porquê” transforma interações complexas em diálogos diluídos. Falha-se ao não compreender que um prompt não é um comando, mas uma construção de mundo. Se não curamos a pragmática, o agente é incapaz de navegar pelas nuances da negação, do silêncio ou da ambiguidade necessárias à dimensão humana.

Explorando o exemplo

Voltemos à questão proposta ao início de modo a alcançarmos certa visão concreta dos argumentos apresentados:

Dois claros andavam lado a lado numa avenida até que a luz acabou. Quem ganhou?

Submetida a diferentes LLMs, obtem-se as seguintes respostas.

LLMResposta
Google GeminiA Vivo!Essa é o clássico trocadilho com as operadoras de telefonia: se a “Luz” (fazendo referência à companhia de energia Light ou à claridade em si) acaba e os “Claros” se apagam, quem ganha a disputa por continuar no jogo é a Vivo.
Claude AnthropicNenhum dos dois ganhou — quando a luz acabou, os dois claros viraram escuros!É uma charada clássica que brinca com o duplo sentido de “claro” (tanto o período do dia quanto a cor/ausência de sombra).
DeepseekO que estava na frente, porque o outro ficou no escuro.
ChatGPT OpenAIÉ um trocadilho.“Dois claros andavam lado a lado… até que a luz acabou.”Se a luz acabou, deixou de haver “claros” — ficou tudo escuro.Resposta: Ninguém ganhou, porque sem luz não há claros.Ou, dito de forma mais brincalhona: deu empate no escuro.

Qual delas você entende que é a mais apropriada? Você consegue imaginar outra resposta considerando a semântica e a pragmática?

Façamos uma análise detalhada deste “prompt”.

Análise gramatical:

  1. O sujeito da oração é “Dois claros”. Neste caso, ocorre um processo derivativo denominado substantivação, dado que a palavra “claros” originalmente alude a um adjetivo. O numeral “dois”, no entanto, impõe a função de substantivo (o núcleo do sujeito) a este adjetivo.
  2. O verbo que define a ação do sujeito é “andavam” (Pretérito Imperfeito do Indicativo), sugerindo ação contínua, habitual ou duradoura no passado.
  3. A locução que indica a disposição dos sujeitos é dada pela expressão “lado a lado”. Sob o ponto de vista da gramática trata-se de um adjunto adverbial de modo, enquanto a expressão “numa avenida” é um adjunto adverbial de lugar.
  4. A oração finaliza com uma oração subordinada adverbial temporal: “até que a luz acabou”.

Bem, até aqui não há maiores dificuldades. A integridade gramatical está preservada e isto torna a oração facilmente compreensível. Porém, nada disso ajuda a responder a questão “Quem ganhou?”

As coisas começam a ficar mais interessantes no nível semântico e é daqui que se pode fazer uma primeira elaboração da resposta à pergunta proposta (quem ganhou?).

Análise semântica:

O coração semântico do prompt pulsa nos compassos da ambiguidade e da oposição. A palavra “claros” é o centro da ambiguidade — sem contexto, o leitor preenche seu significado sozinho, mas comumente preso ao centro gravitacional que indica luz, caráter ou lucidez.

O prompt constrói um campo semântico de luminosidade para logo depois destruí-lo: se os sujeitos (os “dois claros”) se definem pela claridade, quando a luz acaba, eles perdem sua própria essência.

Os verbos revelam ainda uma ruptura temporal: “andavam” sugere continuidade e harmonia, enquanto “acabou” é um corte abrupto que não encerra só a luz, mas possivelmente a existência do sujeito.

Assim, a ambiguidade de um único substantivo, combinada com a ruptura verbal, transforma esta frase simples num paradoxo semântico onde identidade e existência colapsam junto com a luz. E aqui parece ser o limite das LLMs para a interpretação semântica, dadas as respostas computadas no quadro mais acima.

Faz sentido, não faz? 

Mais ou menos, se olharmos apenas para o aspecto semântico. O prompt possui duas frases e as LLMs moldam suas respostas apenas neste nível. Mesmo assim, a única LLM que considerou a relação entre “quem ganhou” e “andavam lado a lado” parece ter sido o ChatGPT da OpenAI, uma vez que ele sugere que “deu empate no escuro”. Contudo, como o próprio ChatGPT informa: “[isto] dito de forma mais brincalhona”.

A resposta mais apropriada não pode ser plenamente alcançada no nível semântico. É preciso analisar além, no seu contexto pragmático. Para tanto, é preciso não apenas conhecimento, mas entendimento de mundo e entendimento do que significa ser humano.

Análise pragmática 

Enquanto a semântica analisa o que a frase diz, a pragmática analisa o que ela faz — e o prompt exige observar as duas camadas. Há várias pressuposições ali. Estas caracterizam verdades implícitas que reverberam naquele que questiona e naquele que responde. 

Uma dessas pressuposições é que havia luz antes. Depois não há mais luz. Outra é que a imagem que nos vem é de que os “claros” se movem. Não se movem de qualquer maneira, mas “lado a lado”. 

O que está profundamente arraigado no caráter pragmático do prompt é que há um hipotético observador que seria capaz de responder à questão “quem ganhou”. Este observador vê os claros, vê que se movem “lado a lado” no espaço geográfico de “uma avenida”, até que, subitamente, a luz (seja lá de onde ela é emitida) acaba. 

É neste momento que o observador é interrogado de maneira direta: “Quem ganhou?”.  Ora, se “os claros” se moviam antes da escuridão “lado a lado” naquela “avenida”, é possível afirmar que havia alguma indicação de que, no ponto futuro, na claridade ou na escuridão, um terminaria à frente do outro? Haveria um vencedor? Esta resposta só seria possível de ser produzida se observássemos o percurso dos “dois claros” até a hipotética linha de chegada. Vendo o fim, saberíamos o resultado. Mas o fim nos foi subtraído quando a luz acabou.

A resposta mais apropriada, considerando os níveis semânticos e pragmáticos seria “NÃO SEI”.

A resistência da estrutura

A estrutura das LLMs – estas máquinas de completar – foram projetadas para responder com precisão técnica. Em grande medida, quem usa a IA não entende que o limite da sua linguagem é, de fato, o limite do seu prompt. E o limite das interpretações, tanto no nível semântico quanto pragmático, produz resultados coerentes, mas não necessariamente corretos. É um jogo de aproximação que antagoniza com a prática interpretativa que, aos trancos e barrancos, nos conduz ao debate colaborativo e evolutivo. 

O surgimento de frameworks como o DSPy representa um movimento de retorno à lógica formal e à assinatura semântica. Hoje temos métricas de faithfulneess ou conceitos como o Constitutiona AI, da Anthropic, que buscam ajudar profissionais e usuários a praticar a filosofia da linguagem aplicada. 

Talvez o problema não seja, entretanto, a falta de ferramentas, mas a falta de silêncio para entender a distância entre o sentido e a palavra, entre o dizer e a intenção do dizer. 

Lembro de uma história que escutei há muito tempo. Conta que um motorista dirigia por uma estrada estreita de barro e, ao se aproximar de uma curva sem visibilidade do transito viu aparecer a sua frente, de maneira imprudente, um outro veículo que quase se chocou com ele. Ao se cruzarem, o segundo motorista gritou pela janela: “Porco”. O primeiro então não hesitou e gritou: “Porco é teu pai”. Segundos depois, ao entrar na curva, ele bateu contra um grande porco no meio da estrada.

Se a semântica é a base da interpretação, a pragmática é, antes de tudo, um compromisso com o contexto. Sem isso, continuaremos a produzir ecos sofisticados, acreditando, ingenuamente, que estamos sendo ouvidos, quando apenas estamos falando ao vento.

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Cássio Pantaleoni
Cássio Pantaleoni é Founder da True4Human e membro do conselho consultivo da ABRIA (Associação Brasileira de Inteligência Artificial). Tem mais de 40 anos de experiência no setor de tecnologia, é graduado e mestre em filosofia, e reúne experiências empreendedoras e executivas no currículo. Vencedor do prestigioso prêmio Jabuti, com a obra Humanamente Digital: Inteligência Artificial centrada no Humano.

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