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Autodesenvolvimento

A autoliderança começa pela gestão do medo

Por que lidar com o medo se tornou uma habilidade estratégica para líderes que precisam tomar decisões com clareza, influenciar pessoas e atuar com confiança em cenários de incerteza

Wesley Barbosa
26 de junho de 2025
8 min de leitura
A autoliderança começa pela gestão do medo

Seja o líder que você gostaria de ter. 

Nos últimos dias, refleti bastante sobre a frase acima. O que me intriga nela é o fato de que, de maneira geral, não nos conhecemos o suficiente para saber quem somos de verdade e, por isso, nem sempre temos certeza do que queremos. 

Isso me faz compreender que, antes de sairmos por aí nos qualificando, nos posicionando ou nos autodenominando líderes, devemos primeiro compreender que tipo de pessoa somos.

“Antes de sermos profissionais melhores, precisamos ser pessoas melhores”. É com essa frase que eu sempre encerro minhas aulas sobre humanização corporativa. E a reflexão se estende naturalmente para a seguinte pergunta: que tipo de pessoa você tem sido para quem trabalha com você?

Antes de entrar nos aspectos pessoais, que tal começarmos por um consenso sobre o que é liderança?

Segundo a definição da Universidade de Harvard, liderança é a capacidade de alcançar metas por meio das pessoas — inspirando, influenciando e emponderando-as a conquistar objetivos comuns. Mas como inspirar, influenciar e empoderar alguém, se nós mesmos não estamos bem?

Liderança não é um cargo, é uma filosofia de trabalho

Para liderar é preciso ter conhecimento, o que torna o ato situacional. Portanto, não se faz necessário ter um time, ou um cargo específico, para praticar os conceitos de liderança. Eles representam muito mais valores do que posições. 

Esses valores sustentam uma das habilidades centrais da liderança: a capacidade de resolver problemas — e, mais do que isso, de ensinar outras pessoas a resolvê-los com autonomia.

Por isso, investimos tanto em nos qualificar. Buscamos ferramentas, metodologias e processos que possam orientar nosso raciocínio e que nos ajudem a enfrentar qualquer desafio de forma estruturada.

Entretanto, nenhuma dessas qualificações necessariamente muda a nossa reação primária e imediata diante de um problema. E é justamente aí que se abre uma oportunidade para desconstruirmos a liderança contemporânea. E a pergunta que fica é: qual é o maior mecanismo interno que nos faz paralisar diante dos problemas?

O medo!

Com a função primária de nos manter vivos, o medo atua como uma defesa neurológica de sobrevivência: ele nos alerta sobre perigos iminentes e prepara o corpo para reagir — seja por meio da fuga, seja pelo combate.

Esse processo tem origem na amígdala cerebral, uma estrutura localizada no lobo temporal e que faz parte do sistema límbico. Formada por núcleos neuronais, ela é responsável pelo processamento de emoções como medo, agressividade e ansiedade.

A ativação da amígdala estimula a liberação de adrenalina e noradrenalina, e, em situações de estresse prolongado, também de cortisol — o hormônio do estresse.

Quando esses hormônios são secretados em excesso, podem comprometer a função cognitiva, afetar a tomada de decisão e reduzir nossa capacidade de pensar com clareza.

Mas como um estímulo primário de sobrevivência pode ter se tornado nosso maior problema?

A resposta pode estar na nossa saúde mental — e social

A verdade é que aprendemos a nos relacionar com o nosso medo. Aprendemos, ao longo da vida, a nos esquivar daquilo que nos causa insegurança. Em primeiro lugar, precisamos aceitar o fato de que o medo sempre vai estar presente, mesmo em situações que consideramos “sob controle”. A diferença está na maneira como respondemos emocionalmente a essas circunstâncias.

Um estudo conduzido pela pesquisadora e professora da Harvard Medical School, Gaelle Desbordes, utilizou exames de imagem para observar o cérebro de grupos de controle antes e depois da prática de atenção plena (mindfulness).

Os resultados mostraram que o mindfulness provoca uma redução na atividade da amígdala cerebral, diminuindo significativamente os estímulos relacionados ao medo e à ansiedade. Em outras palavras: quando treinamos nossa mente para estar presente, diminuímos o poder do medo sobre nós.

Fonte: The Harvard Gazette

Esse estudo nos dá uma boa perspectiva sobre a presença do medo em ambas as circunstâncias, ou seja, mesmo após a redução da influência da amígdala no cérebro, notamos que ela ainda está ativada. 

E o que isso nos ensina? Bem, minha interpretação é filosófica: coragem não é a ausência de medo, mas a forma com que reagimos a ele.

Mesmo os mais aventureiros e aficionados por adrenalina estão sentindo medo quando pulam de paraquedas ou escalam montanhas, mas não deixam de fazê-lo. Essas mesmas pessoas, ao voltar para o escritório, sentem medo em diversas situações, como as demais.

O mesmo ocorre com aqueles que praticam atenção plena e desenvolvem estratégias de regulação emocional. Esses recursos não os impede de enfrentar desafios em relação ao medo no ambiente de trabalho. Afinal, o medo é parte da nossa biologia.

Então, além da prática da atenção plena, o que mais podemos fazer para nos relacionarmos melhor com o nosso próprio medo?

Imagine a seguinte situação. Você vai a uma excursão na floresta amazônica e, de repente, se perde do grupo. Qual seria o tamanho do seu pânico em relação ao que você deve fazer para sobreviver?

Agora imagine a mesma situação, mas sob uma outra perspectiva. Você é um indígena, criado naquela região, com familiaridade com a fauna, a flora e os sons da floresta. Será que o medo seria o mesmo?

Quanto mais sabemos e nos preparamos para enfrentar situações diversas, menor a influência do medo sobre o nosso cérebro

Medo é ausência de repertório 

A comparação feita por Gaelle Desbordes revela que o medo não depende apenas da ameaça em si, mas da nossa familiaridade com ela. Quanto mais conhecemos o ambiente, a situação ou o desafio, menos o medo nos domina — e mais liberdade temos para agir com clareza.

Quanto mais sabemos e nos preparamos para enfrentar situações diversas, menor a influência do medo sobre o nosso cérebro. Nossa motivação para enfrentar os desafios aumenta quando sabemos exatamente o que fazer, independentemente da natureza ou complexidade do problema em questão. 

E é aqui que tudo começa: preparar nossa fisiologia e nossa mente para nos relacionarmos melhor com o medo é um passo essencial na jornada da autoliderança.

Trata-se de um movimento de dentro para fora: primeiro, aprender a cuidar de como nos sentimos, para então nos tornarmos referência e apoio para os outros.

Quando desenvolvemos a capacidade de influenciar as emoções que sentimos diante do medo, damos à nossa cognição espaço e liberdade para focar no que realmente importa: encontrar soluções para os desafios que enfrentamos.

Se a vida é uma eterna resolução de problemas, fazer isso sem ser dominado pelo medo é o que nos permite viver com mais tranquilidade, clareza e serenidade.

Porque, no fim das contas, autoliderança não é sobre controle — é sobre influência. E quanto maior a nossa influência sobre as nossas emoções, melhor nossa saúde mental, nossa presença e, consequentemente, nossas decisões.

Ah! E caso você se perca em uma floresta, siga o som dos rios, e depois, o seu fluxo.

Quer saber mais sobre como enfrentar seus medos? Acesse o podcast #85 do No Brain No Gain CAST. Gravei um episódio especialmente sobre esse tema.

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Wesley Barbosa
Fundador da EduTech Become School, professor da Fundação Dom Cabral em liderança contemporânea e neurociências da performance, ex-executivo do Facebook (Meta) no Vale do Silício e do Baidu em Pequim, ex-sócio da XP Investimentos, e Idealizador da ONG chancelada pela Nações Unidas e acelerada por Stanford “Ajude o Pequeno”.

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