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O Brasil perdeu a licença social de desmatamento

Face aos desafios colocados perante o País, rediscutir o código florestal é essencial para endereçar respostas

Carlos de Mathias Martins
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O cientismo e o voluntarismo tomaram conta da COP27, conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas realizada no balneário egípcio de Sharm El-Sheikh. Muitas respostas fáceis para perguntas difíceis. Durante duas semanas, de 7 a 18 de novembro deste ano, ativistas, jornalistas, cientistas, juristas, entreguistas e motoristas de táxi discutiam com desenvoltura o orçamento de carbono estabelecido para os terráqueos pelo afamado IPCC – painel de cientistas especialistas em mudanças climáticas da ONU.

Alguns debatedores nos diversos pavilhões da conferência tratavam de minúcias científicas com o mesmo rigor dedicado aos prognósticos da Copa do Mundo de futebol no Catar. Já no melhor restaurante de frutos do mar da simpática Sharm, palpiteiros de todas as estirpes e nacionalidades cravavam o aumento da temperatura da Terra em pelo menos 3 graus celsius – acima portanto do limite máximo de 1,5 graus celsius, meta estabelecida pelo Acordo de Paris na COP21 de 2015.

Em contrapartida, os cientistas do IPCC, mais modestos com seus modelos preditivos sujeitos a revisão paritária, apresentaram resultados menos assertivos no sexto relatório de avaliação sobre os avanços da ciência do clima. O documento publicado em agosto de 2021 elenca cinco cenários distintos para aumento da temperatura da superfície terrestre. Todos os cinco cenários repletos de incertezas, como é de praxe em análises rigorosas. Mas enfim, as mídias sociais permitem que tanto o idiota quanto o palpiteiro da aldeia atinjam audiência global com suas opiniões sobre qualquer assunto.

Nesse contexto, permito-me emitir a minha opinião: o melhor restaurante de frutos do mar de Sharm seria ranqueado o pior restaurante do Boqueirão no litoral paulista. Mas eu divago.

O cientismo é a crença dogmática que afirma a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de compreensão da realidade. A ciência por sua vez, e mais especificamente o método científico, é livre de valores éticos e morais. E exatamente por esta razão a ciência funciona. Ocorre que a humanidade precisa de valores, e a existência de uma hierarquia de valores na nossa civilização é inegável – incluindo por exemplo a necessidade de vivermos em harmonia com a natureza. Em muitos aspectos, tal hierarquia de valores forjada em 3,5 bilhões de anos de vida na Terra, perdura para garantir a sobrevivência da própria humanidade.

Acredito que diante dos dilemas morais que a vida nos impõe, na maioria das vezes, o ser humano não precisa da ciência nem do método científico para decidir o que é certo ou errado. É nesse contexto que o Brasil perdeu a licença social de desmatamento dos nossos biomas. Não é por conta da ciência do clima, tampouco pelos compromissos assumidos em algum tratado comercial.

Pode parecer injusto com o Brasil se compararmos o desmatamento histórico de outros países ao redor do globo ante as nossas reservas florestais. Ainda mais se considerarmos que parte do desmatamento que ocorre nos biomas da Amazônia e do Cerrado está previsto e autorizado pelo código florestal brasileiro, de 2012. Há aproximadamente 2 mil anos, muito antes da criação do IPCC portanto, o apóstolo Paulo pontificou: “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. A sociedade brasileira terá que rediscutir o nosso código florestal.

Carlos de Mathias Martins
Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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