Status de leitura
Faça login para usar este recurso

Edição #22 do MIT SMR Brasil
©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.
Existe uma confusão comum entre a IA geral e a IA específica. Uma já faz parte do nosso cotidiano. A outra, muito mais poderosa, pertence a um futuro não tão distante
Em 2023, as expectativas quanto às reais possibilidades de aplicações do ChatGPT (e seus similares) se tornaram maiores do que a tecnologia realmente podia oferecer naquele estágio de maturidade (tema sobre o qual falei na Review nº 21). Isso resultou numa taxa de adoção sem precedentes, movida ora por palpites, ora por oportunidades reais e concretas, o que inundou de ruído os canais de informação e deixou o grande público sem saber o que era conjectura ou fato.
Acreditar nessa suposta superinteligência artificial, capaz de fazer tudo e automatizar várias atividades, criou um frenesi entre executivos, empreendedores, investidores e profissionais liberais de vários setores, como o jurídico. Também disparou em muita gente a sensação de medo de ficar para trás – “fomo”, no acrônimo em inglês.
Em boa medida, o combustível das expectativas irreais foi a confusão entre os diferentes conceitos de inteligência artificial (IA): a IA generativa e a IA geral (AGI, na sigla em inglês).
A IA generativa permite ao usuário gerar conteúdo em texto, imagem, som, código, vídeo, entre outros. A partir de um volume imenso de dados, esse tipo de IA aprende a identificar padrões no que nós enxergamos, por exemplo, como um texto ou uma imagem. Com isso, ela cria “moldes” que são usados para gerar novos conteúdos, num padrão aceitável para os humanos.
De forma muito simplificada, a IA do ChatGPT aprendeu padrões de tanto ser exposta a perguntas e respostas nos treinamentos por que passou – e ainda passa. Desde então, usa “estatística avançada” para escolher o molde ideal para elaborar uma resposta. Semelhante à função do celular de autocompletar frases, ela seleciona o conteúdo que utilizará para preencher aquele molde.
Portanto, a IA generativa não compreende o conteúdo que está gerando – ainda que algumas pessoas duvidem disso. Aliás, quem ainda não acredita pode perguntar para o próprio ChatGPT, que responderá algo assim: “como uma IA, não tenho compreensão ou consciência própria. Processo e gero respostas com base em padrões de linguagem e nas informações que fui treinada para reconhecer. Mas não compreendo no sentido de ter experiências conscientes ou entendimento pessoal. Minha compreensão é limitada à análise estatística de texto e à produção de respostas com base nessa análise”.
Já a IA geral é o subcampo de pesquisa dentro do campo da IA que busca desenvolver sistemas computacionais dotados de um nível de inteligência e capacidade de aprendizado autônomo equiparáveis aos dos humanos.
O objetivo é que esses sistemas computacionais sejam aptos a executar, de maneira eficaz, tarefas além daquelas para as quais foram treinados. Tal como os humanos, uma IA geral deve ser capaz de propor estratégias para resolver desafios inéditos e se adaptar. No entanto, isso não é o que temos hoje.
Os sistemas desenvolvidos até o momento são exemplos do que chamamos de IA fraca ou específica, projetados e treinados para realizar tarefas pontuais, como reconhecimento de voz, tradução de idiomas ou condução de veículos autônomos.
O ChatGPT é uma IA específica, não uma IA geral, apesar de muitos terem sido induzidos a acreditar que ele tem mais poderes do que realmente tem. Pergunte ao próprio se ele é uma AGI e você terá como resposta algo nesta linha: “Não, eu não sou. Sou uma inteligência artificial específica, projetada para realizar tarefas específicas como processamento de linguagem natural, geração de texto e responder perguntas com base em um vasto conjunto de dados e regras pré-treinadas. Minha capacidade de aprender e se adaptar a novas tarefas é limitada e guiada por interações específicas e contextos definidos”.
Muitas das tarefas e casos de uso, que pessoas esperam que o ChatGPT e seus similares possam automatizar, exigiriam que ele fosse, na verdade, uma IA geral. Até agora, ainda não existe nenhuma.
Mas isso é questão de tempo. Sam Altman, CEO da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, deseja assegurar a autonomia americana de chips de IA com a arrecadação de fundos da ordem de US$ 7 trilhões. Há quem especule que o intuito seja garantir a matéria-prima de que necessita para construir a sua própria IA geral.
Pensando bem, talvez seja questão de bem pouco tempo, como acredita Shane Legg, o qual, na minha opinião, é o principal nome em IA na atualidade. Para ele, é provável que tenhamos uma IA geral até 2028. Vale dizer que seu cargo traz peso na previsão: cientista-chefe de IA geral na Google DeepMind (empresa de pesquisa de IA adquirida pela Google em 2014).
Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.