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IA generativa

O ChatGPT não é tão inteligente assim. Pelo menos, por enquanto

Existe uma confusão comum entre a IA geral e a IA específica. Uma já faz parte do nosso cotidiano. A outra, muito mais poderosa, pertence a um futuro não tão distante

Alexandre Nascimento
28 de agosto de 2025
4 min de leitura
O ChatGPT não é tão inteligente assim. Pelo menos, por enquanto

Em 2023, as expectativas quanto às reais possibilidades de aplicações do ChatGPT (e seus similares) se tornaram maiores do que a tecnologia realmente podia oferecer naquele estágio de maturidade (tema sobre o qual falei na Review nº 21). Isso resultou numa taxa de adoção sem precedentes, movida ora por palpites, ora por oportunidades reais e concretas, o que inundou de ruído os canais de informação e deixou o grande público sem saber o que era conjectura ou fato.

Acreditar nessa suposta superinteligência artificial, capaz de fazer tudo e automatizar várias atividades, criou um frenesi entre executivos, empreendedores, investidores e profissionais liberais de vários setores, como o jurídico. Também disparou em muita gente a sensação de medo de ficar para trás – “fomo”, no acrônimo em inglês.

Em boa medida, o combustível das expectativas irreais foi a confusão entre os diferentes conceitos de inteligência artificial (IA): a IA generativa e a IA geral (AGI, na sigla em inglês).

IA generativa

A IA generativa permite ao usuário gerar conteúdo em texto, imagem, som, código, vídeo, entre outros. A partir de um volume imenso de dados, esse tipo de IA aprende a identificar padrões no que nós enxerga­mos, por exemplo, como um texto ou uma imagem. Com isso, ela cria “moldes” que são usados para gerar novos conteúdos, num padrão aceitável para os humanos.

De forma muito simplificada, a IA do ChatGPT aprendeu padrões de tanto ser exposta a perguntas e respostas nos treinamentos por que passou – e ainda passa. Desde então, usa “estatística avançada” para escolher o molde ideal para elaborar uma resposta. Semelhante à função do celular de autocompletar frases, ela seleciona o conteúdo que utilizará para preencher aquele molde.

Portanto, a IA generativa não compreende o conteúdo que está gerando – ainda que algumas pessoas duvidem disso. Aliás, quem ainda não acredita pode perguntar para o próprio ChatGPT, que responderá algo assim: “como uma IA, não tenho compreensão ou consciência própria. Processo e gero respostas com base em padrões de linguagem e nas informações que fui treinada para reconhecer. Mas não compreendo no sentido de ter experiências conscientes ou entendimento pessoal. Minha compreensão é limitada à análise estatística de texto e à produção de respostas com base nessa análise”.

E a IA geral?

Já a IA geral é o subcampo de pesquisa dentro do campo da IA que busca desenvolver sistemas computacionais dotados de um nível de inteligência e capacidade de aprendizado autônomo equiparáveis aos dos humanos.

O objetivo é que esses sistemas computacionais sejam aptos a executar, de maneira eficaz, tarefas além daquelas para as quais foram treinados. Tal como os humanos, uma IA geral deve ser capaz de propor estratégias para resolver desafios inéditos e se adaptar. No entanto, isso não é o que temos hoje.

Os sistemas desenvolvidos até o momento são exemplos do que chamamos de IA fraca ou específica, projetados e treinados para realizar tarefas pontuais, como reconhecimento de voz, tradução de idiomas ou condução de veículos autônomos.

O ChatGPT é uma IA específica, não uma IA geral, apesar de muitos terem sido induzidos a acreditar que ele tem mais poderes do que realmente tem. Per­gunte ao próprio se ele é uma AGI e você terá como resposta algo nesta linha: “Não, eu não sou. Sou uma inteligência artificial específica, projetada para realizar tarefas específicas como processamento de linguagem natural, geração de texto e responder perguntas com base em um vasto conjunto de dados e regras pré-treinadas. Minha capacidade de aprender e se adaptar a novas tarefas é limitada e guiada por interações específicas e contextos definidos”.

Muitas das tarefas e casos de uso, que pessoas esperam que o ChatGPT e seus similares possam automatizar, exigiriam que ele fosse, na verdade, uma IA geral. Até agora, ainda não existe nenhuma.

Mas isso é questão de tempo. Sam Altman, CEO da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, deseja assegurar a autonomia americana de chips de IA com a arrecadação de fundos da ordem de US$ 7 trilhões. Há quem especule que o intuito seja garantir a matéria-prima de que necessita para construir a sua própria IA geral.

Pensando bem, talvez seja questão de bem pouco tempo, como acredita Shane Legg, o qual, na minha opinião, é o principal nome em IA na atualidade. Para ele, é provável que tenhamos uma IA geral até 2028. Vale dizer que seu cargo traz peso na previsão: cientista-chefe de IA geral na Google DeepMind (empresa de pesquisa de IA adquirida pela Google em 2014).

Nota do editor: este texto foi publicado originalmente em abril de 2024, antes do lançamento do modelo GPT-5. A nova versão trouxe avanços em confiabilidade e capacidades multimodais, mas não altera o ponto central: o ChatGPT continua sendo uma IA generativa, não uma inteligência artificial geral (AGI). Já a corrida por chips de IA segue intensa, com planos bilionários ainda em curso em 2025, refletindo a disputa global por semicondutores especializados.

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Alexandre Nascimento
Alexandre Nascimento realiza pesquisas aplicadas em tecnologias inovadoras ligadas a algumas das principais universidades do mundo, como o próprio MIT, Stanford e Singularity University, e é empreendedor em série, hoje sediado no Vale do Silício. Tem trabalhado com desenvolvimento de inteligência artificial desde 1998, possuindo diversas patentes na área.

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