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QI, networking e falácias da meritocracia

Se for para debater sobre diversidade e inclusão de verdade, comece indicando o trabalho de pessoas de grupos subrepresentados para que a roda também possa girar por outros eixos

Grazi Mendes
12 de julho de 2024
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Não há heroísmo em dizer que se começou algo “do zero”. Há ingratidão ou desconhecimento de privilégio. Perdoe-me se soei dura demais nas primeiras frases do artigo, mas você consegue se imaginar em um palco, recebendo um grande prêmio sem ter nenhum nome a mencionar além do seu nos agradecimentos?

Costumo pensar sobre isso. Quando escuto uma pessoa falar que começou “do zero”, imagino que não tenha refletido o suficiente sobre seu ponto de partida e tudo que já havia ali. Porque havia algo e isso é muito diferente de zero, que significa vazio ou nada. Por sinal, nem o zero vem do nada. A palavra é de origem sânscrita e árabe.

Quantas pessoas vieram antes de nós e nos prepararam para chegar aonde chegamos? Quantas vieram antes de nós e criaram condições favoráveis nos lugares que ocupamos? Reconhecer essa interdependência não diminui a grandeza dos nossos passos, ao contrário. Honestidade e gratidão são virtudes que nos engrandecem.

Somos continuidade.

Diga-me com quem tu andas e te direi quem és?

Nossas redes de relacionamento começam a ser formadas desde quando éramos crianças. Para algumas, é a vizinhança da rua, da comunidade. O pessoal do futebol. Os primos da família estendida. Para outras, são também os colegas dos cursinhos de inglês, alemão ou francês e outras mil atividades extracurriculares do tipo.

Quem, na sequência, consegue reunir condições para cursar uma universidade pública ou tem dinheiro para pagar uma faculdade privada reconhecida, segue ampliando suas redes de acesso e poder. O tal do networking, tão falado no mundo dos negócios. Porter Gale, escritora norte-americana e especialista em marketing, diz em seu livro que seu networking (rede de contatos) é seu net worth (patrimônio líquido). Infelizmente, faz sentido.

Imagine uma pessoa que hoje cursa direito na Universidade de São Paulo (USP), por exemplo. Quem serão e onde estarão suas colegas, no futuro? Não posso prever, mas pelas estatísticas, provavelmente ela terá promotoras de justiça, desembargadoras e até juízas do Supremo em sua agenda do celular, como amigas pessoais ou pelo menos ex-colegas de turma. Como curiosidade e evidência do que acabo de afirmar: das 169 pessoas que ocuparam as cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF) desde sua criação até agora, 55 formaram-se na faculdade de direito da USP.

Conexões não apenas abrem portas, elas também apontam caminhos e tecem uma confortável rede de segurança para você seguir com menos medo de cair. Quem nunca ouviu jovens bem-sucedidos, do alto dos palcos de eventos sobre empreendedorismo e inovação, contarem sobre seus esforços hercúleos para conquistar o amigo do pai como investidor ou os enormes desafios para ascender na carreira executiva num salto do estágio à cadeira de CEO, da empresa da família? Inclusive, esforço hercúleo pode ser um bom termo, uma vez que, por mais que Hércules tenha se dedicado nos seus 12 trabalhos, ele não começou do zero, e sim do Olimpo, como filho de um deus.

É inegável que ter para quem pedir conselhos e indicações facilita a jornada profissional, tanto no mercado de trabalho quanto na hora de empreender e montar a própria empresa.

Recentemente, Lázaro Ramos falou sobre esse tema em seu perfil no LinkedIn e disse uma frase que eu compartilho: “”Não nascer herdeiro de dinheiro e de rede de relações lhe roubará um tempo precioso no futuro””.

Como bem lembrou Lázaro, em muitos casos, a pessoa nem precisa ter diretamente todos os contatos, pois já nasceu com um sobrenome com tanta força, que é capaz de conseguir um cargo público com uma única ligação. O nada bom e velho nepotismo, ainda tão presente nas estruturas e entranhas do Brasil.

Estão mesmo partindo do zero?

As narrativas da meritocracia que tratam o sucesso ou a ascensão social como fruto de talento e de esforço individuais não se sustentam quando olhamos para tudo isso.

As portas das oportunidades são abertas por conexões, e as chaves estão nos bolsos de uns poucos privilegiados.

Vamos abrir a roda?

Cerca de 80% das vagas de trabalho nem chegam a ser divulgadas oficialmente, pois são preenchidas através de indicações internas, segundo um artigo do The Wall Street Journal. Vale a ressalva que este número é de 2013 e é bem provável que tenha diminuído em 10 anos, com o avanço da Internet e das redes sociais, mas ainda assim é um dado interessante.

Tem até uma expressão conhecida no mundo corporativo que é o QI ou quem indica. E quem indica as mulheres, as pessoas negras, as trans e as com deficiência? Para qual tipo de espaço? Quem faz parte da rede de relações das pessoas que alcançaram o privilégio de indicar para cargos importantes e posições de poder?

No trabalho informal no Brasil, as pessoas negras representam 60% do total. Quando olhamos para os cargos gerenciais, o número cai para 6,3% e, nas posições de liderança executiva, somos menos de 5% – de acordo com dados de 2022 do estudo “Jovens negros e o mercado de trabalho”.

Ao retroalimentar um sistema que já favorece pessoas brancas em tantos aspectos, a prática de recorrer às indicações como via única de acesso a uma vaga de trabalho não é parte deste problema?

Vimos aqui recentemente, na minha coluna de março, que os pactos narcísicos se dão nas relações entre pessoas semelhantes em um grupo, com uma tendência de conformidade. Nesse mesmo sentido, a maioria das pessoas tende a fazer networking com seus pares em bolhas, ou seja, com pessoas que compartilham de sua mesma realidade socioeconômica e cultural.

De certa forma, é como se aquela dinâmica dos grupinhos do colégio continuasse se reproduzindo na vida adulta, dos corredores das empresas aos eventos de negócios. Ainda que o acesso a determinados ambientes esteja se ampliando aos poucos, os espaços de segregação voluntária continuam se formando e até se aperfeiçoando.

É a lógica do clube de golfe, que vende exclusividade como benefício. A palavra já diz tudo: exclusivo – que exclui ou serve para excluir; o oposto de inclusivo. Quando excluir se torna fetiche, os clubinhos alastram-se por toda a sociedade e tornam-se dinâmica social. Não por acaso, Krenak afirma que o clube dos humanos com os mesmos direitos não é para todos.

Onde as oportunidades são criadas? Em muitos casos, será exatamente nos clubes – do golfe, do charuto, nos jantares e em outros espaços de cunho mais reservado, pessoal e até afetivo. O multimilionário norteamericano Ted Turner, certa vez, disse: “A vida é um jogo e o dinheiro é o que garante uma boa pontuação”.

Então, pessoas negras estão jogando do zero?

Não. Elas também tecem suas redes de conexões. Entretanto, no caso das pessoas negras, aquilombar-se é uma tecnologia ancestral de sobrevivência que não pode ser comparada com o pacto da branquitude. Seria a mesma coisa que acreditar em racismo reverso.

A cosmovisão africana ensina que a vida é feita em comunidade e que a prosperidade real deve ser compartilhada. Portanto, nutrir suas redes de relacionamentos e fortalecer as comunidades das quais você faz parte, seja na hora de buscar um trabalho ou de retribuir indicando alguém quando você tem a oportunidade, é um passo fundamental para lidarmos com a exclusão e a subrepresentação. Elas precisam ampliar e fortalecer suas redes originais. Enquanto o exercício das pessoas brancas deve ser exatamente o inverso: expandir o olhar e diversificar suas redes.

A negritude está cada vez mais presente nos mais diversos espaços, com muitas pessoas competentes e aptas a falar sobre todos os assuntos – não só sobre racismo. Procure saber, siga, dê audiência. Seja a pessoa que abre a roda para caber mais gente, que inclui alguém na conversa e a faz se sentir bem-vinda.

Sempre que puder, recomende e indique o trabalho de pessoas destes grupos subrepresentados para que a roda também possa girar por outros eixos. Sim, eu sei que pode ser mais confortável trabalhar com pessoas conhecidas ou indicadas por alguém. Todo trabalho é uma relação de confiança, em algum nível. A questão está exatamente aqui: confortável. Se queremos debater diversidade e inclusão (D&I) de verdade e para valer, precisamos compartilhar espaços de privilégio e lidar melhor com os desconfortos.

Já no lado das empresas e organizações, aqui vão três caminhos possíveis para repensarmos as vias de acesso ao mercado de trabalho, de forma intencional, para a D&I:

– Estruture seus processos e organize-se melhor para não estar sempre no modo urgência: abra mão da conveniência de preencher a vaga com rapidez e adote uma mentalidade de longo prazo.- Publique as vagas disponíveis em sua empresa. Se for o caso, peça indicações também, mas busque realizar processos seletivos justos e transparentes entre as pessoas que chegaram por todas as vias.- Contrate consultorias especializadas em diversidade e inclusão, recrutadores com esse mesmo foco e outras iniciativas como Preta Lab, TransEmpregos e UX para Minas Pretas.

Vamos assumir o compromisso de esvaziar os clubinhos e compreender, de uma só vez, que não há nada mais ultrapassado e tacanho do que ser exclusivo. O futuro é inclusivo e pertence a toda comunidade humana. Se tiver dúvida de como agir, apenas lembre-se de Maya Angelou: “Quando você aprender, ensine. Quando você receber, dê.”

É quase matemático e é bem maior que zero.”

Grazi Mendes
Grazi Mendes está como head of diversity, equity & inclusion na ThoughtWorks Brasil, consultoria global de tecnologia, é professora em programas de desenvolvimento de lideranças e cofundadora da Ponte, hub de diversidade e inclusão. Acumula cerca de 20 anos de experiência em gestão estratégica, branding, design estratégico, liderança e cultura, com atuação em empresas nacionais e multinacionais de segmentos diversos.

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