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Reflexão

Perder oportunidades, no caso brasileiro, é nadar contra a corrente?

O Brasil precisa deixar de ser um berço de cérebros apenas para o restante do mundo

Alexandre Nascimento
29 de agosto de 2025
5 min de leitura
Perder oportunidades, no caso brasileiro, é nadar contra a corrente?

No livro Cartas ao Jovem Empreendedor, Ozires Silva recorda uma pergunta feita ainda na infância: “Professora, se um brasileiro inventou o avião, por que o Brasil não fabrica aviões?”. A professora não soube responder de imediato. Tentou justificar com argumentos sobre condições mais favoráveis nos Estados Unidos e na França. Essa pergunta aparentemente simples despertou em Ozires um inconformismo que moldaria sua trajetória – e que mais tarde o levaria a fundar a Embraer, posicionando o Brasil entre os protagonistas da indústria aeronáutica mundial.

Essa história ecoa até hoje porque revela um padrão recorrente na trajetória brasileira: a capacidade de gerar perguntas brilhantes, formar talentos excepcionais e até vislumbrar soluções pioneiras – mas falhar sistematicamente na construção de um ecossistema capaz de reter, potencializar e capturar o valor dessas oportunidades.

No final da década de 1970, a Gurgel produziu veículos elétricos em território nacional, antecipando uma tendência que hoje mobiliza trilhões em investimentos globais. Mesmo assim, décadas depois, o Brasil não possui relevância global no setor, e nos tornamos importadores de carros elétricos chineses. Enquanto isso, um engenheiro brasileiro ajudou a resolver um dos maiores gargalos da Tesla, transformando a produção do Modelo 3 em um case global de automação industrial.

E não é um caso isolado.

Um engenheiro mecatrônico brasileiro liderou o desenvolvimento de automação na produção dos iPhones na China. Outro, tornou-se referência mundial em computação quântica dentro da Amazon. A tecnologia da Waymo, empresa do Google referência em carros autônomos, tem contribuições relevantes de brasileiros. O mesmo se repete na Audi, no Vale do Silício, onde um engenheiro brasileiro criou uma divisão voltada para o avanço da direção autônoma. Até mesmo a divisão de realidade virtual da Meta foi transformada sob liderança de um brasileiro.

Ou seja, talento o Brasil tem – e exporta em abundância. O que falta é a capacidade de transformar esses talentos em motores de inovação local, gerando valor econômico e soberania tecnológica.

Essa contradição ganha contornos ainda mais gritantes quando se observa o passado. Na década de 1960, o Brasil já possuía tecnologia própria para projetar e fabricar chips. À mesma época, Taiwan, líder atual na fabricação de processadores avançados, era um país exportador de frutas como o mamão formosa, enquanto o Vale do Silício, hoje símbolo máximo da inovação global, estava começando sua transformação, mas ainda era majoritariamente rural e exportador de frutas. O Brasil, portanto, não perdeu apenas a oportunidade de acompanhar esses países – perdeu a chance de liderar.

O ciclo é perverso

O resultado desse ciclo é perverso: o Brasil investe na formação de cérebros brilhantes, que vão para o exterior e ajudam a desenvolver as tecnologias mais avançadas do mundo. Anos depois, o próprio Brasil precisa pagar caro para importar essas mesmas tecnologias, sem capturar o valor que ajudou a criar. A ironia se intensifica quando esse sucesso internacional reforça, entre os jovens mais capacitados, a sensação de que é preciso sair do País para prosperar – intensificando a fuga de talentos e perpetuando nossa baixa relevância no cenário tecnológico global.

A arte de perder oportunidades, portanto, não se resume à ausência de políticas industriais. Ela se revela na incapacidade de sustentar uma visão de longo prazo, que transcenda governos, partidos, e ideologias políticas. Ela também é marinada na desvalorização da ciência, no desprezo ao empreendedorismo de base tecnológica e, sobretudo, na falta de coragem para enfrentar nossos próprios paradoxos.

COMO DISSE TANTAS VEZES OZIRES SILVA, é preciso cultivar o inconformismo – mas não só. É preciso transformá-lo em ação concreta, com estratégias que articulem talentos, investimentos e soberania tecnológica. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de ser apenas o berço dos cérebros que fazem a revolução em outras nações. É hora de deixar de ser exportador de perguntas e talentos, e passar a ser produtor de respostas e soluções.

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Alexandre Nascimento
Alexandre Nascimento realiza pesquisas aplicadas em tecnologias inovadoras ligadas a algumas das principais universidades do mundo, como o próprio MIT, Stanford e Singularity University, e é empreendedor em série, hoje sediado no Vale do Silício. Tem trabalhado com desenvolvimento de inteligência artificial desde 1998, possuindo diversas patentes na área.

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