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Edição #38 do MIT SMR Brasil
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Como a adoção prática da inteligência artificial no Brasil ainda é bastante desigual e incipiente, o investimento chinês tende a ser o catalisador do uso dessa tecnologia. Então, na estratégia, o tema “China” muitas vezes precede o tema “tecnologia”
A inteligência artificial tomou conta do discurso corporativo, acadêmico e institucional no mundo. É difícil encontrar uma grande empresa hoje que não mencione a IA como parte de sua estratégia de inovação, transformação digital ou ganho de produtividade. Não, vou refazer a frase: é difícil encontrar qualquer organização hoje que não mencione a IA como parte de sua estratégia de inovação, transformação digital ou ganho de produtividade. Fóruns sobre o tema se multiplicam, cursos e workshops se espalham por universidades, consultorias e centros de tecnologia. Indivíduos também aceleram o letramento para participar dessa nova corrida do ouro – ou para fugir da guilhotina corporativa.
No entanto, enquanto o uso da IA se impõe como narrativa dominante sobre o futuro, nos bastidores da economia real – a que efetivamente movimenta capital, cria empregos, estabelece infraestrutura e define novas rotas de consumo – é a China quem está redesenhando o presente brasileiro.
O avanço da IA como tecnologia-chave e a consolidação da China como potencial global são os dois maiores fenômenos sociais e econômicos do século 21 e agora estão começando a convergir. A China não apenas investe, vende e constrói em nosso País. Ela também embarca suas soluções tecnológicas, muitas delas baseadas em inteligência artificial aplicada, moldando o mercado brasileiro com seus sistemas, sua cultura digital e sua lógica política e econômica. O resultado é o surgimento de uma nova realidade híbrida, que poderia ser sintetizada como “China + IA”. Uma combinação potente, que já está transformando o Brasil sob nossos olhos – ainda que muitos não percebam isso com clareza.
Apesar do otimismo que marca os discursos públicos, a adoção prática da IA no Brasil ainda é bastante desigual e incipiente. Pesquisas recentes apontam que menos de 20% das empresas brasileiras utilizam soluções de inteligência artificial em atividades de produção e operação. E quando utilizam, normalmente se restringem a casos mais simples, como consultas, automatização de processos, atendimento ao cliente, recomendação de produtos ou análise de dados estruturados.
Nas pequenas e médias empresas – que representam a esmagadora maioria do tecido econômico nacional – a situação é ainda mais crítica. Muitas não sabem como começar, não têm acesso às ferramentas adequadas e enfrentam dificuldades de capacitação tecnológica. A consequência direta dessa realidade é que a IA que opera hoje no Brasil é, em grande parte, importada: algoritmos, plataformas e modelos pré-prontos, criados no exterior e adaptados superficialmente ao contexto local. Em vez de impulsionar a transformação estrutural dos setores econômicos, essa IA opera mais como um aditivo, longe de uma força catalisadora de produtividade e inovação em larga escala.
Essa lacuna entre discurso e prática se aprofunda devido a uma série de gargalos estruturais. A maturidade digital das empresas brasileiras é, em geral, baixa. Dados cruciais ainda estão espalhados em sistemas desconectados e não estruturados. A infraestrutura digital é precária em muitas regiões, dificultando o desenvolvimento de aplicações mais avançadas.
Há também uma carência significativa de profissionais qualificados, com formação específica em IA, ciência de dados e engenharia de machine learning. E, talvez o mais decisivo, o Brasil ainda não possui um plano estratégico robusto de longo prazo. Mesmo o Plano Nacional de Inteligência Artificial, que deveria orientar os investimentos e regulações, foi anunciado tardiamente e ainda carece de articulação prática entre os setores público e privado.
O relacionamento da China com o Brasil se intensificou nos últimos vinte anos. A partir dos anos 2000, os investimentos chineses começaram a crescer significativamente, com foco inicial em commodities, como soja, minério de ferro e petróleo. Em 2009, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, posição que vem mantendo com folga desde então.
No entanto, a natureza dessa relação evoluiu. Se antes o foco estava apenas na troca de produtos primários e insumos, nos últimos anos, a China passou a ocupar espaço em setores mais estratégicos e sofisticados, como infraestrutura energética, tecnologia da informação, mobilidade elétrica, plataformas digitais e finalmente produtos de consumo.
O modelo de parceria entre os dois países se baseia em uma lógica de complementaridade econômica: enquanto o Brasil fornece alimentos e recursos naturais, a China responde com máquinas, dispositivos eletrônicos e software. Esse equilíbrio comercial sustentável é fortalecido por um pragmatismo político que transcende governos e ideologias – o que garante continuidade e estabilidade nos projetos, mesmo em meio a mudanças eleitorais ou crises diplomáticas.
No entanto, por trás dessa parceria pragmática, existe uma assimetria: a China exporta valor agregado e inovação, enquanto o Brasil segue exportando recursos brutos. Essa diferença tecnológica é central para compreender o tipo de influência que está sendo exercida.
Da infraestrutura visível à inteligência invisível
Um dos aspectos mais fascinantes da atual presença chinesa no Brasil é que ela dificilmente se limita ao que pode ser visto. Muito além das grandes obras ou dos equipamentos claramente rotulados, o verdadeiro poder da China hoje está na tecnologia embarcada – na “inteligência invisível” presente em softwares, algoritmos e sistemas que já fazem parte da rotina dos brasileiros.
A entrada da BYD no mercado de veículos foi um marco da virada chinesa para a alta tecnologia. Seus carros elétricos não são apenas eletrificados, mas digitais: atuais modelos já embarcam softwares de condução inteligente, sensores IoT e assistentes baseados em IA. A Xiaomi, por sua vez, tem consolidado sua presença oferecendo smartphones acessíveis que vêm equipados com recursos inteligentes integrados, como assistentes virtuais, otimização de bateria via machine learning e câmeras que interpretam cenas em tempo real.
No setor de mobilidade urbana, a DiDi, controladora do aplicativo 99, introduziu algoritmos que otimizam rotas, ajustam preços dinamicamente e gerenciam o tempo de resposta dos motoristas brasileiros em tempo real. No segmento de varejo e entretenimento, o TikTok Shop representa talvez o maior caso de uso de IA em massa no País: a plataforma funde criação de conteúdo, comércio eletrônico e algoritmos de recomendação tão poderosos quanto invisíveis. O consumidor é guiado por sugestões altamente personalizadas, sem ter plena noção de que está sendo influenciado por uma inteligência artificial.
No campo do agronegócio, a XAG introduziu drones com IA adaptativa capazes de mapear plantações e pulverizar defensivos de maneira localizada, reduzindo desperdícios e aumentando a produtividade. E no que diz respeito à infraestrutura de conectividade, gigantes como Huawei, Dahua e Hikvision já instalaram redes de vigilância inteligente, com câmeras que detectam rostos, placas de carro e padrões de movimentação em tempo real em dezenas de cidades brasileiras.
O mais relevante é que, em todos esses casos, a inteligência artificial não é o produto principal, mas é um componente fundamental para se diferenciar do antigo produto chinês: ela opera nos bastidores, como a engrenagem que faz funcionar sistemas complexos de logística, segurança, comércio e mobilidade.
A presença chinesa no Brasil ultrapassa a economia e entra na esfera da diplomacia e da geopolítica. Uma vez consolidado como seu maior parceiro comercial, a China impõe ao Brasil uma necessidade de reposicionamento estratégico. Tentar manter uma postura neutra em relação aos Estados Unidos e à China se torna um desafio crescente, especialmente diante de investimentos concretos que vêm da Ásia, enquanto as promessas americanas muitas vezes se limitam a discursos e sanções. A diplomacia, portanto, é condicionada pelo peso da infraestrutura física que já está sendo redesenhada.
Um exemplo disso é o projeto da ferrovia bioceânica, que pretende ligar o Brasil ao oceano Pacífico passando pelo Peru – uma obra de proporções continentais apoiada pela China, visando facilitar o escoamento das commodities brasileiras diretamente aos portos asiáticos. No setor energético, a State Grid é hoje controladora de ativos críticos da distribuição de energia, substituindo empresas nacionais com escala e eficiência. E no segmento da conectividade digital, a influência chinesa é ainda mais ampla: a Huawei fornece parte importante da estrutura do 5G nacional, além de atuar em parcerias com universidades para pesquisa em computação avançada.
Porém, talvez o campo onde essa influência seja mais silenciosa – e ao mesmo tempo profunda – é o cultural. Aplicativos como TikTok e CapCut moldam uma nova lógica de consumo de mídia, muito diferente da ocidental. Ali, o usuário não busca ativamente pelo que deseja. Ele descobre, rola, reage – tudo impulsionado por uma inteligência que aprende com ele continuamente. Estamos falando de uma substituição da lógica racional de navegação pela lógica do impulso e da recompensa, num ambiente onde a IA decide mais do que o usuário imagina. Jogos como Honor of Kings vão além do entretenimento, apresentando elementos da mitologia e da cultura chinesa a milhões de jovens brasileiros.
Essa cultura digital importada já exerce poder de influência social e estética – e opera nos bastidores, alterando comportamento, linguagem, consumo e o próprio senso de identidade digital da juventude.
Se por um lado a China avança, o processo de desindustrialização dos Estados Unidos torna esse movimento ainda mais contundente. A proposta de tarifas agressivas da administração Trump, supostamente para proteger empregos e revitalizar a indústria local, tenta reverter esse processo que criou um vácuo internacional de bens de consumo tecnológicos.
Nesse cenário, marcas chinesas se expandiram rapidamente no Brasil, aproveitando também pressões e restrições enfrentadas nos mercados americano e europeu. Empresas como BYD, Xiaomi, Shein, Alibaba, Temu e DiDi consolidaram-se no cotidiano brasileiro, tornando a China a principal fornecedora de produtos de consumo do País – dos eletroeletrônicos e carros elétricos até aparelhos domésticos inteligentes, drones, roupas de fast fashion e até os próprios canais de venda por meio das plataformas de e-commerce. O avanço chinês não se deve apenas ao custo competitivo, mas ao domínio em inovação, logística e integração digital.
A China caminha para se consolidar como “a maior potência mundial em robótica física aplicada”. Desde robôs industriais nas linhas de montagem da BYD e da Foxconn até robôs de entrega autônomos, drones agrícolas e humanoides com IA embarcada, o país lidera em volume, velocidade de adoção e integração com plataformas de dados. Empresas como DJI, UBTech, Pudu Robotics e Unitree exportam soluções robóticas para dezenas de países, enquanto governos locais subsidiam a presença desses sistemas em escolas, hospitais, hotéis e restaurantes.
Os robôs que se consolidaram no imaginário popular pelo soft power de Hollywood como originários principalmente dos EUA, provavelmente serão não só “Fabricado na China”, mas também “Criado na China”.
Enquanto o Brasil discute o futuro da inteligência artificial, ele já está acontecendo – mas não do jeito que muitos imaginam. Não é o Vale do Silício que está moldando a realidade brasileira. É a China.
Mais do que principal parceiro comercial, o país asiático se tornou um agente silencioso de transformação digital, uma potência em IA aplicada em escala real, e a arquitetura invisível por trás do consumo, da mobilidade, da segurança e do entretenimento no Brasil.
A inteligência artificial que está impactando o Brasil não saiu de um laboratório nacional nem das big techs ocidentais. Ela já opera aqui, embarcada em plataformas, produtos e infraestrutura vindos da China – e reorganiza comportamentos, mercados e decisões estratégicas sem pedir permissão.
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