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Pensamento contraintuitivo 2

Ecossistemas não são o que você pensa

Muitos executivos chamam de ecossistemas seus portfólios de marcas, relações cliente-fornecedor e conglomerados.Isso é um erro, Se quer criar vantagem competitiva a partir da interação com outras empresas, você precisa entender de verdade essa estratégia

Maximiliano Carlomagno
19 de setembro de 2025
12 min de leitura
Ecossistemas não são o que você pensa

“Nossa empresa é um ecossistema.” 

A expressão virou clichê em apresentações de empreendedores, relatórios de gestão e discursos de CEOs em eventos. 

Em meio à crescente pressão por inovação e diferenciação, executivos passaram a adotar o termo “ecossistema” como sinônimo de portfólio ampliado, conglomerado ou cadeia de fornecimento. Nesse contexto, bastaria uma empresa ter múltiplas marcas ou produtos complementares para afirmar que se trata de um “ecossistema”.  

Apple, Amazon, Google, Meta, Microsoft. As gigantes que dominaram mercados inteiros não o fizeram sozinhas – elas orquestraram ecossistemas. Mas isso não quer dizer que qualquer empresa com múltiplas marcas também o seja. 

Assim como aconteceu com palavras como disrupção, sustentabilidade e inovação, o uso indiscriminado de “ecossistema” esvaziou seu real sentido – e isso não é apenas semântico. Pode comprometer decisões estratégicas, gerar confusão e fazer com que empresas desperdicem oportunidades reais de criação de valor coletivo.  

E mesmo quando bem estruturado, um ecossistema não garante sucesso. Pesquisa recente dos experts no tema David Yoffie, Annabelle Gawer e Michael Cusumano analisou 252 “ecossistemas” e identificou que o tempo médio de vida é de 4,9 anos. Pouco, não é mesmo? 

Se você pretende alavancar o seu negócio como um ecossistema, o primeiro passo é saber o que constitui um ecossistema, quais suas singularidades e diferenças frente a outros arranjos. 

Neste artigo, vamos separar mitos de realidade, classificar os tipos de ecossistemas e mostrar o que líderes empresariais precisam saber para adotar – ou evitar – esse modelo. 

De onde vem o conceito 

O termo “ecossistema”, como não deveria ser novidade para ninguém, nasceu na biologia, em 1935, com o ecólogo britânico Arthur Tansley. Mas foi só em 1993 que a ideia migrou para o mundo dos negócios, graças ao artigo “Predators and prey”, de James F. Moore, na Harvard Business Review. A provocação de Moore era clara: empresas não competem sozinhas – competem como parte de sistemas. Estratégia, segundo essa lógica, não deveria ser apenas sobre vantagem competitiva individual, mas sobre a dinâmica coletiva de criação e captura de valor.  

De 1993 para cá, a aplicação do conceito no mundo empresarial tem sido expandida e refinada, dando origem a quatro principais tipos de ecossistemas: 

  1. Ecossistemas de negócios: Estruturas articuladas por um ator focal e formadas por uma rede de parceiros interdependentes. 
    Exemplo: O ecossistema da Tesla, com fornecedores de baterias (Panasonic), infraestrutura de recarga (Superchargers), softwares de direção autônoma e incentivos regulatórios. 
  2. Ecossistemas de inovação ou plataforma: Arranjos colaborativos voltados à entrega de soluções integradas ao cliente que se estruturam em função de uma plataforma central e complementadores. 
    Exemplo: O iPhone, da Apple, que combina hardware proprietário, sistema operacional fechado e um ecossistema aberto de desenvolvedores de apps e conteúdos. 
  3. Ecossistemas empreendedores: Ambientes geograficamente concentrados que promovem a criação e o crescimento de startups. 
    Exemplo: O ecossistema de Tel Aviv, que combina universidades, empreendedores, fundos de venture capital, cultura de risco e apoio estatal. 
  4. Ecossistemas de conhecimento: Arranjos colaborativos formados por universidades, empresas e instituições públicas que buscam gerar coletivamente novos conhecimentos que nenhum dos participantes conseguiria criar isoladamente. 
    Exemplo: O ecossistema em torno do Centro de Inovação da Embrapa em Agricultura Digital, em Campinas. 

Cada tipo de ecossistema descrito tem um conjunto de atores autônomos que se relacionam de forma interdependente e geram determinado resultado. Enquanto os ecossistemas de inovação e plataforma geram inovações, os de empreendedorismo e de conhecimento têm como produto novos empreendimentos (startups) ou conhecimentos. 

Aprofundando os ecossistemas de inovação

O foco deste artigo é explorar os ecossistemas de inovação e plataforma. Esses ecossistemas têm sido a base das empresas mais valiosas do mundo.  

Um conjunto de marcas próprias, como as da Lojas Renner (Renner, YouCom, Camicado), constitui um portfólio de negócios relacionados – mas não caracteriza um ecossistema. Conglomerados de controladas ou unidades que atuam em diferentes categorias como o Grupo Ultra que controla Ipiranga, Ultragaz, Ultracargo e Hidrovias do Brasil também não são ecossistemas. Nesses casos, há uma estratégia de ampliação de escopo, não um arranjo ecossistêmico. A tabela abaixo ajuda a compreender a diferença entre diferentes arranjos. 

 Ecossistema de inovação  Conglomerado  Cliente-fornecedor  Portfólio de marcas  
Lógica de valor  Cocriação com complementaridade entre atores  Sinergias financeiras ou operacionais internas  Troca transacional entre partes independentes  Ampliação de presença com identidade múltipla  
Governança  Modular e orquestrada, sem controle total  Centralizada com comando hierárquico  Contratual e bilateral  Centralizada sob uma holding ou unidade-mãe  
Interdependência  Multilateral, específica e estratégica  Alta, mas subordinada à controladora  Baixa ou unidirecional  Baixa, marcas atuam de forma autônoma  
Fronteiras  Abertas, porosas e evolutivas  Rígidas e bem definidas  Contratuais e estáveis  Internas, com segmentação por público-alvo  
Inovação  Distribuída, contínua e colaborativa  Interna e incremental  Pontual, baseada em demanda específica  Focada em diferenciação por marca  
Velocidade de adaptação  Alta, via coevolução entre atores  Moderada, via decisões centrais  Lenta, por renegociação contratual  Moderada, via ajustes individuais por marca  
Exemplos típicos  Android, Apple, Salesforce  Cosan, Ultra  GM e fornecedores automotivos  Lojas Renner, Boticário 
Fonte: Carlomagno, Maximiliano (2025).

O caso Google/Android: ecossistema de inovação em ação

Vejamos o caso do Google. O Android é um exemplo de um ecossistema de inovação baseado em complementaridade distribuída: o valor final entregue ao usuário é fruto da articulação entre fabricantes de dispositivos (como Samsung e Motorola), desenvolvedores de apps, operadoras de telefonia e o próprio Google, que oferece a plataforma-base.  

A governança é modular, com o Google exercendo um papel orquestrador – definindo padrões técnicos e políticas da Play Store – sem controlar totalmente o sistema, já que o Android é open source. O ecossistema coevolui continuamente: novos padrões de hardware, sensores, apps e atualizações de sistema alteram o comportamento de todos os participantes. Suas fronteiras são porosas, permitindo que um mesmo ator participe de múltiplos ecossistemas (um app pode estar no Android, no iOS, na web).  

Por fim, o modelo de negócio é claramente potencializado por efeitos de rede: quanto mais desenvolvedores entram, mais usuários se beneficiam, o que atrai mais fabricantes e alimenta o ciclo – todos ganham com o crescimento da base, mesmo que monetizem de formas distintas.  

A matriz de governança e relação: qual é seu modelo? 

Apesar das semelhanças com conglomerados e cadeias de fornecimento, os ecossistemas de inovação exigem uma lógica própria de gestão e estratégia. Para facilitar a compreensão dos diferentes arranjos, elaboramos uma matriz em função do tipo de relação e tipo de governança entre os atores. 

Por tipo de relação 

Dependência estrutural: As unidades estão ligadas por vínculos organizacionais formais, mas atuam de maneira relativamente independente em suas estratégias. 

Interdependência estratégica: Os atores são autônomos, mas articulam suas ações em torno de objetivos e resultados comuns, criando valor de maneira colaborativa. 

Por tipo de governança 

Governança centralizada: Um ator dominante exerce controle direto sobre os demais, definindo regras, decisões e alocação de recursos. 

Governança modular: A governança é distribuída entre os participantes, com regras compartilhadas e orquestração parcial, sem controle total de nenhum agente. 

Sete pilares que diferenciam ecossistemas reais 

O que distingue os ecossistemas é a interdependência entre atores autônomos – eles colaboram sem depender de controle hierárquico. Ecossistemas não são espontâneos – são desenhados. O sucesso depende da capacidade do orquestrador de alinhar incentivos, reduzir riscos de falha coletiva e criar infraestrutura para a complementaridade. Ecossistemas se sustentam em sete pilares essenciais: 

  1. Complementaridades multilateralmente distribuídas 
    O valor entregue ao cliente ou empreendedor resulta da combinação de contribuições de diversos atores. Nenhum agente, isoladamente, é capaz de gerar o impacto que o sistema, como um todo, entrega. 
  2. Governança modular com orquestração parcial 
    Não há controle central absoluto. A governança se dá por meio de regras, incentivos e mecanismos de coordenação que estimulam a colaboração sem comprometer a autonomia dos participantes. 
  3. Evolução conjunta (coevolução) 
    Os ecossistemas não são estáticos. A entrada de novos atores, o avanço tecnológico e as mudanças de mercado alteram continuamente sua estrutura, exigindo adaptação coletiva. 
  4. Fronteiras porosas e dinâmicas 
    Um mesmo ator pode integrar múltiplos ecossistemas simultaneamente, ocupando diferentes papéis e se beneficiando de interações cruzadas. 
  5. Foco em valor coletivo 
    A lógica dominante não é a da competição por fatias fixas de valor, mas da ampliação do valor total disponível para todos os participantes – uma lógica de jogo de soma positiva. 
  6. Efeitos de rede 
    Quanto mais participantes o ecossistema atrai, maior o valor percebido por novos entrantes. Esses efeitos podem ser diretos (ex: quanto mais pessoas usam um telefone, mais útil ele se torna) ou indiretos (ex: quanto mais aplicativos disponíveis, maior o valor de ter um smartphone). 
  7. Diversidade de atores 
    Os ecossistemas são compostos por uma ampla diversidade de organizações cujas diferenças enriquecem a capacidade coletiva de inovação e resposta a mudanças. 

ECOSSISTEMAS NÃO SÃO – NEM DEVERIAM SER – UM RÓTULO PARA IMPRESSIONAR APRESENTAÇÕES. São estruturas específicas que exigem estratégia, orquestração e um propósito coletivo claro. Antes de declarar sua empresa um ecossistema, pergunte-se: você está apenas somando marcas ou realmente articulando um sistema de valor interdependente, aberto e inovador?  

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Maximiliano Carlomagno
É sócio-fundador da Innoscience, consultoria de inovação corporativa que trabalha com empresas como Roche, Coca-Cola, Duratex, Hypera Pharma. SLC Agrícola, Sicredi, M. Dias Branco, Braskem, Nestle, Ipiranga e Avon. É autor do livro “Gestão da Inovação na Prática”.

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