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Liderança em IA

Diário de bordo: por que sua empresa precisa de um estrategista de prontidão em IA

O sucesso na adoção da inteligência artificial depende menos da tecnologia e mais da capacidade de preparar pessoas, alinhar cultura e garantir governança responsável

Daniele Botaro
2 de outubro de 2025
7 min de leitura
Diário de bordo: por que sua empresa precisa de um estrategista de prontidão em IA
N.E. Este é o segundo artigo da série em que Daniele Botaro compartilha sua experiência à frente de um cargo inédito na Oracle América Latina: AI culture & workforce readiness strategist, algo como “estrategista de cultura de inteligência artificial e prontidão da força de trabalho para a IA”. Mais do que relatar uma transição profissional, o objetivo é propor uma reflexão prática: por que esse papel se tornou necessário — e estratégico — em empresas que desejam adotar inteligência artificial com consistência, responsabilidade e impacto real na cultura organizacional.

O estudo “GenAI Divide: State of AI in Business 2025”, publicado recentemente pelo MIT, tem sido apontado como um dos fatores que explicam a queda no valor de mercado de gigantes de inteligência artificial como Nvidia e Palantir. O relatório mostra que a principal barreira para o sucesso está no chamado “gap de aprendizagem”: as organizações ainda não sabem como usar bem as novas ferramentas ou integrá-las à rotina de trabalho. Como destacam os pesquisadores, capacitar colaboradores de todas as áreas em AI literacy (ou letramento em IA)- compreensão dos princípios, usos, limitações e implicações éticas – não apenas ajuda a identificar aplicações relevantes, mas também orienta na escolha e no uso das ferramentas mais adequadas. 

A implementação de IA em uma empresa não pode ser encarada como instalar um software ou comprar infraestrutura. Trata-se de uma mudança de paradigma que vai muito além de treinar colaboradores em ferramentas. Exige uma transformação organizacional que equilibre tecnologia, cultura e pessoas. Como já falamos no artigo anterior, sem uma liderança dedicada, as empresas caem em armadilhas conhecidas: excesso de informação e desinformação, medo generalizado, resistência cultural e adoção fragmentada que cria silos. O resultado é previsível: iniciativas de IA que não escalam e investimentos que não geram retorno.

Nesse cenário, o papel do estrategista de IA ganha centralidade. Ele atua como arquiteto da prontidão da força de trabalho, criando programas de requalificação que vão além das habilidades técnicas e incluem competências essenciais para o futuro, como pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração e ética digital. Também é responsável por gerenciar a mudança cultural, reduzindo resistências e envolvendo colaboradores como protagonistas da transformação. Isso exige transparência sobre impactos, abertura ao diálogo e criação de espaços de experimentação segura.

Por fim, esse papel deve garantir o uso ético e responsável da IA, promovendo práticas seguras de privacidade de dados e conformidade regulatória. Casos como o da Samsung, que investiu pesadamente em IA mas acabou proibindo o uso do ChatGPT após incidentes de vazamento de informações confidenciais, acendem um alerta: sem governança, até as maiores iniciativas podem falhar.

Ponte entre tecnologia e transformação humana

Nenhuma transformação em IA é sustentável se a organização inteira não desenvolver uma base comum de compreensão sobre a tecnologia. Esse alicerce é o que chamamos de letramento em IA (falei sobre isso no primeiro parágrafo e reforço aqui): a capacidade dos colaboradores de entender os princípios fundamentais da inteligência artificial, seus usos, suas limitações e suas implicações éticas.

Garantir que esse aprendizado seja estruturado, contínuo e conectado às necessidades do negócio é papel do estrategista de prontidão para IA. Ele traduz conceitos técnicos em linguagem acessível , cria trilhas de capacitação sob medida para cada área e promove um nivelamento de conhecimento em toda a organização.

Trata-se de um papel novo, mais específico e humano. Enquanto CDOs e heads de transformação digital concentram-se em sistemas, plataformas e processos, o estrategista de IA foca em adoção, cultura, ética e aprendizagem contínua. É a ponte entre a estratégia tecnológica e a transformação humana necessária para que a inteligência artificial se torne parte integrante e sustentável do negócio.

Um dos pontos mais críticos é mostrar que essa função não é custo, mas investimento estratégico. Abaixo, listo pelo menos cinco indicadores de retorno sobre o investimento (ROI):

  1. Produtividade e eficiência: empresas com programas robustos de upskilling em inteligência artificial já relatam 20-30% de aumento de produtividade em fluxos de trabalho integrados à IA (McKinsey, 2024)
  2. Adoção de IA: medir o quanto os colaboradores usam, com que frequência, em quais processos, antes e depois da criação do cargo de estrategista.
  3. Engajamento e cultura: avaliar, por meio de surveys, o nível de confiança, clareza e motivação dos funcionários em relação à IA antes e depois da atuação do estrategista.
  4. Redução de riscos: medir o número de incidentes relacionados a mau uso de IA após a implementação dessa função.
  5. Atração e retenção de talentos: segundo dados do LinkedIn, vagas que mencionam habilidades em IA atraem 17% mais candidatos. Ter esse papel estruturado ajuda a posicionar a empresa como empregadora atraente, o que reduz custos com recrutamento e turnover.

Se ainda restarem dúvidas sobre a necessidade desse papel, basta olhar para as evidências recentes. De acordo com dados do LinkedIn, de agosto de 2025, há mais de 6000 vagas abertas que mencionam IA Enablement nos Estados Unidos, o que reflete a crescente demanda corporativa por profissionais que possam ajudar na adoção efetiva da IA, traduzindo o potencial da tecnologia em valor real para as organizações.

A verdadeira questão não é se sua empresa vai adotar IA, mas se seus funcionários vão adotá-la antes que seus concorrentes o façam.

Insights do GenAI Divide (MIT, 2025)

  • O maior desafio não é a tecnologia, mas o gap de aprendizagem dos modelos para o contexto das pessoas.
  • AI literacy (letramento em IA) é essencial para capturar valor da inteligência artificial.
  • Tratar IA como simples software leva a adoção fragmentada e desperdício de investimentos.
  • O estrategista de IA torna-se peça-chave para requalificação, cultura e ética digital.
  • Sem governança e segurança, a IA gera riscos reputacionais e perda de confiança.
  • A verdadeira transformação exige alinhar tecnologia, pessoas e cultura.

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Daniele Botaro
AI Culture & Workforce Readiness Strategist da Oracle para a América Latina, Daniele também é embaixadora da Gaia+ e foi empreendedora e sócia-diretora, da Impulso Beta, consultoria especializada em programas de diversidade.

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