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Entender o mundo pelo sentido - e não pela verdade - é o desafio central da liderança contemporânea, que precisa transformar percepções individuais em clareza coletiva
No século VI a.C., Aristóteles, filósofo e inventor grego, nos presenteou com uma das teorias mais revolucionárias e influentes da filosofia: a teoria dos cinco sentidos. Ela buscava responder a uma questão central – talvez a mais essencial sobre a experiência humana: como o cérebro percebe o mundo?
A resposta está nos sentidos.
É a partir dessa teoria, que perdurará enquanto houver humanidade, que proponho uma reflexão sobre uma das ferramentas mais poderosas da liderança contemporânea: o sensemaking.
Para conceituar sensemaking, costumo recorrer à relação entre médicos e pacientes. Imagine ser questionado sobre o que há de errado com você e não conseguir descrever sua dor.
Se levarmos essa mesma analogia para o mundo corporativo, a dinâmica é ainda mais complexa.. Saímos de uma cultura onde fomos ensinados a descrever nossas dores, para um contexto onde não há, ou há pouco, alinhamento sobre o que estamos sentindo.
Dar nome a essas dores é o que chamamos de “labeling” no sensemaking: o ato de criar sentido a partir de algo que antes parecia difuso.
Em suma: sensemaking é sobre fazer sentido.
Agora passamos à Idade Moderna. René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês propôs ao mundo uma reflexão decisiva sobre a consciência humana. Para ele, apenas os seres humanos possuíam alma, já que os animais não teriam a capacidade de atribuir sentido às coisas. Essa visão, aliás, justifica a ideia de que as plantas existiriam para alimentar os animais e estes, por sua vez, para servir aos humanos, dada a suposta ausência de consciência da própria existência.
Descartes vinculou a noção de alma a consciência produzida pelo córtex pré-frontal, concluindo que, ao refletirmos sobre algo, confirmamos a nossa própria existência. Daí seu célebre aforismo: “Penso, logo existo.”
Séculos depois, em O Erro de Descartes, o neurocientista português António Damásio inverteu a lógica cartesiana ao discorrer sobre o fato de que a mente é uma criação do cérebro, e não ao contrário. Para ele, a mente não é uma entidade separada do corpo, mas fruto da biologia. Só existimos porque primeiro desenvolvemos mecanismos fisiológicos capazes de gerar pensamentos. Em suas palavras: “Existo, logo penso”.
É nesse ponto que entram ferramentas de interação social como bom senso, ética, moral e valores. Elas funcionam como referências coletivas para orientar quais comportamentos são considerados aceitáveis ou não.
Agora, pense na complexidade desse processo nas relações pessoais e profissionais do dia a dia. O desafio está em reunir mentes únicas em um coletivo de pensamentos – culturas plurais que, ainda assim, precisam refletir sentidos comuns.
Primeiro, porque ajuda a compreender que o ato de fazer sentido transforma o existir em perceber. Segundo, porque se o cérebro fabrica a mente a partir de cada uma de suas variações fisiológicas, podemos afirmar que cada mente produz seu próprio sentido. Ou seja: o mundo é percebido de acordo com o olhar de cada um de nós.
Por isso que ferramentas de interação social como bom senso, ética, moral e valores são importantes para maximizar a compreensão do sentido que damos à vida – delimitando, de maneira coletiva, quais comportamentos são aceitáveis e quais não são.
Agora, imagine essa complexidade nas relações pessoas e profissionais do dia a dia. Pense no desafio de contratar mentes únicas, singulares, para fazer parte de um coletivo de pensamentos, que formam culturas plurais, mas precisam refletir sentidos comuns.
É nesse ponto que o sensemaking se torna essencial. Ele ajuda a trazer clareza em meio à ansiedade do dia a dia, promove alinhamento para as incompreensões das decisões alheias e melhora a comunicação nas interações sociais.
Porque o sensemaking não é a busca pela verdade, ele é a busca pelo sentido.
É olhar para o passado e atribuir significado às experiências, de modo a criar uma compreensão plausível sobre o presente.
Quando conseguimos “rimar” nesse processo – seja em um projeto, em um time ou em uma relação amorosa ou pessoal – alcançamos uma compreensão coletiva sobre o sentido que construímos.
Para garantir a implementação do sensemaking, você deve construir uma estrutura de comunicação que começa com a conscientização do passado e termina com a completa percepção do que realmente faz sentido.
Para um exercício prático e realista, recorro a uma experiência própria: um problema que eu mesmo tive na implementação de um novo produto. Mesmo com planos bem estruturados, investimentos financeiros e dedicação intensa da equipe, o lançamento inicial fracassou em termos de escalabilidade em seu lançamento inicial. Recorri, então, a quatro pilares estratégicos do sensemaking para reverter a situação, que compartilho no quadro a seguir.
1) Perceba o que não está claro
2) Busque evidências no retrospecto
3) Construa uma narrativa plausível
4) Aja e corrija o curso
O sensemaking é uma ferramenta diária, que deve estar presente em nossas interações para facilitar o sentido que damos ao que fazemos.
Trabalhar é sobre fazer sentido. Quando há clareza sobre o que fazemos — e sobre como fazemos — surge a motivação necessária para sustentar a consistência. É desse alinhamento que surge o maior resultado esperado da liderança contemporânea.
Na minha visão, esse legado é: A AUTONOMIA.
Em outras palavras, em terra de cérebros que percebem o mundo pelos sentidos, quem faz sentido é rei (mas nem tudo que faz sentido é real).*
*aguardem cenas dos próximos artigos.
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