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Do pensar ao existir

Liderar com sentido: a era do sensemaking

Entender o mundo pelo sentido - e não pela verdade - é o desafio central da liderança contemporânea, que precisa transformar percepções individuais em clareza coletiva

Wesley Barbosa
4 de setembro de 2025
9 min de leitura
Liderar com sentido: a era do sensemaking

No século VI a.C., Aristóteles, filósofo e inventor grego, nos presenteou com uma das teorias mais revolucionárias e influentes da filosofia: a teoria dos cinco sentidos. Ela buscava responder a uma questão central – talvez a mais essencial sobre a experiência humana: como o cérebro percebe o mundo? 

A resposta está nos sentidos.

É a partir dessa teoria, que perdurará enquanto houver humanidade, que proponho uma reflexão sobre uma das ferramentas mais poderosas da liderança contemporânea: o sensemaking.

Para conceituar sensemaking, costumo recorrer à relação entre médicos e pacientes. Imagine ser questionado sobre o que há de errado com você e não conseguir descrever sua dor.

Se levarmos essa mesma analogia para o mundo corporativo, a dinâmica é ainda mais complexa.. Saímos de uma cultura onde fomos ensinados a descrever nossas dores, para um contexto onde não há, ou há pouco, alinhamento sobre o que estamos sentindo.

Dar nome a essas dores é o que chamamos de “labeling” no sensemaking: o ato de criar sentido a partir de algo que antes parecia difuso.

Em suma: sensemaking é sobre fazer sentido.

Da razão ao existir 

Agora passamos à Idade Moderna. René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês propôs ao mundo uma reflexão decisiva sobre a consciência humana. Para ele, apenas os seres humanos possuíam alma, já que os animais não teriam a capacidade de atribuir sentido às coisas. Essa visão, aliás, justifica a ideia de que as plantas existiriam para alimentar os animais e estes, por sua vez, para servir aos humanos, dada a suposta ausência de consciência da própria existência.

Descartes vinculou a noção de alma a consciência produzida pelo córtex pré-frontal, concluindo que, ao refletirmos sobre algo, confirmamos a nossa própria existência. Daí seu célebre aforismo: “Penso, logo existo.”

Séculos depois, em O Erro de Descartes, o neurocientista português António Damásio inverteu a lógica cartesiana ao discorrer sobre o fato de que a mente é uma criação do cérebro, e não ao contrário. Para ele, a mente não é uma entidade separada do corpo, mas fruto da biologia. Só existimos porque primeiro desenvolvemos mecanismos fisiológicos capazes de gerar pensamentos. Em suas palavras: “Existo, logo penso”. 

Valores que nos alinham 

É nesse ponto que entram ferramentas de interação social como bom senso, ética, moral e valores. Elas funcionam como referências coletivas para orientar quais comportamentos são considerados aceitáveis ou não.

Agora, pense na complexidade desse processo nas relações pessoais e profissionais do dia a dia. O desafio está em reunir mentes únicas em um coletivo de pensamentos – culturas plurais que, ainda assim, precisam refletir sentidos comuns.

Primeiro, porque ajuda a compreender que o ato de fazer sentido transforma o existir em perceber. Segundo, porque se o cérebro fabrica a mente a partir de cada uma de suas variações fisiológicas, podemos afirmar que cada mente produz seu próprio sentido. Ou seja: o mundo é percebido de acordo com o olhar de cada um de nós.

Por isso que ferramentas de interação social como bom senso, ética, moral e valores são importantes para maximizar a compreensão do sentido que damos à vida – delimitando, de maneira coletiva,  quais comportamentos são aceitáveis e quais não são.

Não somos iguais, mas podemos rimar

Agora, imagine essa complexidade nas relações pessoas e profissionais do dia a dia. Pense no desafio de contratar mentes únicas, singulares, para fazer parte de um coletivo de pensamentos, que formam culturas plurais, mas precisam refletir sentidos comuns. 

É nesse ponto que o sensemaking se torna essencial. Ele ajuda a trazer clareza em meio à ansiedade do dia a dia, promove alinhamento para as incompreensões das decisões alheias e melhora a comunicação nas interações sociais.

Porque o sensemaking não é a busca pela verdade, ele é a busca pelo sentido. 

É olhar para o passado e atribuir significado às experiências, de modo a criar uma compreensão plausível sobre o presente. 

Quando conseguimos “rimar” nesse processo – seja em um projeto, em um time ou em uma relação amorosa ou pessoal  – alcançamos uma compreensão coletiva sobre o sentido que construímos.

O  legado do sensemaking

Para garantir a implementação do sensemaking, você deve construir uma estrutura de comunicação que começa com a conscientização do passado e termina com a completa percepção do que realmente faz sentido. 

Para um exercício prático e realista,  recorro a uma experiência própria: um problema que eu mesmo tive na implementação de um novo produto. Mesmo com planos bem estruturados, investimentos financeiros e dedicação intensa da equipe, o lançamento inicial fracassou em termos de escalabilidade em seu lançamento inicial. Recorri, então, a quatro pilares estratégicos do sensemaking para reverter a situação, que compartilho no quadro a seguir. 

Os quatro pilares em ação 

1) Perceba o que não está claro

  • Antes de propor soluções, investigue os pontos cegos, criando espaço para mapear zonas de ambiguidade relacionadas ao lançamento do produto (qualidade, go-to-market.
  • Encoraje o time a explicitar o que não sabe: lacunas de informação, hipóteses conflitantes, métricas ausentes. Isso os ajudará a compreender os gaps da estratégia.
  • Refine a compreensão do problema: questionando o porquê do fracasso e capturando as diferentes leituras (respostas). 

2) Busque evidências no retrospecto

  • Levante casos passados,  internos e externos, de produtos com desafios similares; aprenda com o que funcionou e com o que falhou. Não precisa criar nada do absoluto zero.
  • Tenha certeza de que você compreende todos os pontos que formam o que o problema e do que ele se trata.
  • Colete o entendimento de todos os envolvidos sobre o problema em questão, por meio de histórias passadas similares que vivenciaram – e de que forma as relacionam a essa experiência nova. 
  • Colete padrões nas explicações do time, tanto na compreensão real do problema, quanto na confusão sobre ele. É preciso identificar os elementos que explicam a maior parte da falha na escalabilidade.

3) Construa uma narrativa plausível

  • Com as informações à mesa, encoraje o  time a estruturar uma conclusão que faça sentido.
  • Lembre: sensemaking é construção de sentido compartilhado, não busca de “verdade absoluta”. Sintetize a história com combinações de percepções coletivas. É sobre criar uma história plausível que todos possam concordar.

4) Aja e corrija o curso

  • O objetivo do sensemaking é facilitar a ação. O novo sentido construído deve servir como base central de um plano — com iniciativas, responsáveis, prazos, métricas e critérios de sucesso bem definidos.
  • Desenvolva um plano a partir do sentido construído: ele deve tanto solucionar a falta de escala do produto quanto explorar novas oportunidades de crescimento reveladas pelo processo de sensemaking.
  • Realize testes A/B e pilotos de baixo custo para validar hipóteses antes de escalar. Isso permite identificar o que funciona melhor sem grandes investimentos de tempo ou recursos. Monitore os resultados e ajuste rapidamente, se for o caso.
  • Feche o ciclo e comece novamente : incorpore aprendizados e reinicie o processo com as novas variáveis geradas pelo processo anterior.

O sensemaking é uma ferramenta diária, que deve estar presente em nossas interações para facilitar o sentido que damos ao que fazemos.

Trabalhar é sobre fazer sentido. Quando há clareza sobre o que fazemos — e sobre como fazemos — surge a motivação necessária para sustentar a consistência. É desse alinhamento que surge o maior resultado esperado da liderança contemporânea. 

Na minha visão, esse legado é: A AUTONOMIA.

Em outras palavras, em terra de cérebros que percebem o mundo pelos sentidos, quem faz sentido é rei (mas nem tudo que faz sentido é real).*

*aguardem cenas dos próximos artigos.

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Wesley Barbosa
Fundador da EduTech Become School, professor da Fundação Dom Cabral em liderança contemporânea e neurociências da performance, ex-executivo do Facebook (Meta) no Vale do Silício e do Baidu em Pequim, ex-sócio da XP Investimentos, e Idealizador da ONG chancelada pela Nações Unidas e acelerada por Stanford “Ajude o Pequeno”.

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