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Liderança e comunicação

Um diálogo entre você e a sua confiança para falar em público

Como negociar com a insegurança, transformar o nervosismo em presença e se comunicar com autenticidade

Tamy Freitas
8 de setembro de 2025
8 min de leitura
Um diálogo entre você e a sua confiança para falar em público

Um tempo atrás, conduzi uma jornada de aprendizagem para uma grande instituição financeira. Na abertura, como de costume, apresentei o contexto do tema, fiz o check-in com o grupo e estabeleci alguns acordos de convivência e conexão.

Já no primeiro intervalo, uma participante, diretora da instituição, se aproximou e disse: “Estou impressionada com a sua segurança ao falar em público. Você parece muito confortável nessa posição, invejável.” Em seguida, acrescentou: “Gostaria que a minha filha fosse assim como você. Teria dicas para ela?”. 

É sobre isso que eu quero falar hoje. Partindo desse episódio, proponho uma reflexão sobre um ponto essencial: a diferença entre a segurança percebida e a segurança sentida.

Com frequência, depois de palestras e eventos, escuto comentários como: “parece que você nasceu para isso” ou “você se sente muito à vontade diante de tanta gente”.

A realidade, no entanto, é outra: falar em público é desafiador para a maioria. Estudos indicam que cerca de 75% das pessoas sentem algum grau de ansiedade nessa situação. Mesmo quem domina o conteúdo nem sempre se sente confiante na hora de transmiti-lo.

Quando olho para trás, lembro de uma das primeiras vezes em que precisei expor minha visão em público: a defesa do meu trabalho de conclusão de curso, na faculdade. A experiência foi desafiadora. Senti-me questionada, pressionada a provar meu valor. Gaguejava, perdia facilmente a linha de raciocínio e cada “ãmmm” que escapava só aumentava o meu nervosismo. O que aconteceu comigo não é incomum. Para muitos, a ansiedade ao falar em público se manifesta, sobretudo, fisicamente: taquicardia, suor, mãos trêmulas.

Naquele momento, ainda sem plena consciência do meu valor, precisei negociar comigo mesma – um diálogo interno que, sem saber, se tornaria uma das ferramentas mais importantes da minha vida profissional.

O diálogo foi mais ou menos assim:
— Ok, sim, existem doutores e mestres na banca e eles estão me avaliando. E na plateia, estão minha mãe, colegas e professores. Certo.
— Mas alguém aqui estudou esse tema tanto quanto eu?
— Alguém passou um ano inteiro imerso nesse assunto?
— Alguém entrevistou pessoas, leu dezenas de artigos, construiu análises como eu fiz?
— Não.
— Então, se existe alguém aqui que pode falar sobre isso, sou eu.

Parece simples, mas funcionou. A voz estabilizou, as ideias começaram a fluir naturalmente e o resultado foi claro: “Nota 10. Sua apresentação mostrou claramente o quanto você domina o assunto.”

Desde então, passei a utilizar essa mesma lógica muitas vezes – em reuniões para apresentar projetos, na hora de defender ideias, para dar palestras ou aulas. Mas, logo, percebi uma limitação: nem sempre estaria diante de um público em que eu fosse a maior especialista. Haveria relações de poder, pessoas mais experientes e cenários muito mais complexos do que um TCC. 

Foi nesse ponto que precisei atualizar e expandir essa “ferramenta”. Entre as melhorias, incluí:

  1. Não se compare
    Sempre haverá pessoas que tiveram mais estrutura, puderam contar com assessoria, realizar imersões, viagens ou capacitações. Isso não diminui meu espaço. Pelo contrário: reforça que conquistei um lugar de fala legítimo – mesmo diante de um público altamente qualificado. Cada um tem seus motivos para estar ali; eu também tenho os meus.
  2. Lembre-se do caminho percorrido
    A trajetória de cada pessoa é única. As barreiras que superei para estar nesse espaço são marcas, aprendizados, vitórias e derrotas que forjaram minha força e minha resiliência. Cada bolha que furei para chegar a um determinado lugar só reforça que eu, mais do que ninguém, mereço ocupá-lo.
  3. Tudo bem se alguém sabe mais do que você
    Talvez eu não tenha lido todos os livros ou feito todos os cursos; talvez eu não saiba tudo que se pode saber sobre aquele assunto. No entanto, daquilo que sei, me preparei.  E, no recorte que apresento, o que há de original e autêntico? Que significado único ofereço? Que reflexão consigo provocar? Muitas vezes, só a minha vivência, minha trajetória e o lugar de onde venho permitem lançar uma perspectiva singular — e ela pode ser extremamente valiosa, capaz de ampliar o olhar de muitos sobre o assunto.
  4. Desencane se todos estão prestando atenção
    É comum, ao olhar para a plateia, você notar alguém digitando no celular, rindo ou navegando no Instagram ou TikTok. É normal você acreditar que a falta de atenção do público seja reflexo da sua didática, do tom da sua voz ou da forma como conduz a fala. Mas não é assim. Você não pode decidir pelo outro. O que pode — e deve — fazer é manter o foco em entregar sua mensagem da forma mais relevante possível. Foque sua energia, seu olhar e sua atenção para quem realmente está presente e disponível para escutar.
  5. Valorize o seu jeito como um diferencial
    Existem vários tipos de comunicadores – e nenhum deles é o “certo”. Cada pessoa tem um ritmo, um senso de humor, uma estética e oferece experiências diferentes ao público. Basta lembrar de seus professores na escola: o mais extrovertido não, necessariamente, foi o que mais contribuiu para o seu aprendizado. Assuma a sua personalidade. Tentar ser alguém que você não é só adiciona esforço desnecessário a um desafio que, por si só, já exige muito.
  6. Acredite que prestígio não vem só de títulos
    Mestrado e doutorado são caminhos valiosos, mas não exclusivos. Experiência, vivência, cursos livres, artigos, livros, conversas, curiosidade e eventos também são fontes legítimas de conhecimento. O trabalho de pesquisa acadêmica é essencial para o avanço da sociedade, mas não é a única via: há outras fontes de conhecimento tão potentes e relevantes quanto para aprender e gerar valor.
  7. Respeite-se para ser respeitada
    Você, mais do que ninguém, precisa se admirar e reconhecer por que merece ser ouvida e estar em determinada posição. Admire sua própria trajetória e se aproprie de tudo o que a impulsionou. Se necessário, escreva, visualize, faça uma retrospectiva, fortalecendo, assim, a consciência de que o lugar que ocupa é legítimo.
  8. Estude. Isso ninguém tira de você
    Quando você se equipa de conhecimento, adquire boa parte do que vai lhe dar segurança para falar em público e ocupar espaços de protagonismo. Mantenha-se o máximo possível informada e atualizada, não para provar algo para os outros, mas para reafirmar a si mesma que você está preparada para estar ali.

Não sei se um dia estaremos totalmente livres da insegurança. Talvez a chave esteja em encarar o medo, negociar com ele e se expor gradualmente, até que aquilo que parece “fácil” para os outros se torne menos desconfortável para nós. 

No episódio de estreia do nosso podcast Autoras do Amanhã (Ser o que a gente é, de propósito), Monique Evelle – cofundadora da Inventivos e escritora – nos alerta que o caminho “vai ser a consistência. E a consistência vai entregar a excelência”. E enfatiza, em outro trecho da conversa: “Não tem PhD que vai fazer a gente se sentir suficiente”. 

O mundo não nos oferece segurança. Pelo contrário: somos testadas, questionadas e colocadas à prova o tempo todo. Por isso, reconhecer o próprio valor é um exercício diário. Experimente, exponha-se, ria dos erros, respeite o seu processo. E lembre-se: as pessoas que você admira também já passaram, e talvez ainda estejam passando, pelas mesmas inseguranças – só que a gente não vê. 

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Tamy Freitas
Tamy Freitas é especialista em aprendizagem e liderança, criadora do programa DELAS (CNEX) e fundadora da Hunu, consultoria que educação criativa que desenvolve experiências de aprendizagem focadas em inovação, impacto e desenvolvimento humano.

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