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Como negociar com a insegurança, transformar o nervosismo em presença e se comunicar com autenticidade
Um tempo atrás, conduzi uma jornada de aprendizagem para uma grande instituição financeira. Na abertura, como de costume, apresentei o contexto do tema, fiz o check-in com o grupo e estabeleci alguns acordos de convivência e conexão.
Já no primeiro intervalo, uma participante, diretora da instituição, se aproximou e disse: “Estou impressionada com a sua segurança ao falar em público. Você parece muito confortável nessa posição, invejável.” Em seguida, acrescentou: “Gostaria que a minha filha fosse assim como você. Teria dicas para ela?”.
É sobre isso que eu quero falar hoje. Partindo desse episódio, proponho uma reflexão sobre um ponto essencial: a diferença entre a segurança percebida e a segurança sentida.
Com frequência, depois de palestras e eventos, escuto comentários como: “parece que você nasceu para isso” ou “você se sente muito à vontade diante de tanta gente”.
A realidade, no entanto, é outra: falar em público é desafiador para a maioria. Estudos indicam que cerca de 75% das pessoas sentem algum grau de ansiedade nessa situação. Mesmo quem domina o conteúdo nem sempre se sente confiante na hora de transmiti-lo.
Quando olho para trás, lembro de uma das primeiras vezes em que precisei expor minha visão em público: a defesa do meu trabalho de conclusão de curso, na faculdade. A experiência foi desafiadora. Senti-me questionada, pressionada a provar meu valor. Gaguejava, perdia facilmente a linha de raciocínio e cada “ãmmm” que escapava só aumentava o meu nervosismo. O que aconteceu comigo não é incomum. Para muitos, a ansiedade ao falar em público se manifesta, sobretudo, fisicamente: taquicardia, suor, mãos trêmulas.
Naquele momento, ainda sem plena consciência do meu valor, precisei negociar comigo mesma – um diálogo interno que, sem saber, se tornaria uma das ferramentas mais importantes da minha vida profissional.
O diálogo foi mais ou menos assim:
— Ok, sim, existem doutores e mestres na banca e eles estão me avaliando. E na plateia, estão minha mãe, colegas e professores. Certo.
— Mas alguém aqui estudou esse tema tanto quanto eu?
— Alguém passou um ano inteiro imerso nesse assunto?
— Alguém entrevistou pessoas, leu dezenas de artigos, construiu análises como eu fiz?
— Não.
— Então, se existe alguém aqui que pode falar sobre isso, sou eu.
Parece simples, mas funcionou. A voz estabilizou, as ideias começaram a fluir naturalmente e o resultado foi claro: “Nota 10. Sua apresentação mostrou claramente o quanto você domina o assunto.”
Desde então, passei a utilizar essa mesma lógica muitas vezes – em reuniões para apresentar projetos, na hora de defender ideias, para dar palestras ou aulas. Mas, logo, percebi uma limitação: nem sempre estaria diante de um público em que eu fosse a maior especialista. Haveria relações de poder, pessoas mais experientes e cenários muito mais complexos do que um TCC.
Foi nesse ponto que precisei atualizar e expandir essa “ferramenta”. Entre as melhorias, incluí:
Não sei se um dia estaremos totalmente livres da insegurança. Talvez a chave esteja em encarar o medo, negociar com ele e se expor gradualmente, até que aquilo que parece “fácil” para os outros se torne menos desconfortável para nós.
No episódio de estreia do nosso podcast Autoras do Amanhã (Ser o que a gente é, de propósito), Monique Evelle – cofundadora da Inventivos e escritora – nos alerta que o caminho “vai ser a consistência. E a consistência vai entregar a excelência”. E enfatiza, em outro trecho da conversa: “Não tem PhD que vai fazer a gente se sentir suficiente”.
O mundo não nos oferece segurança. Pelo contrário: somos testadas, questionadas e colocadas à prova o tempo todo. Por isso, reconhecer o próprio valor é um exercício diário. Experimente, exponha-se, ria dos erros, respeite o seu processo. E lembre-se: as pessoas que você admira também já passaram, e talvez ainda estejam passando, pelas mesmas inseguranças – só que a gente não vê.
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