Status de leitura
Faça login para usar este recurso
©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.
O SaaS, a nova promessa do trabalho é simples: canse-se com propósito e chame isso de sucesso. Mas seguimos sorrindo, convencidos de que “pular na água” é seguro
“Pode vir que a água tá quentinha”. A frase é velha conhecida, quase sempre em tom jocoso, enviesada pelo machismo que faz da vida de casado uma piadinha. Mas o que me interessa aqui não é a metáfora conjugal, mas sim o que ela revela sobre o conforto que aprisiona, a especulação sobre o que não temos, e como a gente projeta nosso sucesso com base no que parece ser o êxito dos outros. Spoiler: só parece.
Nos últimos seis meses, conversei com muita gente de lugares e contextos diferentes. Nunca ouvi tanta gente dizer que não aguenta mais. Pessoas empregadas, com CLT, bônus, férias, benefícios… Gente que, em tese, “chegou lá”. Gente que se sente presa a um lugar de onde já saiu emocionalmente, mas do qual ainda depende financeiramente. A famosa gaiola de ouro.
Não importa o estágio da carreira, identifiquei algo mais profundo e, acredite, quem nem está relacionado a grana. Vi uma exaustão emocional, acompanhada de culpa. “Quem sou eu pra reclamar com esse salário?”, “como vou abrir mão desse pacote de benefícios?”, “e se não der certo lá fora?”.
E o mais curioso: enquanto essa turma fantasia sobre largar tudo, do outro lado tem gente vivendo malabarismo triplo carpado para sustentar a narrativa de que está tudo bem, ou até melhor. Gente que se fragmenta em mil funções para compor uma renda que parece colcha de retalhos. Da porta pra fora, está tudo ótimo, mágico e reluzente.
A verdade é que antes você se comparava com três pessoas. Hoje, compete com todos os algoritmos em coro.
Gasta-se mais tempo preenchendo planilhas e atualizando decks do que fazendo algo que gere valor real. As decisões seguem lógicas políticas indecifráveis. Estratégias mudam a cada trimestre. Reestruturações que ninguém consegue explicar. Primeiro se compra, depois se junta, depois se separa, depois se vende. Agora corta-se o custo – depois, os pulsos.
E o que se esgarça no meio disso tudo não é apenas a tal da cultura. Somos nós.
A instabilidade externa só amplia esse sentimento. Crises geopolíticas, polarização política, colapso climático e a sensação de viver um ano inteiro comprimido em uma semana. A inteligência artificial surge como mais uma camada: interfere em todos os níveis, implode funções e obriga adoções apressadas. Hype, bolha, disrupção, obsolescência. De novo.
O trabalho vai acabar ou não? Acredite: não vai. Só acabaria se fosse bom para a gente.
O conflito de gerações agora disputa não só a forma como se trabalha, mas o sentido que se atribui ao trabalho. Não conheço nenhuma liderança 40+ que não entre em parafuso com alguma frequência na interação com a turminha de 20 e poucos, infinitamente mais preparados, tanto quanto frágeis emocionalmente.
Mas um dos pontos mais perversos desse enrosco todo é a comparação. Hoje você compete com aquela figura que já correu 10k antes das 6h, meditou, alimentou o pet, respondeu e-mails, leu, transou e aprendeu a fazer sushi enquanto batia metas. Não basta fazer, é preciso inspirar e vender bem sua jornada. Tudo ao mesmo tempo. Sorrindo e aprendendo, no gerúndio mesmo.
Deve ser sintoma de que mesmo o desgaste precisa parecer motivacional.
Enquanto isso, a precarização com cara de futuro do trabalho domina a narrativa. Transforma o “só trabalhar” em algo quase vergonhoso. Quem segue empregado parece acomodado. Quem se demite, corajoso. O burnout vira case de sucesso.
O nome da vez é “talent as a service” (TaaS), um modelo de contratação flexível em que profissionais ou equipes especializadas são disponibilizados sob demanda, geralmente por tempo limitado ou para projetos específicos. Mas o que soa como inovação pode ser apenas precarização disfarçada de tendência. Empacotamos a liderança como um serviço plugável. No lugar de carreiras, entregáveis. Em vez de estratégias, action points com prazo de validade. Porque toda precarização precisa de nomes em inglês para soar inovadora.
Para alguns funciona: quem já tem reputação consolidada, capital social acumulado e fôlego financeiro suficiente. Mas para a maioria, o que se vende como flexibilidade é malabarismo entre projetos e a obrigação de parecer estar sempre “on fire”. Agora você virou um “hub de soluções” e precisa fazer a roda girar: o LinkedIn que vira palestra, que justifica o podcast, que gera conteúdo para validar o próximo contrato.
É como se a liberdade virasse outro trabalho, mais complicado que o trabalho.
Quando você deixa de ser funcionário e vira “solução temporária”, passa a viver em trânsito, num eterno não-lugar. A uberização subiu de elevador e mudou de roupa. No térreo, chamam de exploração, no 20º andar é “modelo de negócios flexível”.
Te contratam sob o argumento do custo e da agilidade. O movimento importa mais do que o resultado. A autoridade dura o tempo de um post no LinkedIn. A cada novo projeto, espera-se que você traga uma nova visão, novas métricas, novos rituais — mesmo que isso signifique enterrar o que ainda estava em andamento. A cultura do agora engole qualquer tentativa de continuidade.
Não há legado. Só um backlog.
Urgência é o novo estado natural. Aceleramos tudo e confundimos velocidade com competência. Em seis meses, condensamos o que antes levava dois anos para acontecer. Sem falar nos outros três para entendermos que é óbvio que ia dar errado.
Como bem lembra Silvio Meira, “toda decisão que sacrifica o longo prazo pelo curto está condenada, mesmo que funcione num primeiro momento”.
As metas são trimestrais e os mandatos, efêmeros. Quando tudo é emergência, quem responde pelo que acontece depois? O resultado é um compilado de decisões imediatistas, tomadas por quem já sabe que não estará por perto quando as consequências chegarem.
O pensamento e a articulação coletiva viraram relíquias, porque agora cada um é “CEO da própria vida”. CEO de uma empresa unipessoal, ou seja, um autônomo disfarçado de líder. A crítica não é ao modelo em si, mas à ideologia que o sustenta: a de que tudo é escolha pessoal.
Como se a precariedade fosse opção.
Como se o colapso das instituições fosse plano de carreira.
Como se a ausência de garantias fosse o preço justo da liberdade.
Transformamos problemas coletivos em responsabilidades individuais. O cansaço é seu. A ansiedade é sua. A culpa também.
Quando personalizamos o dilema, agravamos suas consequências: isolamento, comparação permanente, vínculos frágeis. O “as a service” deteriora empregos formais, dissolve direitos, fragmenta solidariedades – e ainda assim nos convence de que se trata de uma “oportunidade de crescimento pessoal”.
Golpe de mestre: fazer o precarizado ser grato e autor da própria precarização.
O executivo “as a service” é o herói solitário da modernidade líquida. Carrega nas costas a promessa da disrupção, mas guarda no bolso a angústia de não pertencer a lugar nenhum. Vive no gerúndio: aprendendo, pivotando, adaptando, entregando.
Talvez o desafio seja não aceitar o discurso pronto. Não romantizar a fluidez. Não reduzir o debate a escolha binária entre CLT e PJ, carreira e portfólio, estabilidade e liberdade. Disputar o sentido da mudança, recusando a ideia de que precarização seja sinônimo de modernização. Porque se não disputarmos essa narrativa, vamos continuar sucateando uma relação que já é assimétrica por natureza, pois, quando concorremos entre nós, quem ganha é sempre o mesmo lado.
No feed alheio, a água vai estar sempre mais quentinha.
Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.