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Edição #42 do MIT SMR Brasil
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Muitas oportunidades e inspirações surgiram na Conferência das Partes que aconteceu na Amazônia; a seguir, destacamos algumas
“A COP de Belém foi um sucesso.” Essa foi a avaliação que Carlos de Mathias Martins, chairman da bolsa de créditos de carbono ACX Brasil, ligada à B3, e colunista desta MIT Sloan Review Brasil, fez sobre a 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro de 2025. Martins elenca duas razões para isso: “o evento manteve o espírito cooperativo entre as nações para equacionar o tema das mudanças climáticas” (havia um risco real de retrocesso em relação ao Acordo de Paris) e “se não temos o roadmap, que é complexo, colocamos de maneira bastante assertiva a discussão sobre transição energética – falou-se, de modo subjacente, nos pesados subsídios governamentais para a indústria petrolífera” (o que não havia acontecido antes).
Fora isso, o fato de ter acontecido na Amazônia deu um peso simbólico grande ao evento, que também está sendo chamado de “COP da ação”, uma vez que seu presidente, o embaixador André Corrêa do Lago e sua equipe são conhecidos pela orientação à ação e buscou o tempo todo imprimir esse ritmo ao evento.
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Vale a pena ler as 11 cartas do presidente Corrêa do Lago, que trazem as principais mensagens do evento, tanto políticas como práticas. MIT Sloan Management Review destaca três avanços, sem a pretensão de esgotar o assunto, porque são especialmente importantes do ponto de vista da gestão: o pacto climático global no setor de navegação, o protagonismo inédito da tecnologia e, talvez ainda mais importante, a ascensão da agenda dos biocombustíveis, que era evitada em edições anteriores da conferência. A China não teve o papel proeminente que alguns esperavam, oferecendo soluções ou demandas no vácuo dos Estados Unidos, mas apoiaram que muitos conteúdos importantes saíssem nas resoluções finais.
Poucos setores podem dizer que já escreveram, juntos, um pacto climático global. A navegação pode: o transporte marítimo foi o primeiro do mundo a firmar um acordo multilateral de descarbonização, estabelecendo metas que remodelarão frotas, combustíveis e portos nas próximas décadas. A recente decisão da IMO (Organização Marítima Internacional, na sigla em inglês) de adiar a implementação dessas medidas não muda esse destino, apenas estica o cronômetro de uma corrida cujo resultado já está definido. E, nesse intervalo, países capazes de se mover antes da largada oficial ganharão vantagem estrutural. O Brasil, com matriz renovável e rios que são corredores naturais de inovação, está exatamente nesse ponto de virada.
Foi essa leitura que levamos à COP30. Enquanto o mundo ajusta seus cronogramas, mostramos que a transição pode, e deve, começar agora. Com um investimento privado do Grupo Náutica, a apresentação nas Docas de Belém do JAQ H1, embarcação de 36 metros movida a hidrogênio de baixa emissão, transformou o futuro em experiência real. Mais de 2.000 visitantes a bordo, entre eles estudantes de escolas municipais, estaduais e universidades, viram, na prática, o que significa descarbonizar a navegação. O impacto foi simples e poderoso: quando o Brasil demonstra, ele ressignifica o debate.
Levantamento do Ideia Instituto de Pesquisa, com 1.502 entrevistados, reforça esse movimento. Um terço acredita que o País pode liderar o hidrogênio no mundo, e 35% defendem seu uso no transporte fluvial da Amazônia. A percepção pública está mudando, e isso pavimenta o caminho para políticas mais ambiciosas e investimentos de escala.
Com o acordo global já firmado e a implementação apenas postergada, o jogo agora é de estratégia. Ganhará liderança quem usar o tempo extra para acelerar, não para esperar. E o Brasil está apto a levantar essa onda.
Desde a COP 28, o Brasil está buscando incluir o tema de tecnologia na pauta da conferência, tendo incentivado a ITU (International Telecommunications Union) a fazer uma sessão sobre o estudo da Green Digital Action. Esse impulso para a discussão na COP foi muito importante, porque há uma tensão entre tecnologia e clima que não pode ser ignorada; tanto a tecnologia pode nos ajudar a alcançar todas as metas da COP como pode piorar sensivelmente o quadro com o consumo exagerado de energia e água.
Na COP29, até houve um pequeno avanço na inclusão de tech, com o tema sendo citado em uma carta da presidência. Porém, agora, mais de uma carta da presidência abordou o assunto, incluindo um documento do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade), e, nos primeiros dias, houve numerosos painéis dedicados a data centers, DPIs (infraestruturas públicas digitais, na sigla em inglês), DPGs (bens públicos digitais) e padrões, entre outros tópicos da área.
Há um crescimento exponencial de data centers nos últimos anos, mas ainda faltam dados que nos permitam estimar o consumo de recursos e o impacto real dessa indústria, seja negativo ou positivo – inclusive, porque varia conforme a região, relativamente ao fato de a energia ser renovável, o uso de água etc. (em regiões onde a água é escassa, por exemplo, isso é um problema). A IEA (Agência Internacional de Energia Elétrica) tem um site com dados dedicados a entender essa demanda de energia para tecnologias, principalmente energia para data centers, mas ainda é muito focado no que fazem as big techs nos Estados Unidos, especialmente no Texas e na Califórnia.
Discutir as DPIs foi muito relevante, e o Brasil se destacou pelo Cadastro Ambiental Rural, digital. Este permite identificar os donos das terras e que tipo de cobertura vegetal e verificar o compliance com políticas públicas – a partir dele, pode-se gerar financiamento, logística e outros serviços. Podemos ter (já existem, aliás) DPIs para detecção de desastres, incêndios, eventos climáticos extremos. energia (previsão energética, inclusive), logística etc. Há uma grande oportunidade relacionando DPI e clima.
Na agenda de DPGs, que são uma evolução do software aberto, a DPGA (Digital Public Groups Alliance) esteve presente na COP30, e está coordenando um plano de ação sobre isso, que pode democratizar identidade e muitas soluções, contribuindo para a redução da desigualdade, o que é um ponto sensível na agenda climática.
Vale comentar ainda a preocupação com padrões na área de tecnologia, principalmente da parte dos chineses. Alguns grandes bancos de dados acabam sendo infraestruturas necessárias para o desafio do clima – especialmente de imagens e dados de satélite – e há uma dificuldade imensa em fazer com que os dados dos satélites combinem entre si.
(Texto editado a partir de entrevista de Steibel a MIT SMR Brasil.)
Nas esferas mais relevantes na negociação climática em Belém, ficou claro que o montante de US$ 1,3 trilhão necessário para financiar a descarbonização do mundo deve vir em grande parte dos mercados de crédito de carbono. Embora seja cedo para dizer como o mundo vai transacionar esse valor, a ideia de que o carbono será o ativo que lastreia as iniciativas de descarbonização realmente saiu mais sólida da COP30.
Entre outras coisas, isso aconteceu porque o artigo 6º do Acordo de Paris, que estabelece regras para o comércio de crédito de carbono, teve avanços importantes, sobretudo no item 6.2, referente a acordos bilaterais entre os países (o que inclusive já sendo posto em prática por países como Singapura, Suíça e alguns nórdicos) e no item 6.4, que autoriza as empresas a comercializar crédito de carbono (em seu âmbito, foi aprovada uma metodologia de cálculo para aterros sanitários, o que vai facilitar tudo nos próximos anos).
O que foi decepcionante é que muitos de nós imaginávamos que os biocombustíveis seriam o tema central do Brasil nesta COP e não foram. Ainda se briga muito pouco por etanol, biogás, biometano, que poderiam ser pilar da transição energética global, integrando gestão de resíduos, segurança energética e mitigação de emissões de metano. O desmatamento e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) acabaram monopolizando o debate, fazendo com que desperdiçássemos a chance de enfatizar um produto que agrega muito valor para as nossas cadeias produtivas.
Pelo menos, foi lançado o plano global “No Organic Waste”, que visa reduzir 30% das emissões de metano provenientes de resíduos orgânicos até 2030, e o setor nacional dos biocombustíveis lançou o documento ”Belém Pledge”, assinado por entidades do agronegócio e de bioenergia, propondo um esforço internacional para quadruplicar combustíveis sustentáveis até 2035. O governo brasileiro também apresentou um protocolo interministerial focado no aproveitamento de resíduos urbanos, rurais e agroindustriais para geração de biogás/biometano – com metas.
Apesar da frustração, acredito que tanto o biometano como o biogás tem ótimas perspectivas nos próximos anos, porque são muito vantajosos em três frentes, como costuma dizer a Renata Isfer, que até recentemente presidiu a Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABiogás):
(Texto editado a partir de entrevista de Martins a MIT SMR Brasil.)
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