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Edição #42 do MIT SMR Brasil
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Um conjunto de KPIs que medem os limites dos impactos humanos no planeta em diferentes camadas ajudar as empresas a identificar onde podem agir para combater riscos – e encontrar oportunidades
Para que as empresas acompanhem de perto as mudanças em seus mercados e no ambiente operacional mais amplo, usar as métricas corretas faz toda a diferença. É isso que permite identificar oportunidades e reduzir a exposição a riscos.
Quando se trata de eventos climáticos extremos e do aceleramento das mudanças ambientais, os executivos precisam escutar os cientistas – e levar em conta os principais indicadores-chave baseados na ciência.
Nem é preciso dizer que as mudanças climáticas terão repercussões significativas para os negócios. Mas, tirando alguns setores em que as empresas já estão expostas a riscos ambientais maiores, essas mudanças podem ser vistas como voláteis, como algo incerto demais para ser planejado.
A hostilidade do atual governo dos Estados Unidos em relação à ciência climática e aos esforços internacionais para mitigar o aquecimento global pode afastar ainda mais a atenção de alguns líderes empresariais. No entanto, para aqueles que permanecem atentos à visão estratégica abrangente, esse é um momento oportuno.
Um conjunto público de oito KPIs pode ajudá-los a se planejar para um contexto empresarial mais amplo. Tão amplo que vai até as fronteiras do planeta. Esse modelo é sintetizado no framework ESB (fronteiras do sistema terrestre, em livre tradução do inglês).
Ele abrange não apenas os limites físicos dentro dos quais pode haver vida humana, mas também a forma como as transformações no planeta pode afetar desproporcionalmente alguns grupos e gerar resultados sociais negativos. A seguir você confere a lista das fronteiras ESB.
Em um artigo de 2009 na revista Nature, cientistas identificaram nove limites para o planeta. Cada um deles quantificava até onde o impacto humano seria ambientalmente seguro. Esses não são KPIs que buscamos alcançar. Embora cruzá-los aumente os riscos para a nossa sobrevivência, em 2023, seis deles já haviam sido ultrapassado.
Então, em 2023 mesmo, cientistas publicaram um novo artigo na Nature propondo um conjunto de oito fronteiras do sistema terrestre para nos ajudar a monitorar tanto a segurança quanto a justiça do sistema – ou seja, minimizar os danos que podem expor os humanos a riscos de morte, desnutrição, deslocamento forçado e acesso inadequado a recursos ambientais.
As oito fronteiras do framework ESB são:
Até o ano passado, apenas a atmosfera e as mudanças climáticas permaneciam dentro dos limites seguros. Mas, em 2024, pela primeira vez superamos o ponto de risco de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, tido como ponto crucial para combater o aquecimento global.
Tradicionalmente, muitas empresas estabelecem metas de sustentabilidade que podem resultar em melhorias incrementais, minimizando danos em vez de causar impactos positivos. À medida que rompemos mais desses limites planetários e que as expectativas dos stakeholders aumentam, essas abordagens incrementais são cada vez mais insuficientes. As fronteiras ESB oferecem às empresas uma estrutura estratégica para alinhar os esforços de sustentabilidade corporativa com os limites cientificamente definidos dos sistemas da Terra.
Analisar os limites do sistema terrestre ajuda a priorizar áreas de ação
Empresas que já aplicam o framework ESB, como Vaude, Holcim e Ørsted, nos mostram como essas fronteiras podem para ajudar líderes a gerir riscos de maneira proativa e estratégica, priorizando áreas de ação e fortalecendo o valor da marca. Suas iniciativas podem ser organizadas em três:
1. Construa uma compreensão compartilhada dos desafios da sustentabilidade. A sustentabilidade só tem significado se pensada em termos de sistema: mesmo que um negócio seja completamente sustentável no nível da empresa (ou seja, usando todos os recursos de maneira sustentável e justa), sua exposição a uma sociedade insustentável ainda o torna vulnerável. Ao adotar as fronteiras ESB, entender como suas próprias ações afetam os sistemas terrestres, as organizações podem sair de uma relevância que é limitada ao nível empresarial para uma que abrange o nível social, seguindo o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS).
A Vaude, fabricante alemã de roupas e equipamentos para atividades ao ar livre, usa as fronteiras ESB e as nove primeiras fronteiras planetárias para construir uma visão compartilhada e guiar sua estratégia. A empresa foi uma das primeiras a defender e adotar o framework ESB, acreditando que nenhum outro framework poderia oferecer a mesma visão integral das questões ambientais.
Os líderes de sustentabilidade da Vaude os consideram úteis para explicar questões ambientais e impactos materiais a colegas de fora do departamento. Veja, por exemplo, a fronteira planetária das “entidades novas”, que abrange os produtos químicos e materiais sintéticos que poluem os cursos d’água, como fibras sintéticas contendo microplásticos. Podemos compreender melhor esses impactos com o framework ESB, e, com isso, a Vaude conseguiu colocar em prática a meta de reduzir o uso de microplásticos em seus materiais.
No início, ela tentou medir seu impacto exato sobre os limites naturais, mas viu que era muito difícil. Assim, desenvolveu um entendimento de alto nível de como suas operações afetam tais limites, explicou os problemas internamente para aumentar a conscientização e fez um compromisso claro de reduzir seus impactos. Espera-se obter medições mais precisas à medida que as abordagens científicas avançam e os dados se tornam mais acessíveis.
2. Reúna esforços de sustentabilidade dispersos ou isolados. As fronteiras ESB oferecem uma visão integral e científica da sustentabilidade social e ambiental. Frameworks globais anteriores, como as fronteiras planetárias, tinham foco voltado a questões ambientais. Já os ODS da ONU têm sido mais ambiciosos. O framework ESB pode complementar outros frameworks para fornecer uma visão mais completa.
A Holcim, uma multinacional suíça do setor de construção, usa as fronteiras ESB para consolidar seus esforços de sustentabilidade. Ao ir além das iniciativas isoladas, as fronteiras ESB e o conjunto original de limites planetários permitiram que a Holcim [veja também este artigo] identificasse outros três impactos-chave que suas operações estavam tendo na natureza: uso de água, biodiversidade e mudanças no sistema terrestre.
As fronteiras ESB atuaram como uma verificação cruzada para sua avaliação de materialidade e forneceram uma base científica para priorizar questões. O objetivo é aliviar a pressão sobre a água doce, por exemplo, utilizando águas residuais, e aumentar a biodiversidade em seus locais operacionais para reduzir o impacto nas mudanças do sistema terrestre.
A Holcim fez parceria com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) para desenvolver sistemas de medição e relatórios para biodiversidade. Também está criando processos de medição baseados em tecnologia de geolocalização para obter dados sobre os impactos dos fornecedores e avançar sua estratégia de preservação ao longo da cadeia de fornecimento.
3. Forneça uma base científica para a elaboração de estratégias. Outros frameworks raramente consideram interconexões entre questões que tenham base científica. Porém, os impactos climáticos de cada uma das oito fronteiras ESB está interligada com as outras. Por exemplo, os biocombustíveis, que têm menos emissões de carbono que os combustíveis fósseis, podem pressionar as outras fronteiras, dependendo de sua origem e do método de produção usado. Se for necessário mais terreno para produzir biocombustíveis, haverá mais pressão na fronteira planetária da biodiversidade. O maior uso agrícola pode exigir mais uso de água e fertilizantes, influenciando os fluxos de nitrogênio.
Também é essencial considerar as questões sociais e ambientais em conjunto. Garantir que as necessidades básicas das pessoas sejam atendidas e proteger todos de danos significativos exercerá maior pressão sobre algumas fronteiras planetárias.
A Ørsted, multinacional dinamarquesa de energia que emprega mais de 8 mil pessoas, usa as fronteiras ESB como base científica para planejar estratégias. Na última década, ela fez a transição da exploração e produção de combustíveis fósseis para o desenvolvimento exclusivamente de energia renovável.
A estratégia da Ørsted é lidar com as mudanças climáticas e com o ecossistema natural de maneira integrada. As mudanças climáticas alteram os ecossistemas, tornando-os inabitáveis para algumas espécies. A biodiversidade, por outro lado, sustenta o seu funcionamento, fazendo com que os ecossistemas atuem como sumidouros de carbono e mitiguem o aumento das emissões.
A Ørsted busca alcançar impactos líquidos positivos na biodiversidade em todos os seus projetos de energia renovável encomendados a partir de 2030. Está com testes-piloto de mais de 20 projetos de biodiversidade, desenvolvendo sua própria estrutura de medição e experimentando monitoramento ambiental de DNA e soluções baseadas em IA para coletar dados de cada espécie.
Focar seus esforços no clima e na natureza juntos faz sentido tanto do ponto de vista científico quanto comercial. Ao gerir a saúde dos ecossistemas onde atua, a Ørsted está se protegendo contra riscos físicos e reputacionais associados ao uso do solo, além de ajudar a administrar a crescente pressão dos stakeholders para conservação da biodiversidade.
Como próximo passo, e alinhada com as fronteiras ESB, a Ørsted está integrando questões comunitárias em sua estratégia. Ela reconhece que soluções para o clima e os ecossistemas também devem garantir justiça social e atender às necessidades das comunidades locais, especialmente as mais vulneráveis.
Estabelecer uma estratégia acionável e mensurável, alinhada com as fronteiras ESB, exige trazê-los para o nível do negócio ou, em outras palavras, determinar qual parcela do espaço seguro e justo para a humanidade pode ser destinada a cada ator econômico. Reduzir as fronteiras ESB para players específicos permite que um esforço de sustentabilidade seja descrito como “baseado na ciência”.
Mas isso é algo complexo, e atualmente não existe uma abordagem padronizada ou comumente aceita. A ONG Science Based Targets Network planeja trabalhar com a organização Earth Commission, formada por cientistas das áreas naturais e sociais, para desenvolver uma abordagem consistente para que as empresas traduzam seus impactos para o arcabouço global do framework ESB.
Pesquisas acadêmicas identificaram 11 abordagens diferentes de compartilhamento para reduzir o espaço operacional seguro para níveis de campo, cidade, indústria, empresa e produto. Dependendo da forma de compartilhamento, os resultados podem variar, o que destaca a necessidade de estabelecer práticas comuns.
À MEDIDA QUE OS MÉTODOS BASEADOS EM CIÊNCIA para medir o impacto climático continuam a avançar, as empresas poderão desenvolver estratégias acionáveis que funcionem dentro de um espaço seguro e justo. Elas não devem esperar que todos os indicadores sejam medidos e verificados. Já cruzamos diversos limites. As empresas não têm tempo a perder.
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