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Edição ##47 do MIT SMR Brasil
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Como crises de empresas como Southwest Airlines e Microsoft poderiam ser mais bem gerenciadas? Com base em ampla pesquisa, este artigo sugere que capacidades superiores em sete áreas críticas de atuação fazem toda a diferença
Todo líder gosta de acreditar que sua organização está preparada para enfrentar uma crise. Mas, quando ela acontece, frequentemente expõe fragilidades profundas que já existiam no centro da organização.
Considere o caso da Southwest Airlines. Durante uma tempestade de inverno, em dezembro de 2022, a empresa sofreu um colapso operacional:17 mil voos foram cancelados, cerca de 2 milhões de passageiros ficaram retidos e as perdas chegaram a aproximadamente US$ 800 milhões.
O que estava no cerne dos problemas, porém, não era o mau tempo, mas uma infraestrutura de TI envelhecida e negligenciada que levou ao colapso dos sistemas de escalas e agendamentos da companhia. A comunicação desmoronou, e as equipes da linha de frente se viram improvisando soluções de maneira isolada.
Compare isso com a Microsoft. Uma grande queda em março de 2021 deixou milhões de usuários do Teams, Outlook e Microsoft 365 sem acesso aos sistemas em nuvem. Quase imediatamente, porém, uma resposta à crise totalmente integrada foi ativada. A queda foi contida e os serviços foram restabelecidos no mesmo dia. Importante: a Microsoft fez uma análise detalhada da causa-raiz e, nos meses seguintes, acelerou seus investimentos em redundância de sistemas e transparência de incidentes. Em outras palavras, a Microsoft não apenas sobreviveu à crise, mas também a usou para se tornar uma organização ainda mais resiliente depois disso.
Esses incidentes levam a uma pergunta óbvia: por que algumas organizações paralisam diante de uma crise, enquanto outras entram em ação e habilmente minimizam os danos?
Fizemos essa pergunta a líderes que enfrentaram diretamente um evento perturbador de alto risco. Nossas entrevistas reuniram figuras que ocupam cargos políticos de alto escalão, posições militares e governamentais, além de executivos seniores de grandes empresas globais [veja quadro “A pesquisa”].
Com base nos insights desses líderes, identificamos sete capacidades que toda organização precisa desenvolver para enfrentar crises de modo eficaz. Como a maioria das empresas já possui essas habilidades, ainda que de maneira parcial ou desigual, também definimos como cada capacidade se manifesta em termos de maturidade.
O resultado foi o que chamamos de “Modelo dos 7 Cs“ . A seguir, apresentamos o modelo e de que forma ele pode ser utilizado como uma lente analítica para revisar e avaliar os pontos fortes e as vulnerabilidades de uma organização na gestão de crises.
Nossos entrevistados identificaram como essencial a capacidade de executar as seguintes práticas organizacionais em qualquer situação de crise:
1. Contingência. Preparar-se antecipadamente para cenários críticos e definir responsabilidades desde o início, para que todos saibam como agir quando a crise surgir, é fundamental para sobreviver a ela.O CEO de uma importante empresa dos setores de eletrônicos e saúde relatou, por exemplo, que a organização desenvolveu uma espécie de “memória muscular” ao realizar repetidos testes de estresse em sua cadeia de suprimentos. Como resultado, quando a pandemia de covid-19 começou, as equipes já sabiam exatamente o que fazer, como reagir e como coordenar a resposta da organização.
2. Clareza. Comunicação transparente e clara é essencial em uma crise. Isso não significa transformar o desastre em um comunicado de imprensa polido: significa se comunicar rapidamente e com honestidade. O CEO de uma grande organização de serviços profissionais aconselhou líderes a divulgar apenas o que sabem ser verdade, alertando: “Você não pode voltar atrás no que já disse”. Como bem resumiu um ex-primeiro-ministro de um país da Europa Ocidental: “As pessoas conseguem lidar com más notícias. O que elas não conseguem suportar é a confusão”.
3. Coordenação. Líderes eficazes conectam áreas que normalmente operam de maneira pouco integrada antes que uma crise aconteça. Eles constroem relações de confiança e estabelecem rotinas de colaboração para que, diante de um problema, diferentes equipes consigam agir de modo coordenado e ágil. A resposta da Capital One a uma violação de dados em 2019 ilustra bem como esse princípio é colocado em prática: quando um cibercriminoso roubou informações pessoais de cerca de 106 milhões de clientes americanos, as equipes multifuncionais previamente estruturadas pela empresa agiram rapidamente para conter os danos e coordenaram ações com as autoridades para possibilitar a prisão rápida do autor.
4. Controle. Bons líderes mantêm a ordem em uma crise. Isso não significa centralizar todas as decisões, mas, sim, definir previamente as responsabilidades, esclarecer quem decide o quê e capacitar as pessoas mais próximas da situação a agir quando necessário. Como afirmou o ex-presidente do banco central de um país europeu: “Controle não é sobre microgestão. Trata-se de manter o sistema estável para que outros possam agir com confiança”. A resposta do Walmart ao furacão Harvey nos EUA (sobretudo no Texas), em 2017, ilustra bem esse princípio. A empresa deu autonomia aos gestores locais para redirecionar caminhões e reabrir lojas na região de Houston conforme julgassem necessário, acelerando a recuperação operacional e reforçando a confiança dos clientes na capacidade de resposta da companhia.
5. Compaixão. Demonstrar empatia genuína por todas as pessoas afetadas por uma crise, tanto dentro quanto fora da organização, ajuda a construir credibilidade e confiança e, sobretudo, cria tempo para lidar com a situação. “Mostrar que você se importa com as pessoas e com sua segurança constrói uma confiança inabalável”, afirmou um ministro da Defesa entrevistado pelos autores. “Liderança não é estar no comando. É cuidar daqueles que estão sob sua responsabilidade”, completou.
6. Confronto. Os líderes devem encarar as duras verdades desde cedo. A crise do Tylenol, da Johnson & Johnson em 1982, é um exemplo clássico: em vez de negar que cápsulas de seu medicamento para dor haviam sido contaminadas com cianeto ou de adiar uma declaração pública, a empresa imediatamente enfrentou a gravidade da ameaça, recolhendo 31 milhões de frascos de remédios e investindo tempo na reconstrução da confiança pública por meio de uma atuação transparente e decisiva.
7. Continuidade. Os melhores gestores de crise não seguem simplesmente em frente depois que a crise já passou. Eles realizam “autópsias”, análises aprofundadas do que aconteceu, captando lições que podem ajudá-los a construir resiliência e a preparar melhor a organização para um próximo desafio. A Shell, por exemplo, conduz debriefings sistemáticos após cada incidente para garantir que toda disrupção fortaleça os reflexos da empresa de petróleo e gás, de modo a torná-la mais preparada para responder a novos eventos críticos.
É importante não enxergar esse framework simples como um checklist. Todas as capacidades precisam estar em funcionamento, em algum grau, porque elas se reforçam mutuamente e, juntas, tornam a organização mais resiliente. Contingência sem clareza gera confusão; compaixão sem confronto leva à inação; controle sem coordenação cria gargalos. Cada capacidade pode restringir ou amplificar as demais. E, segundo os líderes entrevistados, organizações que conseguem atravessar crises de modo eficaz são aquelas em que esses sete elementos funcionam de maneira integrada, sustentados por rotinas sólidas e uma cultura organizacional consistente.
Todas as organizações possuem, em algum grau, os 7Cs. Como observou o presidente de uma importante empresa de tecnologia entrevistado pelos autores, porém, algumas dessas capacidades já foram testadas e fortalecidas na prática, enquanto outras ainda permanecem em desenvolvimento.
Em outras palavras, as capacidades de gestão de crises evoluem ao longo de cinco níveis de maturidade, que classificamos como reativo, consciente, definido, integrado e estratégico:
O verdadeiro poder do nosso framework está em sua capacidade de diagnosticar desequilíbrios e imaturidade em um sistema organizacional. Por isso, estruturamos cada capacidade segundo cinco estágios de maturidade, permitindo que o modelo funcione tanto como ferramenta de avaliação quanto como guia para desenvolvimento organizacional.
O objetivo do exercício, no entanto, não é padronizar as capacidades por estágio, mas construir coerência entre elas. Nem todas as organizações precisam ser igualmente maduras em todos os 7Cs. Mas, para resistir à pressão de uma crise, é necessário haver maturidade suficiente em cada uma dessas dimensões. Como bem resumiu um líder do setor de serviços profissionais entrevistado: “Uma empresa pode sobreviver a deficiências em uma área, mas somente se o restante do sistema estiver coeso”.
Ao revisarem o framework, então, os líderes devem começar a avaliar quais capacidades estão subdesenvolvidas e, portanto, têm maior probabilidade de se tornarem fonte de vulnerabilidade em uma crise. Também devem procurar onde as capacidades estão desequilibradas. Por exemplo: a organização está supercentralizando o controle em detrimento da coordenação?
O caso a seguir mostra que é fundamental equilibrar os 7Cs em diferentes níveis de maturidade para que o sistema organizacional consiga funcionar de maneira eficaz sob pressão.
Como o JPMorgan Chase sobreviveu à turbulência de 2023
Em março de 2023, quando os colapsos do Silicon Valley Bank, do Signature Bank e, posteriormente, do First Republic Bank desencadearam a maior turbulência bancária desde 2008, o setor enfrentou saídas superiores a US$ 500 bilhões em poucas semanas e uma queda de 20% no índice KBW Nasdaq Regional Banking Index.
Em meio ao pânico, o JPMorgan Chase – que administrava mais de US$ 3,7 trilhões em ativos e US$ 1,9 trilhão em depósitos –atuou como um estabilizador sistêmico. Em poucas horas, ativou sua arquitetura de resposta a crises: uma “sala de guerra” 24 horas que reunia equipes de tesouraria, risco, comunicações e jurídico; modelagem de cenários ao vivo de posições de liquidez; e atualizações horárias compartilhadas com o United States Department of the Treasury, o Federal Reserve e a Federal Deposit Insurance Corporation.
Vista pela ótica dos 7Cs, a maturidade da empresa em gestão de crises era evidente. A coordenação entre divisões e reguladores foi imediata e disciplinada, apoiada por protocolos de escalonamento pré-definidos e painéis de dados compartilhados. O controle era forte, mas flexível; as equipes regionais e de produto foram capacitadas a tomar decisões de empréstimos e liquidez dentro de limites nítidos. A clareza vinha de mensagens transparentes e consistentes.
Além disso, o CEO, Jamie Dimon, apresentou publicamente a situação como “controlável, mas séria”, transmitindo confiança sem minimizar a crise, enquanto briefings internos diários mantinham alinhados os 29 mil funcionários do banco em todo o mundo.
O JPMorgan Chase também adotou medidas voltadas à estabilização do sistema financeiro, oferecendo linhas temporárias de crédito a bancos regionais menores e priorizando o acesso a depósitos de varejo para preservar a confiança dos clientes.
A crise foi enfrentada de maneira explícita. Dimon e o CFO, Jeremy Barnum, reconheceram publicamente a fragilidade das instituições de médio porte e defenderam uma supervisão mais rigorosa da liquidez no setor. Mais importante, porém, é que continuidade e contingência já estavam profundamente institucionalizadas na organização, sustentadas por testes semanais de estresse de liquidez e simulações semestrais conduzidas com o conselho desde a crise financeira global de 2008.
Como resultado, quando os reguladores coordenaram a venda do First Republic Bank para o JPMorgan Chase, o banco conseguiu absorver US$ 173 bilhões em empréstimos e US$ 92 bilhões em depósitos ao longo de um único fim de semana, sem afetar o mercado.
O curioso é que no JPMorgan Chase a continuidade era um ponto fraco, mas o problema foi identificado e rapidamente corrigido. Testes recorrentes de estresse e simulações realizados ao longo dos anos haviam exposto vulnerabilidades relacionadas à resiliência digital e à concentração de liquidez, levando o banco a reforçar preventivamente essas áreas.
A principal tensão organizacional – entre controle e coordenação – também foi gerida intencionalmente: as equipes globais operavam com graus claros de autonomia, o que permitia evitar tanto o caos descentralizado quanto a paralisia provocada pelo excesso de centralização. O resultado foi um sistema que flexionava sob pressão e recebia impactos, mas não “quebrava”.
Sob o modelo 7Cs, a maturidade dá aos líderes a estrutura e a confiança necessárias para tomar boas decisões quando pressionados. Mas nossos entrevistados também enfatizaram uma lição principal: a prática importa. Isso exige um fator adicional de reforço: cultura, ou seja, a realidade diária de “como fazemos as coisas por aqui”.
Desenvolver uma culturaorganizacional alinhada aos 7 Cs é essencial. E a resposta da Microsoft à queda de 2021 ilustra isso com clareza. A análise conduzida após o incidente evitou a busca por culpados, concentrou-se no aprendizado organizacional e utilizou a crise comoum trampolim para a melhoria. Esse aspecto é decisivo porque, sem uma cultura aberta ao aprendizado, as organizações tendem a repetir os mesmos erros em crises futuras. Como resumiu um ex-CEO de uma empresa global de energia: “Você não pode controlar a tempestade, mas pode controlar como as pessoas se comportam durante ela. E isso é, fundamentalmente, uma questão de cultura”.
O FRAMEWORK DE CAPACIDADES QUE SURGIU DE NOSSAS ENTREVISTAS COM LÍDERES sobre gestão de crises oferece aos executivos uma linguagem comum para avaliar o grau de prontidão de suas organizações, identificar fraquezas e priorizar o fortalecimento de suas capacidades. O modelo também reforça que a gestão de crises é uma competência sistêmica, não um kit de habilidades individuais de um líder talentoso. E mostra que a resiliência depende de um equilíbrio entre capacidades complementares e oferece um caminho de evolução organizacional para a maturidade, ajudando líderes a avançar da consciência dos riscos para a maestria.
O desenvolvimento de cada uma das sete capacidades centrais de gestão de crises pode ser observado ao longo de cinco estágios de maturidade, do reativo ao estratégico. A tabela a seguir apresenta características típicas de cada estágio e pode servir como ferramenta para que gestores avaliem o nível atual de maturidade de suas organizações em cada uma dessas sete dimensões.
| Estágio de maturidade | 1. Contingência | 2. Clareza | 3. Coordenação | 4. Controle |
| Nível I – Reativo (resposta ad hoc) | Houve pouca ou nenhuma preparação. As respostas são improvisadas. | Mensagens conflitantes ou mudam de forma imprevisível. A comunicação é inconsistente. | Silos dominam, com coordenação mínima, levando a uma resposta fragmentada. | O controle é excessivamente centralizado ou totalmente fragmentado, sem clareza e sem consistência. |
| Nível II – Consciente (planejamento básico) | Os manuais existentes orientam as respostas, mas são usados de modo inconsistente. | Existem protocolos básicos de comunicação para atualizações de crise. | As equipes de crise são designadas, mas não totalmente treinadas ou preparadas. | A tomada de decisão é principalmente centralizada, reduzindo velocidade e flexibilidade. |
| Nível III Definido (execução estruturada) | Ensaios, testes de cenários e revisões do manual acontecem em intervalos definidos. | Comunicação de liderança é alinhada e oportuna, e define as expectativas de maneira clara. | Papéis, responsabilidades e caminhos para escalar são claramente definidos de cima para baixo e bem compreendidos. | Foram estabelecidas alçadas de decisão. A autoridade foi delegada para execução. |
| Nível IV Integrado (alinhado e incorporado) | Simulações de cenários são rotineiras e integradas entre as equipes. A preparação é praticada regularmente. | A mensagem é coerente entre canais e funções, com pouca ambiguidade. Existem muitas vozes, mas uma narrativa. | A orquestração multifuncional garante uma ação unificada e oportuna. | A autonomia adaptativa equilibra flexibilidade local com restrições estratégicas. Há flexibilidade dentro de limites claros. |
| Nível V Estratégico (resiliência contínua) | A percepção de riscos e oportunidades emergentes é contínua, e a adaptação ágil está incorporada nos ciclos de planejamento. | Comunicação é totalmente transparente, baseada em confiança e em tempo real em todos os canais. | Há alinhamento dinâmico entre as unidades, com ajuste fluido às condições mutáveis. Ações unificadas ocorrem em tempo real. | A tomada de decisão rápida e baseada em dados ocorre em níveis apropriados, com forte empoderamento da equipe. |
| Estágio de maturidade | 5. Compaixão | 6. Confronto | 7. Continuidade |
| Nível I – Reativo (resposta ad hoc) | Medo ou distanciamento moldam as interações. O ambiente emocional é instável. | Questões são negadas ou desviadas. Desafios não são enfrentados diretamente. | Após crises, os hábitos anteriores recomeçam, sem haver nenhum aprendizado significativo. |
| Nível II – Consciente (planejamento básico) | As respostas são procedimentais, com consciência emocional limitada. | Os problemas são reconhecidos, mas falta um engajamento mais profundo. | Os debriefings ocorrem esporadicamente, com acompanhamento limitado. |
| Nível III Definido (execução estruturada) | Compaixão é demonstrada, embora comportamentos de cuidado possam ser inconsistentes. | Líderes assumem responsabilidade pelas decisões, mas podem não se envolver profundamente com as causas sistêmicas. | As avaliações seguem eventos importantes e orientam melhorias nos processos. O aprendizado acontece, mas é esporádico. |
| Nível IV Integrado (alinhado e incorporado) | A liderança combina considerações empáticas com ação decisiva. | Questões difíceis são evidenciadas cedo e tratadas de modo transparente. | As lições aprendidas atualizam sistematicamente o planejamento e a estratégia de longo prazo. Insights são capturados de maneira consistente. |
| Nível V Estratégico (resiliência contínua) | Cuidados proativos e visíveis reforçam a confiança e a segurança psicológica. O cuidado está incorporado à prática de liderança. | Ações éticas e decisivas fortalecem a credibilidade e a reputação de longo prazo. | O aprendizado é codificado, apoia a inovação contínua e a resiliência fortalecida. |
Esses aprendizados reforçam uma conclusão central da nossa pesquisa: resiliência cresce a partir do ensaio, da reflexão, da experiência e das rotinas que estabilizam um sistema quando a pressão aumenta. Como resumiu um experiente membro de conselho de diversas empresas internacionais: “Resiliência não é o que você faz durante a crise; é o que você construiu antes dela”.
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