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Por que todo líder precisa administrar a sua ansiedade - e a dos outros - e como os conceitos sobre segurança psicológica de Amy Edmondson nos oferecem caminhos para isso
Líderes não criam apenas estratégias – eles criam atmosferas. E muitas vezes, sem perceber, cultivam um clima de ansiedade. Essa tensão silenciosa corrói a confiança, mina a criatividade e contamina a segurança psicológica. Antes de discutir práticas de liderança, precisamos enfrentar a pergunta: como gerenciamos nossa própria ansiedade e a dos outros?
Amy Edmondson, professora de Liderança e Gestão na Harvard Business School e uma das principais referências globais no tema, apresentou em 2018 (lançado no Brasil em 2020) uma ideia que transformou o debate sobre gestão. Mais do que conviver construtivamente com erros – foco de sua obra seguinte – Edmondson demonstrou que as empresas têm melhor desempenho quando criam ambientes nos quais todos se sentem seguros para expressar ideias, testar hipóteses, experimentar e até errar, compartilhando o que aprenderam no processo.
Revirei todo o material produzido por Amy Edmondson sobre o tema e hoje quero abordar uma questão que a professora ainda não explorou diretamente, mas que, de certa forma, permeia toda a sua obra: a ansiedade.
Embora seja onipresente, a ansiedade vem perdendo espaço nas discussões sobre ambiente de trabalho, ofuscada por temas como burnout e segurança psicológica. No entanto, ela não apenas precede esses debates como tem um potencial enorme de corroer qualquer ambiente de trabalho, especialmente quando gerada pelo próprio líder.
Existem hábitos bons (escovar os dentes) e ruins (fumar) e todos concordam que habituar-se a um (pequeno) nível de ansiedade é saudável porque traz foco. Thomas Borkovec, professor emérito de psicologia na Pennsylvania State University e um dos principais pesquisadores na área de ansiedade e transtornos relacionados, levantou uma bola importante em 1985: “Ansiedade é um hábito, antes de ser um distúrbio”.
Segundo Borkovec, a maioria das pessoas ansiosas normalizou a ansiedade, transformando-a em um conjunto padrão de reações, que pouco ou nada têm a ver com a gravidade da situação. E menos a ver com sua predisposição genética, mas antes com a forma com que foram criadas e com suas primeiras experiências acadêmicas e profissionais. Então boa parte dos 80% referidos acima pode ser administrado, desde que se compreenda que se trata de um hábito. O artigo original dele está aqui.
Dois anos depois do artigo do prof. Borkovec, a empresa farmacêutica Eli Lilly lançou o ansiolítico Prozac, que rapidamente tornou-se um fenômeno cultural. Inaugurou a era das “lifestyle drugs”. De uma hora para a outra, surge a sedutora mensagem: a ansiedade é um transtorno médico, com solução farmacêutica. Uma pílula resolve tudo. O mundo rotulou o resto de papo de divã. E, fora umas poucas pessoas no mundo da psicologia, todo mundo esqueceu do Borkovec, que pelos trinta anos seguintes continuou pesquisando e publicando sobre ansiedade e temas correlatos.
Atualmente aposentado pela Pennsylvania State University, Borkovec esteve no Brasil em 2008 para uma série de palestras. Na ocasião, concedeu uma ótima entrevista à psicóloga Adriana Nunan, do departamento de psicologia da PUC-RJ, que pode ser conferida aqui.
Mas voltando aos dias de hoje – com isso tudo na “bagagem” – podemos dizer que a ansiedade é:
De acordo com o médico neurologista Leandro Teles, autor de O Cérebro Ansioso: Aprenda a Reconhecer, Prevenir e Tratar o Maior Transtorno Moderno, 80% dos casos – ou 4 em cada 5 pessoas – podem ser tratados sem recurso de abordagens terapêutico-farmacológicas. Ainda assim, há quem veja a ansiedade como um mal necessário, valorizando a adrenalina que ela traz.
Para alguns líderes, isso se traduz na sensação de serem os “salvadores da pátria”, conferindo à equipe um caráter quase messiânico. Podemos chamar esse fenômeno de “adrenalina messiânica”.
Isso é ainda mais evidente quando se trabalha em uma ONG. Como a maioria dessas organizações perseguem objetivos que, na prática, são inalcançáveis no ciclo de vida de seus colaboradores (como, por exemplo, acabar com a fome no mundo), é comum observar que a “adrenalina messiânica” se torna um ingrediente crítico para manter o engajamento e a motivação.
E aí vão alguns aprendizados retirados das minhas sessões de coaching com quem lidera equipes:
E agora você deve estar se perguntando: está bem, mas o que o trabalho da professora Amy Edmondson, mencionado no início desta coluna, tem a ver com tudo isso mesmo? Eu te respondo: tudo!
Recentemente, a autora chamou atenção para usos bem-intencionados, porém contraproducentes, de suas próprias ideias. Em um artigo ainda sem tradução para o português (What People Get Wrong About Psychological Safety, junho de 2025), escrito em parceria com Michaela Kerrissey, ela destacou seis equívocos comuns sobre segurança psicológica, que reproduzo a seguir. São conceitos que, quando trabalhados, ajudam a criar clareza, previsibilidade e confiança – três pilares fundamentais para reduzir a ansiedade no ambiente de trabalho.
1. Segurança psicológica não quer dizer ser simpático a ponto de evitar discussões. A segurança psicológica só existe quando as pessoas são delicadamente diretas e oferecem feedback construtivo.
2. Segurança psicológica não quer dizer que todas as ideias tenham que ser apoiadas. Claro que o líder deve considerar todas as contribuições, mas quando decide não tem que concordar com todo mundo.
3. Segurança psicológica não significa estabilidade dos empregos. Não existem mais empregos estáveis, a menos que você seja funcionário público concursado!
4. Segurança psicológica não reduz em nada a responsabilização das pessoas. Todo mundo é responsável pelos próprios erros. E o líder pode e deve lidar com eles todos.
5. Segurança psicológica não pode ser imposta nem legislada. Ela se constrói no dia a dia, uma interação de cada vez – no entanto, aqui, vale um adendo: no Brasil existe a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que determina a inclusão da avaliação de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO). A norma não garante, por si só, a criação de um ambiente psicologicamente seguro, mas funciona como um marco regulatório importante, que pressiona as organizações a olharem de forma mais estruturada para o tema.
6. Ninguém precisa esperar por uma mensagem presidencial para acontecer. Todo colaborador com mais de três subordinados diretos pode e deve iniciar imediatamente seu próprio programa de segurança psicológica.
Observe que as observações de Edmondsontocam de forma indireta no tema que discuto hoje. Se segurança psicológica é o terreno fértil para que equipes prosperem, então a gestão da ansiedade é a prática indispensável para cuidar desse solo.
Líderes não podem se dar ao luxo de ignorar o impacto silencioso (mas poderoso) da ansiedade nas decisões, na colaboração e no desempenho coletivo. É preciso reconhecer seus sinais, compreender suas raízes e agir com intencionalidade. E esse movimento deve começar na consciência do próprio líder para então se espalhar pelo comportamento de toda a equipe. Cultivar confiança em meio ao inevitável ruído emocional do mundo corporativo é o desafio de hoje.
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