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Quem nunca teve um desses como chefe? Uma paródia invertida do best-seller de Stephen Covey, que expõe o efeito dominó das falhas de liderança nas organizações
Alguns líderes inspiram. Outros ensinam (pelo mau exemplo). Se você reconhece seu chefe em algum dos hábitos abaixo, não é coincidência. Este é um manual involuntário – inspirado em Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, de Stephen Covey – de como destruir moral, criatividade e resultados. Tudo em nome da “boa gestão”. Um guia infalível para quem deseja destruir a cultura organizacional (com método e autoridade).
1. Trate o futuro como um prolongamento do passado
Você já tem problemas suficientes aqui e agora. Jamais se antecipe aos acontecimentos: a maioria das encrencas se auto-resolve antes de chegar a você.
2. Erradique os erros na empresa
Incentive as pessoas a errar menos e a jamais alardear os erros que cometeram. Desincentive iniciativas individuais. Demita quem resolver algo sem consultar você; dê prioridade a quem pediu desculpas por ter feito isso. Tato e carisma são habilidades supervalorizadas. Medo dá mais resultado a curto prazo. E promova quem menos decide: afinal, essas pessoas erram pouco.
3. Delegue o mínimo possível
Sente em cima de todos os dados: informação é poder. Centralize todas as decisões, em particular aquelas que envolvam satisfação de clientes. Seus subordinados – todos eles sabidamente com pouca iniciativa e nenhum julgamento – não têm disciplina para pensar, quanto menos para agir. Seu papel é educá-los para obedecer sem questionar. E delegar para cima (vulgo para você) quando em dúvida.
4. Não deixe o trabalho te distrair
Não permita que as distrações do dia-a-dia atrapalhem suas principais responsabilidades: puxar o saco do chefe, passar duas horas no almoço com a influenciadora digital de plantão, e – que horror! – trabalhar um dia inteiro!
5. Marque reuniões com o objetivo de marcar a próxima reunião
Lembre que você é a pessoa mais bem remunerada da sala e comporte-se de acordo. Diga o que lhe vier na telha e não perca nenhuma chance de demonstrar erudição. As pessoas sempre se lembrarão das pérolas de sabedoria que você trouxe para a reunião! Além de citar a si próprio, cite, nesta ordem, Winston Churchill, Albert Einstein, Napoleão Bonaparte, e Maquiavel. Não importa se fora de contexto.
6. Ignore as forças externas atuando sobre a empresa
Clientes e fornecedores só pensam em defender seus próprios interesses e não entendem o que sua empresa faz. Tradução: não têm nada a contribuir. Trate recrutamento, treinamento e desenvolvimento como temas meramente táticos. Ignore todos os programas de Diversidade e Inclusão: essa moda vai passar!
7. Orçamento em pedra, futuro em pó
O orçamento anual é um exercício sagrado que será esculpido em granito e pautará os doze meses seguintes de atividade. Demita quem não atingir aqueles números. Lembre de tratar custos fixos como fixos e custos variáveis como variáveis. E que a longo prazo estaremos todos mortos!
8. Vença (mesmo que ninguém esteja competindo)
Pense sempre em modo ganha/perde: afinal, você, como o principal executivo, tem a obrigação de chegar na frente em todas as discussões.
9. Seja desagregador
Lembre que a fofoca de corredor é a única forma fidedigna de comunicação corporativa. E que dividir para conquistar é o seu lema!
10. Aperfeiçoe suas habilidades destrutivas
Pelo pelo uma segunda-feira por mês, escolha uma área da empresa e inicie uma rixa interna. Não importa se você tem uma encrenca de verdade com esta outra área. As melhores rixas duram tanto tempo que todos se esquecem de por que se desentenderam originalmente. Quatro sugestões infalíveis para uma bela rixa interna: entre produção e logística; entre marketing e vendas; ou, quem sabe, entre jurídico, conformidade, e ouvidoria; ou ainda entre finanças e qualquer outra área.
E, se você é um líder que não se reconhece em nenhum dos perfis acima, mas chegou até aqui (talvez porque sua empresa tenha muitos que se encaixam), vale lembrar: sob a gestão de cada executivo que se identifica com o decálogo descrito, há pessoas – possivelmente, mas não provavelmente, talentosas – que neste exato momento estão escovando o CV para deixar a empresa.
A maneira mais eficaz de elevar rapidamente a performance de sua equipe e, ao mesmo tempo, reduzir o turnover, é identificar quem compõe os times B, C e D. A lógica é simples e direta e vem de um princípio atribuído a Steve Jobs e difundido em estudos e livros de cultura organizacional de que “executivos do time A tendem a recrutar profissionais igualmente qualificados, ou seja, talentos do time A; os do time B contratam pessoas do time C; e os do time C, pessoas do time D”. Com o tempo, essa espiral descendente de desempenho pode comprometer toda a cultura corporativa.
Algumas empresas que levaram esse diagnóstico a sério criaram o que chamam, com ironia britânica, de “Bozo Detector” – um mecanismo informal voltados a identificar líderes que não conseguem atrair ou desenvolver talentos de alto nível e que, portanto, perpetuam times fracos. Segundo relatos, o método trouxe resultados surpreendentes.
Vale conferir ( aqui) as declarações do novo CEO da Unilever sobre como a empresa aplicou esse princípio em suas práticas de gestão — e o impacto que isso teve na cultura e na performance da organização.
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