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INSIGHTS

Todos os aprendizados dos líderes das cooperativas levam à inovação

O cooperativismo brasileiro nos oferece um exemplo de liderança que precisa aprender e fazer aprender; no caso, o objeto do aprendizado deve ser a inovação. A experiência da Sicredi Ouro Verde MT, no Mato Grosso, ilustra as possibilidades

Lucas Bragagnolo
29 de agosto de 2025
12 min de leitura
Todos os aprendizados dos líderes das cooperativas levam à inovação

Em um cenário de transformações tecnológicas aceleradas e de mudanças profundas no comportamento do consumidor, a inovação deixou de ser uma opção para se tornar uma condição de sobrevivência – até mesmo para modelos historicamente resilientes como o cooperativismo. Mas como inovar em um sistema baseado em valores humanos, democracia econômica e desenvolvimento local exige mais do que investir em tecnologia? Isso requer um redesenho cultural.

O cooperativismo é, por essência, um modelo inovador. Desde sua origem em 1844, foi uma resposta criativa e coletiva a um problema real. Hoje, mais de 20 milhões de brasileiros estão conectados a essa lógica de prosperidade compartilhada. E se, por um lado, a inovação tradicional costuma enaltecer disrupções individuais, o cooperativismo ensina que as maiores transformações nascem da construção coletiva – seja entre cooperados, comunidades ou entre cooperativas e startups.

Inovar, nesse contexto, não é apenas gerar valor econômico, mas também impulsionar impacto social positivo e perenidade organizacional.

Da origem inovadora ao desafio da atualização cultural

Embora o cooperativismo de crédito seja um modelo genuinamente inovador em sua origem, o passar dos anos trouxe também um certo apego ao tradicionalismo que, em muitos casos, manifesta-se como excesso de burocracia, aversão ao risco e dificuldade em lidar com a velocidade das transformações externas.

Paradoxalmente, esse comportamento acontece dentro de um setor – o financeiro – historicamente reconhecido por ser early adopter de tecnologias e práticas inovadoras. Isso evidencia um desalinhamento crítico: para que o cooperativismo não apenas sobreviva, mas prospere em um contexto de disrupções aceleradas, é urgente promover uma mudança de mindset organizacional.

O desafio do cooperativismo não é apenas cultivar práticas inovadoras, mas desenraizar mecanismos culturais profundamente institucionalizados que reforçam a aversão ao risco e a lógica da escassez. Isso exige uma abordagem ativa para desaprender, ou seja, uma em que a organização não só aprende o novo mas desaprende o que ficou obsoleto.

Nos últimos anos, o cooperativismo de crédito emergiu como uma das forças mais relevantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN), apresentando crescimento contínuo, ganhos de capilaridade e impacto socioeconômico tangível. Em 2023, o segmento alcançou R$ 731 bilhões em ativos – um salto de quase 24% em relação ao ano anterior – e já atende a mais de 17,9 milhões de associados.

Com presença em 57% dos municípios brasileiros e gerando mais de 112 mil empregos diretos, as cooperativas de crédito têm se posicionado não apenas como alternativas, mas como protagonistas na construção de um modelo financeiro mais justo, humano e eficiente.

Ainda assim, apesar do desempenho robusto, a participação do cooperativismo de crédito representa apenas cerca de 10% do SFN – bem abaixo de benchmarks internacionais, como Alemanha, Canadá e França, onde esse índice pode ultrapassar 60%. Essa discrepância revela uma janela estratégica: enquanto outros países já consolidaram o cooperativismo como espinha dorsal do sistema financeiro, o Brasil ainda opera com enorme potencial inexplorado.

Como escalar o modelo existente com estratégia, agilidade e ousadia

Não é uma questão de falta de potencial. Pelo contrário: o modelo cooperativo entrega eficiência financeira, inclusão econômica, educação financeira e fidelização acima da média. A questão central é escalar isso com estratégia, agilidade e ousadia. O que falta, portanto, não é capacidade operacional, a meu ver, e sim investimento intencional em inovação como uma alavanca estratégica de crescimento exponencial.

E, aqui, inovação precisa ser entendida além do viés tecnológico: estamos falando da inovação como disciplina, como cultura, como diferencial competitivo que transforma o modo de pensar, decidir e agir. É isso que permite às cooperativas se reinventarem, explorarem novos fluxos de receita, se conectarem com ecossistemas de inovação e ampliarem suas capacidades por meio de parcerias estratégicas com startups, edtechs, fintechs e instituições de conhecimento – capturando, assim, as oportunidades que surgem em um mercado financeiro cada vez mais fluido, fragmentado e digital.

Desenvolver competências tecnológicas não é sobre inventar a roda – é sobre saber usá-la no timing certo. Em um setor onde a inteligência artificial e a cibersegurança já definem vantagem competitiva, o conservadorismo e o medo do desconhecido podem ser letais.

O caminho? A liderança deve adquirir fluência digital, a fim conseguir antecipar riscos cibernéticos e explorar o potencial da IA para gerar valor ao associado. Essas são agora condições de sobrevivência – não tendências como alguns talvez ainda as considerem. Quem insistir em operar com as lógicas do passado corre o risco de tornar-se irrelevante em um ecossistema financeiro cada vez mais dinâmico, automatizado e competitivo.

O caso Sicredi Ouro Verde MT

Presente em Mato Grosso, a Sicredi Ouro Verde MT atua com mais de 183 mil associados e tem investido sistematicamente na construção de uma cultura de inovação robusta e enraizada em seus territórios. Sua jornada da inovação não começou com um laboratório high-tech ou com inteligência artificial embarcada em todos os processos. Começou de forma intencional, mas tradicional – e profundamente simbólica.

Em 2022, o primeiro movimento estruturado veio na forma de um hackathon com foco em desenvolvimento sustentável, reunindo colaboradores, parceiros e a comunidade para cocriar soluções que unissem impacto social, ambiental e valor econômico.

No ano seguinte, em 2023, essa faísca virou estrutura. A cooperativa criou oficialmente sua área de inovação, com a missão de transformar cultura, processos e ir além das fronteiras tradicionais do cooperativismo. E não parou por aí: naquele mesmo ano, a Sicredi Ouro Verde MT deu um passo ousado ao assumir publicamente seu compromisso com o futuro da região, ao assinar o Pacto pela Inovação de Lucas do Rio Verde – tornando-se protagonista de um movimento sistêmico para posicionar a cidade como referência global em economia verde até 2033.

Entre os avanços mais estruturantes dessa jornada, destaca-se o lançamento do programa de intraempreendedorismo Box 810. Mais do que fomentar a geração de ideias, o programa consolidou uma abordagem estratégica de desenvolvimento de pessoas orientada à resolução de problemas reais da cooperativa, previamente definidos com base no planejamento estratégico.

Com foco na construção de capacidades empreendedoras, a trilha de aprendizagem foi desenhada a partir da metodologia CEP+R (contexto, experiência, prática e reflexão), alinhando teoria e prática em um processo de formação contínua. Entre os projetos desenvolvidos, destaque para as ações focadas em recuperação de crédito, atualização cadastral e golpes e fraudes, que possibilitaram testar hipóteses com foco em experiência do cliente e eficiência operacional. O resultado contribuiu para o processo de criação de uma cultura organizacional que não apenas estimula a inovação, mas a traduz em entregas tangíveis e conectadas aos objetivos do negócio.

A mensuração da cultura de inovação continua sendo um desafio para muitas organizações. Inspirada no modelo de avaliação cultural desenvolvido por Jay Rao e Joseph Weintraub, publicado na MIT Sloan Management Review em 2013, a Sicredi Ouro Verde MT decidiu, em 2024, enfrentar esse desafio de maneira estruturada, aplicando internamente a pesquisa Quão inovadora é a cultura da sua empresa?. Essa ferramenta avalia a cultura de inovação com base em seis dimensões interdependentes: valores, comportamentos, clima organizacional, recursos, processos e sucesso.

Ao contrário de abordagens que tratam a cultura como elemento intangível, essa metodologia permitiu capturar evidências concretas sobre os fatores que sustentam – ou limitam – a capacidade inovadora da cooperativa. O diagnóstico resultante serviu como instrumento estratégico, orientando decisões sobre comunicação interna, redesenho de programas e engajamento da liderança.

Os resultados foram claros: todas as seis dimensões apresentaram evolução entre a primeira e a segunda aplicação, confirmando que a cultura de inovação não é estática, mas um ativo estratégico que pode – e deve – ser desenvolvido com disciplina e alinhamento.

É importante reconhecer, no entanto, que a Sicredi Ouro Verde MT ainda está nos estágios iniciais dessa jornada de aprendizagem e de inovação. E isso não diminui a relevância do caminho percorrido – pelo contrário, reforça a consciência de que a construção de um ambiente verdadeiramente inovador não se resume a criar uma “cultura de inovação”, mas a transformar a própria cultura organizacional com e pela inovação.

Os desafios ainda existentes não representam fragilidades, mas oportunidades latentes de mais aprendizado, alinhamento e expansão. Em vez de buscar a perfeição imediata, a cooperativa tem optado por trilhar um caminho intencional, onde cada passo pavimenta as condições para que a inovação deixe de ser uma agenda específica e passe a se expressar como um princípio transversal, que permeia decisões, comportamentos e estratégias.

A INOVAÇÃO VERDADEIRA NÃO TEM DE SER uma ruptura que ignora o passado; pode ser uma evolução que parte das raízes para gerar futuro com relevância. No contexto do cooperativismo de crédito, inovar não significa abandonar os princípios fundadores – ao contrário, significa reinterpretá-los à luz das novas demandas sociais, tecnológicas e econômicas, mantendo a centralidade das pessoas e da comunidade como diferencial competitivo.

A jornada da Sicredi Ouro Verde MT evidencia que a construção de uma cultura de inovação sólida e orientada por dados pode ser, simultaneamente, um instrumento de transformação interna e um mecanismo de resiliência estratégica. Quando a inovação é vivida como prática coletiva – e não apenas como discurso institucional –, ela deixa de ser um esforço pontual e se torna parte intrínseca do tecido organizacional, moldando decisões, comportamentos e resultados de forma contínua e integrada.

O futuro do cooperativismo de crédito não será construído apenas com tecnologia de ponta, mas com cultura viva, intencionalidade estratégica e liderança enraizada no propósito. Inovar, nesse contexto, é a arte de traduzir valores em valor não só para os associados, mas também para a sociedade.

Acredito que é nas raízes do propósito de uma organização que nasce sua força para inovar. Quem conecta passado e futuro com intenção faz com que o propósito se transforme em legado.

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Lucas Bragagnolo
Lucas Bragagnolo é engenheiro de biossistemas, gerente de inovação e processos no Sicredi Ouro Verde MT e vencedor do Prêmio Relevant Leaders (2024), da MIT Sloan Management Review Brasil e CNEX, no pilar Visão Sistêmica. É articulista da MIT SMR Brasil e atua na construção de cultura de inovação organizacional, intraempreendedorismo e transformação estratégica.

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Sumário da review: edição #37 do MIT SMR Brasil.
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