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Edição #37 do MIT SMR Brasil
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Quando mudam as arenas de competição e valor, a inovação não precisa apenas mudar de lugar no organograma; a função tem de se estruturar em três camadas para lidar com os quatro novos fundamentos da competição
Chegamos a um momento histórico em que a centralidade da inovação é inegável; as transformações físicas, digitais e sociais pelas quais as empresas passam, nisto que já chamamos de “era figital”, entrelaçam-se e criam novas arenas de competição e valor que dependem prioritariamente da energia inovadora. Mas, por isso, surge uma questão estratégica fundamental: onde, na arquitetura das funções organizacionais, deve morar o time responsável por catalisar, orquestrar, coordenar e articular os processos de inovação do negócio?
Essa decisão é crucial, porque a localização e a estrutura dessa função definem os fluxos de informação, o acesso a recursos, a influência cultural, a velocidade de experimentação e, fundamentalmente, a capacidade da organização de transformar ideias – sejam elas incrementais ou radicalmente novas – em valor sustentável.
O desafio reside em conceber uma arquitetura que não apenas direcione a energia inovadora, mas que, ao permitir a exploração de novas fronteiras, seja capaz de prover a proteção e o foco centralizado para nutrir teorias, métodos ou produtos de rupturas em seus estágios mais incipientes.
Até há pouco tempo, a abordagem organizacional à inovação podia ser colocada em um espectro entre dois extremos:
Modelo histórico. Confinava a inovação a laboratórios de pesquisa e desenvolvimento (P&D) relativamente isolados, focados em avanços técnicos sob processos lineares e, por vezes, desconectados das necessidades imediatas do negócio.
Inovação aberta. Por conta da dinâmica acelerada dos mercados, a centralidade do software e das redes, e o reconhecimento do valor gerado em ecossistemas impulsionaram a transição para modelos mais abertos, integrados e sistêmicos. O paradigma da inovação aberta sublinhou a importância de estruturas porosas, capazes de interagir com fontes externas de competências, habilidades e oportunidades.
Agora, no entanto, inovar ficou muito mais complexo, sobretudo porque inclui quatro novas necessidades:
Este artigo visa oferecer um framework flexível e princípios norteadores que auxiliem as lideranças de cada empresa a desenhar ou redesenhar a localização, o mandato e as interconexões da sua função de inovação de maneira contextualizada, capacitando a organização a navegar na complexidade figital, fomentar a criatividade transformadora e gerar impacto estratégico duradouro.
Há, como foi dito, quatro novos fundamentos conceituais que informam o design de uma arquitetura de inovação eficaz para o cenário contemporâneo, a saber:
Irracionalidade construtiva, inovação e impacto. A inovação verdadeiramente transformadora é catalisada pelo que chamo de “irracionalidade construtiva”– uma disposição estratégica para desafiar ativamente as premissas dominantes e experimentar métodos não convencionais, mesmo que pareçam contraintuitivos ou de retorno incerto no curto prazo.
A fim de que a irracionalidade construtiva prospere, a organização deve deliberadamente projetar e proteger “espaços de possibilidade”, o que pode se traduzir em unidades de inovação com maior autonomia (como laboratórios de descoberta ou equipes de “moonshots”), processos de avaliação de investimento que considerem o valor do aprendizado e da opcionalidade (não apenas retorno sobre investimento imediato), ou tempo dedicado para exploração autônoma de possibilidades.
A estrutura deve permitir que a energiadirecionada à exploração radical coexista com a otimização do core, como sugerido por modelos como as organizações de aprendizado distribuído.
Estratégias paraconsistentes. Organizações complexas, por natureza, operam com contradições estratégicas inerentes, como eficiência vs. flexibilidade; global vs. local; descoberta vs. aproveitamento. Em vez de consistência, elas atuam no âmbito da paraconsistência.
O teorema das estratégias paraconsistentes formaliza que, em vez de buscar eliminar essas tensões – correndo o risco de rigidez e eventual colapso –, as organizações resilientes desenvolvem a capacidade de gerenciar produtivamente essas contradições.
A estrutura organizacional não pode ser monolítica; ela deve ter a capacidade de apoiar e coordenar lógicas e orientações estratégicas distintas e, por vezes, conflitantes, simultaneamente. Isso pode se manifestar em estruturas paralelas (como na ambidestria), em matrizes complexas, ou em redes adaptativas – o que se pode chamar de multidestria.
Há que se dizer que essa paraconsistência também exige uma habilidade organizacional de reconfigurar dinamicamente suas capacidades e estruturas para gerenciar essas tensões. A função de orquestração da inovação torna-se, então, um nó central na gestão dessas paraconsistências, facilitando o equilíbrio e a sinergia entre polos aparentemente opostos.
Oportunidades periféricas críticas. O conceito de OPCs direciona a atenção para a “periferia” do radar estratégico atual – identificando tendências, tecnologias ou necessidades de mercado que são marginais hoje, mas possuem potencial latente para se tornarem críticas no futuro. Trata-se de um exercício de antecipação estratégica, mapeando o movimento potencial de oportunidades da periferia para o centro ao longo do tempo.
A organização precisa de uma capacidade dedicada de “sensoreamento estratégico” – o que também poderia ser chamado de “inteligência periférica”. Essa função, que deve estar fortemente conectada à estrutura de inovação, tem o mandato explícito de olhar para além do core business e dos horizontes de curto prazo. Ela atua como um “vetor” de antecipação, identificando e avaliando sinais fracos.
Governança robusta. No alto da arquitetura, os comitês de estratégia e inovação funcionam como o elo entre a visão de longo prazo do conselho de administração e a agenda de inovação da diretoria executiva. Sua função é a governança estratégica, o que inclui definir as grandes diretrizes da área, supervisionar o portfólio de inovações e garantir o alinhamento sistêmico.
Esses comitês são os “clientes” estratégicos e os patrocinadores de mais alto nível da função de orquestração da inovação. Eles definem o “quê” e o “porquê” da inovação, alocam os recursos para as apostas mais significativas ou arriscadas (frequentemente ligadas aos movimentos de irracionalidade, paraconsistência e OPCs acima descritos) e avaliam o impacto global no negócio e no ecossistema. Qualquer estrutura proposta para a orquestração da inovação deve ter uma linha direta de comunicação e reporte a esse comitê, que lhe confere legitimidade, direcionamento e os recursos estratégicos necessários para operar.
Uma vez que o dilema arquitetural central é sobre como estruturar organizacionalmente a função de inovação, podemos olhar para três tipos de modelos existentes:
A análise dos modelos citados e perspectivas externas evidencia a necessidade de irmos além de soluções simplistas. Entendemos que inexiste um modelo único ideal; antes, a estrutura deve ser contingente à estratégia da empresa, à dinâmica setorial, à cultura e à maturidade organizacional.
No entanto, há outras tendências que mostram ter vindo para ficar, como a dos modelos híbridos, que buscam combinar coordenação centralizada (para estratégia, escala e capacidades) com execução descentralizada (para agilidade e relevância contextual), a do espelhamento da estrutura com o tipo de inovação priorizado (por exemplo, metas transformacionais frequentemente requerem unidades com maior autonomia e patrocínio de alto nível), a da governança clara e a da liderança que apoia imperativa; e a do foco no ecossistema, ou seja, em uma arquitetura que favoreça a inovação aberta e a colaboração com o ecossistema externo, integrando parceiros, clientes e outras fontes de inovação.
Há um conjunto de ferramentas e lógicas arquiteturais que podem ser combinadas e adaptadas para construir a estrutura mais adequada a cada organização, ou seja, sendo calibradas de acordo com o contexto em que se inserem.
Aqui nós propomos um modelo de três camadas levando em conta as necessidades de fomentar a irracionalidade construtiva, gerenciar a paraconsistência estratégica, explorar oportunidades periféricas (OPCs) e garantir uma governança eficaz (comitês), com inspiração em uma estrutura em camadas e informada pelas melhores práticas discutidas disponíveis no mercado.
O objetivo é transcender a simples questão de “onde colocar” a inovação para definir “como” ela pode ser orquestrada enquanto capacidade dinâmica e integrada da organização.
A proposta é de uma arquitetura sistêmica organizada em três camadas distintas, porém dinamicamente interligadas, cada uma com um papel fundamental na orquestração da inovação:
Localizado no alto da estrutura de governança corporativa, é conectado ao conselho de administração e à alta liderança. Seu propósitoé definir o espaço de ambição e as diretrizes estratégicas para a inovação, alinhadas à visão de longo prazo e ao ecossistema. É o fórum que autoriza e aloca capital estratégico para as grandes apostas, incluindo aquelas que emanam da exploração de OPCs ou da irracionalidade construtiva (I³), determinando o apetite de risco. Supervisiona o portfólio global, garantindo a coerência e o impacto sistêmico, atuando como “sensores de futuros alternativos”.
Unidade ou função com mandato e visibilidade estratégicos, serve como interface entre a camada estratégica e a operacional. Seu propósito é atuar como o sistema nervoso central e o principal vetor de orquestração da inovação. É responsável por traduzir a direção estratégica em programas e iniciativas, gerenciar ativamente o portfólio paraconsistente (balanceando descoberta/aproveitamento, H1/H2/H3, risco/retorno), construir e disseminar capacidades sistêmicas de inovação (métodos, cultura I³, inteligência de OPCs) e liderar ou habilitar a exploração de inovações radicais. Conecta a organização ao ecossistema externo de inovação e tem as quatro funções listadas a seguir.
Distribuída pelas unidades de negócios, funções, produtos ou geografias, inclui redes internas e externas de colaboração, essa camada funciona como a interface com a realidade do mercado e das operações. É onde ocorre a inovação incremental, a adaptação contextual de produtos/serviços e a experimentação ágil (muitas vezes via Llanos). Crucialmente, atua como a rede sensorial primária da organização, capturando feedback de clientes, insights operacionais e sinais periféricos (potenciais OPCs) que alimentam as camadas superiores.
A eficácia desta arquitetura reside não apenas nas camadas, mas nas suas interfaces dinâmicas e no tecido conectivo que as une, garantindo que operem como um sistema coeso e não como silos isolados. Mecanismos cruciais incluem:
NA ERA FIGITAL, essa arquitetura de três camadas, interconectada por mecanismos de integração robustos, oferece um caminho para as organizações estruturarem a inovação de forma a abraçar a complexidade, gerenciar suas contradições inerentes à função e transformar a exploração criativa em impacto estratégico sustentável. O desafio a superar é o da implementação, o que também deve ser adaptado a cada contexto de empresa, mas obedece a princípios gerais, tratados neste artigo.
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